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Este texto foi publicado no Diário de Notícias, no dia 27 de Junho de 2021.

O livro "As Plantas e a Alimentação Mundial: Contributos sobre plantas e novos alimentos" da autoria do Professor Doutor José Eduardo Mendes Ferrão com a colaboração do Professor Doutor Luís Mendonça de Carvalho, foi editado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, em Outubro de 2020. O primeiro é Professor Catedrático jubilado de Agronomia Tropical do Instituto Superior de Agronomia da Universidade Técnica de Lisboa e da docência de pós-graduação da Universidade Católica Portuguesa. Foi Secretário de Estado de Agricultura, Presidente da Comissão Nacional da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), colaborador do Instituto de Investigação Científica Tropical como Director do Departamento de Ciências Agrárias e do Centro de Estudos de Produção e Tecnologia Alimentar. É autor de inúmeros trabalhos de investigação, técnicos e de divulgação, publicados em Portugal e no estrangeiro, mormente na área das ciências agrárias tropicais. O segundo, Biólogo, é doutorado em Sistemática e Morfologia de Plantas (Etnobotânica) pela Universidade de Coimbra, Professor Coordenador no Instituto Politécnico de Beja, onde fundou e dirige o Museu Botânico. Exerce ainda as funções de Investigador no Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa/Universidade de Évora. Na introdução desta obra com 180 páginas realça-se a importância da alimentação no decorrer dos tempos e da preocupação da humanidade em assegurá-la para todas as pessoas, tendo em vista a sua sobrevivência e bem-estar. Desde data remota que as plantas foram incluídas na alimentação humana e hoje isso é indiscutível. A produção, o consumo e a gestão dos alimentos são uma inquietação mundial, por motivos diferentes, quer pelos países que os têm em abundância, quer por aqueles que os possuem em escassez. Desse modo, esta temática das plantas e da alimentação é tão vasta que se elegeram três áreas, que redundaram em outros tantos capítulos nesta publicação: "Alimentação, Um Direito Mundial", "Para uma Dieta Equilibrada" e "As Plantas e os Descobrimentos Portugueses". O Professor Mendes Ferrão confessa no final do seu texto introdutório que ficará «[…] satisfeito se alguns dos meus possíveis leitores ficarem a saber, se o não souberem já, que o mundo é uma mescla de seres humanos de existências muito desiguais, particularmente na disponibilidade de alimentos para a sua sobrevivência».

as_plantas_e_a_alimentacao_mundial_capa_DR_blogue.(Direitos Reservados)

Segundo a Declaração Universal dos Direitos do Homem, a alimentação devia ser um dado adquirido, mas a realidade demonstra que infelizmente há muitos seres humanos que não têm uma refeição condigna. Contudo, a disponibilidade de alimentos no mundo é bastante para suprir as necessidades nutricionais de toda a população global, pese embora as sérias circunstâncias de disparidade no uso desses bens. O crescimento da população mundial, a produção de alimentos e a diversidade de países excendentários e deficitários nessa vertente, os novos hábitos alimentares e a sua relevância nos alimentos disponíveis, as várias preocupações como os aumentos da área agrícola e cultivada, das produções unitárias, da área regada, de utilização de plantas melhoradas, da protecção dos terrenos contra a erosão, entre outros, da gestão das plantas na agricultura e um certo regresso à alimentação do passado, são factores que condicionam o tão desejado acesso universal a uma alimentação que cada pessoa devia ter direito. No segundo capítulo dedicado ao valor de uma dieta equilibrada e que é o mais extenso deste livro, recorda-se a composição ideal da dieta, a dieta mediterrânica e a dieta portuguesa. Em 1977, no âmbito da campanha "Saber comer, saber viver" foi apresentada a roda dos alimentos, que foi revista em 2003 pelo projecto Saúde XXI, resultante de um protocolo entre a Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto e o Instituto de Defesa do Consumidor, onde se introduziu no centro dessa roda, a água, atendendo a que o corpo humano tem em média cerca de 60% de água. São listadas as frutas, gorduras e óleos, cereais, leguminosas e plantas hortícolas mais consumidas na alimentação portuguesa, de produção nacional ou importadas, com breves apontamentos sobre a sua origem, história, regiões de produção, botânica, composição química e nutricional, assim como formas de consumo. A título de curiosidade, menciona-se a anona da Madeira e outros frutos aqui produzidos como a banana, o mango, o maracujá, a papaia e o tomate arbóreo. Quanto ao terceiro e último capítulo, assinalam-se os produtos agrícolas que se utilizavam na Península Ibérica antes dos Descobrimentos. A bolota, fruto da azinheira, sobreiro e carvalho, era usada na alimentação animal, em especial, dos suínos, sendo igualmente consumida pelas populações quando transformada em farinha. São indicadas algumas plantas com origem no Velho Mundo e que foram introduzidas em Portugal pelos Iberos (grão-de-bico e o feijão-frade), Celtas (muitas das hortícolas e frutícolas), Fenícios (provavelmente a videira e a oliveira) e Gregos (amendoeira, marmeleiro e loureiro), Cartagineses (tamareira, romãzeira, alho, cebola e o aipo). Os Romanos trouxeram o castanheiro, o meloeiro (vindo do Irão), pepino e várias cucurbitáceas, alface, chicória, cenoura, salsa, coentro, segurelha, cominho, ameixeira, cerejeira, ginjeira, pessegueiro, damasqueiro e talvez os citrinos, enquanto que os Árabes foram portadores do trigo-duro, sorgo, entre outras culturas. Sobre a cana sacarina, O Professor José Eduardo Mendes Ferrão dá conta que de acordo com os cronistas da Época dos Descobrimentos, os Portugueses introduziram cana-de-açúcar do Algarve, da Sicília e possivelmente de outros lugares, na Ilha da Madeira, em São Tomé e no Brasil, considerando o seu peso económico. As mudanças na agricultura europeia em função da introdução de algumas plantas provenientes do Novo Mundo como a anoneira, o ananaseiro, a batata-doce, a batateira, o feijoeiro, o girassol, a goiaba, o maracujazeiro, o milho-americano, os pimenteiros, o tomateiro e a papaieira, algumas mais facilmente aceites que outras, levaram por exemplo, à substituição das bolotas e castanhas pelas semilhas [regionalismo para batatas] na alimentação do Velho Continente. Mesmo assim, a expansão e o consumo de semilha em Portugal só teve lugar no século XIX. No final, o autor faz questão de referir o grande valor dos Portugueses aquando dos Descobrimentos sobre a introdução de plantas noutras partes do mundo, com repercussões positivas no seu desenvolvimento, na agricultura e na alteração dos hábitos alimentares. Foi o caso das plantas "europeias" levadas paras as Ilhas Atlânticas, Costa africana e o Brasil, da introdução de plantas americanas como o cajueiro, muitas fruteiras e o tabaco, no Oriente, bem como das especiarias orientais no Brasil.

Uma nota de apreço para as belíssimas ilustrações e fotografias do livro, das quais realçamos as da "Revue Horticole", de "Ökonomischen Pflanzen (vários volumes)", da Colecção de Aguarelas do Departamento de Agricultura dos EUA e as de Artur Pastor, tiradas em Portugal, nas décadas de 50 e 60 do século passado.

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