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Textos sobre Agricultura madeirense no Diário de Notícias da Madeira (1.ª série, quinzenal - de 9.9.2007 a 13.6.2010; 2.ª série, mensal, de 30.1.2011 a 29.1.2017; 3.ª série, mensal de 26.2.2017 a ...)
Este texto foi publicado no Diário de Notícias, no dia 28 de Setembro de 2025.
No passado dia 19 deste mês, a Região Madeira da Ordem dos Engenheiros (RMOE) através do Grupo de Trabalho da Especialidade de Engenharia Agronómica (GTEEA), organizou no auditório da sua sede regional uma "Tarde de Engenharia" subordinada ao tema "Sidra da Madeira IGP – Uma bebida com história e futuro". Antes de mais, importa esclarecer que quando falamos de sidra com "s", referimo-nos à bebida fermentada obtida a partir do sumo de maçãs/pêros (também conhecida entre nós como ‘vinho’ de pêros), enquanto a cidra com "c" é um citrino, que na Região é aproveitado pela sua casca que depois de cristalizada, faz parte da receita do bolo de mel de cana-de-açúcar. Esta iniciativa contou com a presença da Presidente do Conselho Directivo da RMOE, Engenheira Beatriz Jardim, que deu as boas-vindas aos convidados e participantes, tendo posteriormente dado a palavra ao Coordenador do GTEEA e moderador desta "Tarde de Engenharia", o signatário deste artigo, que no dia 1 de Abril assumiu as funções de coordenação regional daquela especialidade e de Vogal do Conselho de Especialidade de Engenharia Agronómica (órgão colegial nacional) pela Região Madeira, mandatado para o triénio 2025-2028. Perante um auditório muito bem composto pelo Vice-Presidente, Engenheiro Bernardo Araújo, pela Tesoureira, Engenheira Luísa Gouveia e pelo Vogal, Engenheiro Gilberto Figueira do Conselho Directivo Regional e membros da Ordem dos Engenheiros, pelos convidados, o Director Regional de Agricultura e Desenvolvimento Rural, Dr. Marco Caldeira da Costa, o Presidente do Instituto do Vinho, Bordado e Artesanato da Madeira, Dr. Tiago Freitas, o Presidente da Associação de Agricultores da Madeira, Engenheiro Técnico Agrário João Ferreira, o Presidente da Casa do Povo de São Roque do Faial, Prof. Heliodoro Dória e o Confrade-Mor da Confraria da Truta e da Sidra, Enfermeiro Gonçalo Jardim, produtores de sidra, entre outros interessados nesta matéria, a mesa-redonda decorreu durante aproximadamente 90 minutos, seguida de um animado período de debate e de uma prova de sidras madeirenses. A primeira intervenção coube à Engenheira Agrícola Regina Pereira Santos, da Secretaria Regional de Agricultura e Pescas (SRAP), Direcção Regional de Agricultura e Desenvolvimento Rural (DRA), com a comunicação "A História e a Evolução da Sidra da Madeira IGP". De seguida, a Engenheira Agrónoma Zita Vasconcelos da SRAP/DRA, falou sobre "A análise sensorial das sidras madeirenses (Sidra da Madeira IGP e outras sidras), suas características e potencialidades". E por fim, o Presidente da Direcção da Associação de Produtores de Sidra da Região Autónoma da Madeira (APSRAM), Vítor Maciel, fez o balanço acerca desta associação e "A situação actual e perspectivas futuras da produção de sidra na Região Autónoma da Madeira".
(Direitos Reservados)
Como é sabido, a sidra é produzida na Madeira desde sempre. Elaborada a partir de pêros/maçãs de diversas variedades regionais com excelentes características para transformação, utilizam-se de igual modo frutos que não são consumidos em fresco, por não terem valor comercial para tal, mas que devem ser aproveitados para fazer sidra. Trata-se de uma bebida leve, de baixo teor alcoólico (semelhante ao de uma cerveja, com 5 a 6 graus), muito saborosa, refrescante e diurética. Para se obter uma boa sidra, os pêros devem ter uma maturação entre o verde e o maduro, pois nessa fase, os frutos têm pouco teor de açúcares, conferindo a frescura e a acidez que se procura para este produto distinto. Das intervenções dos três oradores, houve algo em comum: a importância da preservação das variedades regionais de maçãs/pêros, a acidez e a salinidade características das sidras madeirenses, o reconhecimento da Sidra da Madeira como Indicação Geográfica Protegida a nível europeu, o que ao fim e ao cabo é aquilo que nos distingue de outras regiões produtoras de sidra, na Europa e no mundo. A Colega Regina Pereira Santos contou como começou a trabalhar por acaso, na produção de sidra, há quase 20 anos, em 2006. Nessa altura, quis o destino que encontrasse o Pe. Rui Sousa, então Pároco da freguesia dos Prazeres, concelho da Calheta, que por ser natural do Santo da Serra, era conhecedor e apreciador de sidra, ao ver que os pomares de macieira estavam quase ao abandono, ambos decidiram produzir sidra com os produtores locais e das localidades vizinhas. No decorrer dos anos, onde a vontade popular e as técnicas modernas de produção de sidra no domínio da Engenharia Agronómica se juntaram, surgiu a sidra natural engarrafada, devidamente rotulada e que foi conquistando prémios nacionais e internacionais. A Engenheira Regina Pereira Santos e demais equipa de trabalho muito deram e dão ao sector das sidras naturais madeirenses, elevando-as a um patamar de excelência que lhes é reconhecido aqui e além-mar. A Colega Zita Vasconcelos, na sua exposição, elucidou a audiência sobre a actividade da AgroSenseLab, a Câmara de Provadores de Produtos Agrícolas e Agro-alimentares da Região Autónoma da Madeira, órgão colegial multidisciplinar pertencente à SRAP através da DRA e que presta um valioso serviço no que se refere às análises sensoriais e químicas das sidras madeirenses que as valorizam. A diversidade de sidras (naturais, aromatizadas, fortificadas, envelhecidas, entre outras) reflecte-se no leque de cores, aromas, sabores e texturas, tornando-a apelativa para os amantes desta bebida, e como disse Regina Santos, igualmente para «aqueles amantes de sidra que ainda não sabem que o são», ou seja, aquelas pessoas que não conhecem a bebida, mas que ao conhecê-la tornam-se fiéis admiradores. O Presidente da APSRAM, também ele produtor de maçã e de sidra, deu conta de um passado recente, onde a sidra era vendida a granel e agora é engarrafada, dos prémios que as sidras madeirenses têm conquistado na Região e no exterior, da pouca maçã/pêro que existe actualmente para tanta procura com vista à produção de sidra, o envelhecimento dos pomares e dos produtores, e a necessidade de atrair jovens para este sector rentável e da criação de um roteiro regional da Sidra pelas localidades como o Santo da Serra, a Camacha (freguesias do concelho de Santa Cruz), Santo da Serra, Machico (freguesias do concelho de Machico), São Roque do Faial, Santana (freguesias do concelho de Santana), Jardim da Serra (freguesia do concelho de Câmara de Lobos), Prazeres, Fajã da Ovelha, Ponta do Pargo (freguesias do concelho da Calheta), entre outras. A finalizar, uma nota de agradecimento aos cinco produtores de sidra, Casa do Caramanchão (Santo da Serra, Machico), Geraldo Dória (São Roque do Faial, Santana), Marco António Faria Gonçalves (Jardim da Serra, Câmara de Lobos), Marco Teles (Santana) e às irmãs Sandra e Sónia Vargem (sítio da Lombada, Ponta do Sol), que proporcionaram aos presentes uma prova de sidras, de diferentes locais de produção e com diversas variedades regionais de maçã/pêro, tendo sido bastante elogiadas e apreciadas.
Uma tarde à volta da Sidra da Madeira IGP, da dedicação dos produtores e do contributo decisivo da Engenharia Agronómica madeirense no passado, presente e futuro desta bebida secular!
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