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Textos sobre Agricultura madeirense no Diário de Notícias da Madeira (1.ª série, quinzenal - de 9.9.2007 a 13.6.2010; 2.ª série, mensal, de 30.1.2011 a 29.1.2017; 3.ª série, mensal de 26.2.2017 a ...)
Este texto foi publicado no Diário de Notícias, no dia 30 de Março de 2025.
No mês em que se assinalou o Dia da Mulher no passado dia 8 e na sequência de uma iniciativa da Associação Casas com Histórias intitulada "Encontro Debaixo da Latada – A Evolução da Condição da Mulher no Curral das Freiras (Séc. XIX – XXI)", assim como uma sugestão do Colega e Amigo Ricardo Costa para que escrevesse neste espaço sobre a importância da mulher na agricultura madeirense no decorrer do tempo, aqui ficam algumas notas de reflexão. Efectivamente, a mulher desempenhou ao longo dos seis séculos de História deste Arquipélago, um importante papel no meio rural e na actividade agrícola. Desde sempre que a força braçal empregue na agricultura regional é de origem familiar, isto é, exercida pelo agricultor, esposa e filhos, devido à pequena dimensão e declive das explorações e à sua dispersão. Só em práticas agrícolas como as sachas, as mondas, as colheitas, entre outras, onde era necessário recorrer a mais mãos no menor tempo possível, é que se "chamava alguém de fora", ou seja, que não pertencia ao agregado familiar. Por outro lado, no século passado mais concretamente nas décadas de 40, 50 e 60, muitos homens emigravam em busca de melhores condições de vida noutras paragens longínquas. As mulheres ficavam cá com os filhos, e era da terra, do labor agrícola, que tiravam o sustento e algum dinheiro para fazer face a outras despesas do dia-a-dia, enquanto os maridos não mandavam remessas. A este propósito dou conta que a minha avó materna, Maria Teresa Pereira, cuidou dos cinco filhos (quatro homens e uma mulher, minha mãe), enquanto o meu avô materno, José de Leça Pauleiro, procurava amealhar certo dinheiro como trabalhador numa fábrica de lã na costa leste dos Estados Unidos da América, com o intuito de melhorar o nível de vida da família. Ainda hoje, a minha mãe conta-me que a minha avó, por ter uns terrenos cultivados com bananeiras, dali tirava determinado rendimento que lhe permitia criar os filhos, enquanto os dólares norte-americanos não chegavam. Certamente, este testemunho pessoal encontrará semelhanças com outros testemunhos familiares dos leitores que lêem estas linhas. Aqui fica o meu reconhecimento aos meus avós maternos naturais da freguesia da Madalena do Mar, concelho da Ponta do Sol, por terem ambicionado por melhores condições de vida para os filhos e para os netos que na altura ainda estavam por nascer. Noutro plano daquilo que no presente se poderá chamar de empreendedorismo feminino, recordo aqui a figura de Dona Guiomar Madalena de Sá Vasconcelos Bettencourt Machado e Vilhena (1705-1789), "ilustríssima senhora" (como era conhecida) empresária e proprietária de muitos prédios rústicos e urbanos, assim como de navios, que prosperou no comércio do Vinho Madeira, tendo exportado mais de metade da quantidade daquele vinho generoso.

(Direitos Reservados - imagem gerada por Inteligência Artificial)
Actualmente e no que se refere à presença da mulher no sector agrícola, de acordo com o Recenseamento Agrícola 2019 – Região Autónoma da Madeira (RA 2019) da Direcção Regional de Estatística da Madeira (DREM), 44,8 por cento dos produtores agrícolas eram mulheres. Contudo, naquela publicação destaca-se que nos concelhos de Machico, Ribeira Brava e São Vicente, há mais mulheres produtoras do que homens e que a nível nacional, a Região é aquela que tem maior representatividade de mulheres produtoras. A população agrícola familiar que consiste no grupo de pessoas que pertencem ao agregado doméstico do produtor singular e que poderão ou não trabalhar na exploração agrícola, além de outros familiares que mesmo que não façam parte do agregado doméstico colaboram frequentemente nos trabalhos agrícolas da exploração, tinha em 2023, segundo o Inquérito à Estrutura das Explorações Agrícolas 2023 realizado pela DREM, 34.532 pessoas, das quais 16.890 (48,9 por cento) eram mulheres. De uma forma geral, podemos afirmar com algum conhecimento de causa que há muitas famílias em que a mulher é doméstica e por isso tem disponibilidade de trabalhar nos terrenos e que os maridos e filhos, por vezes, trabalham no sector da construção civil, criando-se aqui um complemento de rendimento por via da actividade agrícola desempenhada pela mulher, que vai reforçar o orçamento familiar. Mais, diz-se que aquilo que a terra dá, já não é preciso comprar no supermercado, pois é sempre dinheiro que é poupado e que poderá ser utilizado noutras necessidades familiares. Nos últimos anos também tem ocorrido o estabelecimento de empresas agrícolas lideradas por mulheres, algumas com formação superior (não forçosamente na área agrícola) e que contribuem para a modernização da agricultura regional. No âmbito das Ciências Agrárias, é notória a presença de mulheres na Região com a especialidade de Engenharia Agronómica que diariamente prestam um inestimável serviço nos domínios da assistência técnica nas vertentes da horticultura, floricultura, fruticultura e viticultura, da enologia, laboratorial, entre outros.
Presto assim a minha singela homenagem às mulheres de outrora e de agora que muito fizeram e fazem pela agricultura madeirense, tornando-a mais diversificada e próspera!
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