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Haja poios* com gente dentro!

por Agricultando, em 27.12.21

* - regionalismo madeirense para socalcos

Este texto foi publicado no Diário de Notícias, no dia 27 de Dezembro de 2021. Apesar de o Agricultando ser publicado no último domingo de cada mês, o texto deste mês foi publicado excepcionalmente numa segunda-feira, uma vez que não se publicou o DN Madeira no dia 26 de Dezembro.

Na noite de 30 de Novembro rumei a norte e participei na XXVII Semana Cultural da Ilha organizada pela Casa do Povo local, como orador da conferência "Paisagens humanizadas e Património rural edificado", que foi partilhada com a Engenheira Graça Mateus da Unidade de Gestão do PRODERAM. Por estar sempre presente no nosso olhar, damos quase por garantido que a paisagem agrícola madeirense ali permanece imutável. Porém, sabemos que isso não corresponde à realidade, uma vez que os melhores terrenos com aptidão agrícola coincidem com aqueles que têm maior potencial urbanístico e rodoviário. Numa região insular pequena e de relevo acidentado como a nossa, a convivência de interesses opostos não é fácil, em especial, nos meios mais urbanos e povoados, localizados na costa sul da Madeira, numa faixa compreendida entre os concelhos da Ribeira Brava e Machico. Na intervenção da Colega Graça Mateus foi recordado que a paisagem e o património rurais conferem identidade e diferenciação de uma comunidade e de um território, contribuem para a qualidade e diversidade da paisagem e mantêm as tradições e memórias locais. A este propósito, mencionou três personalidades que na década de 50 do século passado se debruçaram sobre esta matéria: o Agrónomo Joaquim Vieira Natividade, o Arquitecto Paisagista Gonçalo Ribeiro Telles e o Geógrafo Orlando Ribeiro. A paisagem, as construções, os instrumentos, as técnicas agrícolas, o saber-fazer e o homem são elementos do património rural. As casas típicas do concelho de Santana como componente essencial da paisagem humanizada e de outras habitações igualmente tradicionais, mas já maiores, com um andar para os quartos de dormir e outro para o armazém agrícola (loja como é conhecida entre nós) e construídas com pedra. Os remates de telhado, o balcão com cimento e a chaminé, os palheiros, as edificações destinadas a actividades artesanais e industriais como os moinhos de vento na Ilha do Porto Santo e os movidos a água como o que existe na freguesia de São Jorge e que se encontra em funcionamento, a fábrica da manteiga da Fajã da Ovelha. As levadas, os poços, as centrais hidroeléctricas, os postos de transformação eléctricos (os reforços como são designados na Região), as casas dos levadeiros, os lavadouros públicos, são exemplos do riquíssimo património rural madeirense, que merecem a nossa atenção. Na impossibilidade de recuperar tudo aquilo que devia ser valorizado e não o é por diversas razões, no final da sua comunicação, a Engenheira Graça Mateus sugeriu que as entidades locais e regionais preservassem, por exemplo, o sítio da Achada do Marques, na freguesia da Ilha, concelho de Santana, que se criasse uma rota pelas casas de colmo antigas de Santana, incentivando desse modo a manutenção das habitações recuperadas e a reabilitação das que se encontram degradadas, a Aldeia Etnográfica das Carreiras e os sítios da Maloeira e da Lombada dos Marinheiros, na Fajã da Ovelha, concelho da Calheta, com casas e palheiros distintos daquilo que se encontra na costa norte da Madeira.

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(Direitos Reservados)

No que diz respeito à minha comunicação e ao tema proposto, recorri a "Madeira – A Epopeia Rural" de Joaquim Vieira Natividade, um pequeno livro que é enorme no seu conteúdo. A 22 de Junho de 1953, a convite do Centro Madeirense do Porto, aquele insigne Agrónomo alcobacense profere uma conferência com igual título, na Associação Industrial Portuense. Trata-se, na minha opinião, dos mais belos textos sobre o Arquipélago da Madeira, porquanto descreve a chegada de João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira a estas ilhas, a ocupação do território e as principais marcas na paisagem madeirense ao longo dos então mais de cinco séculos de história, até meados do século XX. Nessa altura, Vieira Natividade observa que, apesar de existir uma Madeira mais virada para o turista, com os passeios de carros de bois no centro do Funchal, os hotéis luxuosos, os passeios a Câmara de Lobos, ao Monte, por vezes até ao Ribeiro Frio, e a Noite de São Silvestre, havia uma Madeira rural que fora construída ao longo das centúrias pelo vilão, pelo nosso agricultor, o que lhe desperta um grande interesse. Veja-se a frase «Ora a Madeira é melhor que tudo isto: é a epopeia do trabalho, a glorificação do esforço humano. Tão presente está por toda a parte a influência do homem, o fruto magnífico da sua labuta heróica, o rude afago das suas mãos calosas e ásperas, que a paisagem, por assim dizer, se embebeu dessa presença e se humanizou». Acrescenta justamente que «[...] irmanados por um amor sem fim a este palmo de terra, escreveram a mais bela epopeia agrícola de que se pode orgulhar um povo». Mais adiante afirma que «E o homem, o pigmeu, atacou a montanha. Durante séculos não cessou o trabalho rude da picareta e da alavanca, e à custa de vidas, de suor e de sangue talharam-se na rocha as gigantescas escadarias, sem que o alcantilado das escarpas, a fundura dos despenhadeiros ou a vertigem dos abismos detivessem os passos do titã. Monumento este único no mundo, porque jamais em parte alguma, com tão grande amplitude, tanto esforço humano foi empregado na conquista da terra». Perante esta herança deixada pelos nossos antepassados, urge aproveitar os lugares das Ilhas da Madeira e do Porto Santo que felizmente ainda conservam a paisagem rural humanizada tão bem narrada pelo Professor Vieira Natividade. Contudo, esses lugares só vão continuar a existir se tiver gente a viver e a trabalhar lá, ou como em tempos já escrevi nestas linhas, se houver poios com gente dentro. Só assim se irá continuar a valorizar o que de mais genuíno há no Arquipélago da Madeira.

Saibamos transmitir aos mais novos a importância deste património rural edificado, desde o pré-escolar ao ensino universitário pois só se valoriza aquilo que se conhece. No presente, as gerações até aos 20-25 anos perderam o elo com o meio rural, com o campo, até mesmo em algumas zonas rurais da Região. Recuperemos a nossa paisagem agrícola humanizada, criando condições de vida e de trabalho dessas populações por via da actividade turística e daqueles que nos visitam, bem como pelo gosto de comprarmos o que é de cá, visto que ao termos esse gesto rotineiro, estamos a ajudar para a defesa dessa paisagem rural madeirense que é singular no mundo!

E para quem me lê, votos de Boas Festas e de um 2022 com saúde e boas produções agrícolas!

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publicado às 17:12



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