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Este texto foi publicado no dia 25 de Novembro de 2018, no Diário de Notícias.

No passado dia 22 deste mês, no auditório da Casa-Museu Frederico de Freitas, no Funchal, foi lançada a reimpressão da 1.ª edição de "Fomento da Fruticultura na Madeira" de Joaquim Vieira Natividade. Esta notável obra de 1947 há muito que se encontrava esgotada, e como tal havia todo o interesse em reeditá-la. Por minha sugestão ao Coordenador do Serviço de Publicações da Direcção Regional da Cultura (DRC), Dr. Marcelino de Castro, aquele feliz desiderato aconteceu e acabei por ser convidado para prefaciar a reedição. Por não conhecer pessoalmente então o Dr. Marcelino de Castro, o primeiro contacto aconteceu por intermédio de um Amigo comum, Carlos Pereira (também conhecido por "Nené"), um excelente facilitador. Antes de abordar o livro, importa saber quem foi Joaquim Vieira Natividade. Nascido a 22 de Novembro de 1899, em Alcobaça, Vieira Natividade fez o ensino primário na sua terra natal e completou o liceu, em Coimbra. No ano lectivo 1916/1917 matriculou-se no Instituto Superior de Agronomia (ISA), em Lisboa, onde concluiu o Curso de Engenharia Agronómica em 1922, tendo realizado também naquela Faculdade, o curso de Engenheiro Silvicultor, em 1929. Em 1933, tornou-se Professor Catedrático no ISA, aprovado com mérito absoluto, embora não chegasse a leccionar, por ter sido escolhido outro candidato para a ocupação de uma vaga de docente. Depois desse episódio que o deixou desanimado, dedicou-se à investigação científica e técnica nas áreas da fruticultura, subericultura e silvicultura, desenvolvendo a sua actividade, em Alcobaça, na Estação de Experimentação Florestal do Sobreiro e no Departamento de Pomologia da Estação Agronómica Nacional, que chefiou entre Outubro de 1937 até à data da sua morte, 19 de Novembro de 1968. Dos 320 trabalhos que publicou ao longo da vida, merecem especial atenção três sobre o Arquipélago da Madeira: "Fomento da Fruticultura na Madeira" de 1947, com reimpressão desta edição no presente ano (2018), e que estreou a nova colecção do catálogo da DRC – Serviço de Publicações, denominada "Arquipélago Madeira", "A Técnica ao Serviço do Agricultor Madeirense" de 1952 e "Madeira – A Epopeia Rural" de 1953, o que demonstra amor e carinho que tinha por esta Região e pelas suas gentes. Ao folhearmos a publicação, percebe-se bem esses sentimentos.

CapaFomentoFruti2018_blogue.jpg

A 1.ª edição deste livro surge na sequência de um convite em 1945 da Direcção-Geral dos Serviços Agrícolas e da Junta Nacional das Frutas (JNF) a Joaquim Vieira Natividade para que estudasse as bases para o fomento da fruticultura no Arquipélago da Madeira, tendo sido publicado em 1947 pela JNF e pelo Grémio dos Exportadores de Frutos e Produtos Hortícolas da Ilha da Madeira. A obra que conhece agora uma "segunda vida" está dividida em duas partes: "Madeira" e "Porto Santo". Na parte da Madeira, esta subdivide-se em seis capítulos: "Introdução", "As Frutas da Madeira", "Zonas Frutícolas", "A Flora Frutícola e a Técnica Cultural", "Os Factores Adversos à Fruticultura" e "Bases Técnicas do Fomento Frutícola". As 219 páginas desta reimpressão contêm informação agronómica de grande valor na área da fruticultura de clima temperado, subtropical e tropical da Madeira e do Porto Santo, muito bem complementada com fotografias, figuras e gráficos elucidativos, que retratam uma realidade com mais de 70 anos. Porém, em muitos aspectos, mantém-se surpreendentemente actual. Ao verem as 88 fotografias da autoria de Vieira Natividade de várias localidades da Madeira e do Porto Santo, alguns leitores irão certamente lembrar-se com saudade dos tempos de outrora e outros com grande admiração por verificarem tão grandes diferenças do que era a paisagem rural madeirense há sete décadas. Para quem lê estas estas linhas e para despertar o interesse pelo "Fomento da Fruticultura na Madeira", cito algumas frases. «Rochas, água, mil climas num só clima. Escarpas, despenhadeiros, abismos nascidos de um delírio geocinético, entre brumas, na imensidade do mar; […] Paisagem agreste, grandiosa, selvagem, onde as torrentes, no Inverno, tumultuosamente cavam o leito em gigantescos barrancos, disputando à rocha o seu caminho com temeroso ímpeto» (página 18). Sobre o esforço excepcional do ilhéu em criar espaços de cultivo num território pequeno e de relevo muito acidentado diz que «ergueu [referindo-se ao Agricultor madeirense] poios sobre poios para segurar esses punhados de terra, e fertilizou-a por fim, conquistando e dominando o fio de água misteriosamente nascido nas alturas e que, transformado em levada, encaminhou com infinito labor através dos caprichosos e acidentadíssimos percursos» (página 19). Ciente da realidade agrícola insular em meados do século XX enumera que «os problemas agrícolas da Madeira têm que ser apreciados em face das realidades agrícolas madeirenses: as condições particulares de ambiente, as características da propriedade rústica, a sua fragmentação e forma de exploração, as condições económicas do agricultor, o valor da terra e da água e até a psicologia do colono e do senhorio. A solução dos problemas agrícolas tem que se ajustar a estas realidades e serão sempre soluções especiais para casos especiais» (página 24). No capítulo "As Frutas da Madeira", no ponto "Horizontes da Fruticultura Madeirense", Vieira Natividade realça a oportunidade de se apostar no abastecimento dos navios, dizendo que «[…] constitui uma das modalidades de escoamento das frutas madeirenses que se não deve perder de vista, porque em épocas normais virá a ser recurso preciosíssimo» (página 41). Esta sábia afirmação continua actual, restando saber qual é nos dias de hoje, a quantidade de hortofrutícolas de produção regional que são fornecidas aos navios de cruzeiro no Porto do Funchal, e se haverá margem para diminuir a quantidade de produtos agrícolas importados a favor do aumento do quantitativo dos nossos produtos. A resposta a esta questão terá de ser forçosamente afirmativa para acrescentar valor à economia agrícola madeirense. No final do livro, a propósito da sugestão de criação da Estação de Fruticultura da Madeira (páginas 200 e 201), escreve: «insistimos todavia neste ponto: a valorização integral dos recursos frutícolas da Madeira não pode conseguir-se sem directrizes, sem o concurso da experimentação, sem uma actuação superior, firme, persistente e consciente, integrada num plano de conjunto. Os esforços isolados, se bem que meritórios, as soluções parciais por muito razoáveis que sejam, a propaganda exuberante de retórica, por muito convincente que pareça, serão na realidade estéreis ou bem pouco frutuosos».

Bem, caro leitor, estou convicto que já agucei o apetite para ler ou reler este extraordinário trabalho, que integrado nas Comemorações dos 600 Anos da Descoberta da Madeira e do Porto Santo, merece ser lido e divulgado, não só pelos que se interessam pela Agricultura madeirense, mas por todos os cidadãos residentes na Região, os do presente e os do porvir.

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