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Textos sobre Agricultura madeirense no Diário de Notícias da Madeira (1.ª série, quinzenal - de 9.9.2007 a 13.6.2010; 2.ª série, mensal, de 30.1.2011 a 29.1.2017; 3.ª série, mensal de 26.2.2017 a ...)
Este texto foi publicado no Diário de Notícias, no dia 28 de Julho de 2025, uma segunda-feira, por motivos alheios à minha vontade. Habitualmente, o Agricultando é publicado no Diário de Notícias da Madeira, no último domingo de cada mês, e por isso deveria ter saído a 27 de Julho de 2025.
A Direcção Regional de Estatística da Madeira (DREM) disponibiliza regularmente os dados referentes ao sector primário, nomeadamente da agricultura regional, tendo publicado no passado dia 23 de Junho, no seu portal, as "Estatísticas da Agricultura e Pesca da Região Autónoma da Madeira – 2024" e "Em Foco – 2024 (Estatísticas da Agricultura e Pesca)", e dos quais fazemos um breve resumo nesta página. De acordo com o Inquérito à Estrutura das Explorações Agrícolas 2023 (IEEA 2023), a Região tinha 12.202 explorações agrícolas e uma Superfície Agrícola Utilizada (SAU) de 4.702,9 hectares, ao passo que em 2019, segundo o Recenseamento Agrícola 2019 (RA 2019), existiam 13.534 explorações e uma Superfície Agrícola Utilizada (SAU) de 4.604,4 hectares, ou seja, menos 9,8 por cento (menos 1.332 explorações que em 2019) e mais 2,1 por cento (mais 98,5 hectares que em 2019), respectivamente. Este aumento da SAU merece destaque porquanto nos recenseamentos agrícolas (que se realizam de 10 em 10 anos) e nos inquéritos estruturais (elaborados entre os Recenseamentos Agrícolas), tinham-se verificado sempre reduções, ao contrário do que foi apurado no IEEA 2023. O aumento da SAU e a diminuição do número de explorações no Arquipélago da Madeira resultou no crescimento da área média de SAU que foi de 3.859 metros quadrados, ao invés do valor calculado no RA 2019 e que foi de 3.416 metros quadrados. Nas culturas temporárias, ou seja, os cultivos cujo ciclo produtivo não ultrapassa um ano, as anuais, e as que são ressemeadas com intervalos que não vão além dos cinco anos, no IEEA 2023 apuraram-se 1.454,1 hectares em vez dos 1.604 hectares inscritos no RA 2019 (menos 9,3 por cento). As quebras das áreas de hortícolas (menos 21,6 por cento), culturas industriais (onde se inclui maioritariamente a cana-de-açúcar, menos 20,1 por cento), flores e plantas ornamentais e no conjunto de batata-doce com o inhame (ambas com decréscimos de 18 por cento), foram as que mais contribuíram para aquela descida. Nas culturas permanentes (frutos de climas temperado e subtropical, citrinos, vinha, entre outras), a área em 2023 era de 2.434,2 hectares, enquanto em 2019 era de 2.322,4 hectares (mais 4,8 por cento). Este crescimento deveu-se ao aumento da superfície dos frutos subtropicais (com realce para a banana), que passou de 1.076,4 hectares em 2019 para 1.208,2 hectares em 2023 (mais 12,3 por cento). Neste grupo, a vinha (castas europeias e produtores directos como a uva americana, "jaqué", "canim", entre outras), foi a segunda mais representativa em 2023, pese embora a diminuição de área na ordem dos 13,3 por cento, quando comparada com 2019.
(Direitos Reservados - imagem gerada por Inteligência Artificial)
Nos números estimados pela Direcção Regional de Agricultura e Desenvolvimento Rural para 2024, constata-se que nas culturas temporárias, a semilha*, a cana-sacarina, a batata-doce, a couve repolho e a cebola foram as cinco primeiras culturas com 595, 155, 350, 106 e 136 hectares, e 17.353, 8.920, 7.703, 3.874 e 3.643 toneladas, respectivamente. Se compararmos com os dados de produção de 2023, a couve repolho, a cebola, a semilha e a cana-de-açúcar, tiveram incrementos de 15 por cento (mais 505 toneladas), 9 por cento (mais 301 toneladas), 4,3 por cento (mais 714 toneladas) e 0,7 por cento (mais 60 toneladas), respectivamente. No que concerne à batata-doce, esta decresceu 8,1 por cento (menos 679 toneladas). Nas culturas permanentes e em relação a 2024, a banana, a vinha (castas europeias e uva de mesa), a maçã regional, o limão e a anona, ocupavam 891, 380, 116, 64 e 124 hectares, e atingiram 25.688, 3.232, 1.576, 1.075 e 959 toneladas, respectivamente. Neste quinteto de culturas e ao conferirmos com os quantitativos de 2023, verificamos acréscimos na ordem dos 20 por cento na anona (mais 160 toneladas), 5,1 por cento no limão (mais 52 toneladas) e 2,8 por cento na maçã regional (mais 43 toneladas de maçã regional), assim como decréscimos de 20,5 por cento na vinha (menos 833 toneladas) e de 3 por cento na banana (menos 783 toneladas). Como é perceptível pela informação anteriormente exposta, a agricultura é um sector dinâmico por via das evoluções positivas ou negativas das áreas e das produções agrícolas regionais. As causas para que haja diminuição de áreas e produções poderão ser internas ou externas ao Arquipélago. As internas têm a ver com a estrutura das explorações agrícolas, sobretudo de pequena dimensão, dispersas por várias parcelas, a competição pelo mesmo "pedaço de terra" entre as actividades agrícola e imobiliária, as condições climáticas adversas, as pragas e doenças (algumas introduzidas há pouco tempo), a escassez de mão-de-obra agrícola, a falta de garantia do escoamento das produções (como sucede por exemplo na banana, na cana-sacarina e nas uvas para Vinho Madeira e Vinho de Mesa madeirense), enquanto que as externas estão relacionadas com a importação de produtos agrícolas a preços competitivos, o custo elevado dos factores de produção (fertilizantes químicos e pesticidas de uso agrícola), entre outros. Noutros textos e por vivermos em ilhas, já aqui referi que uma maneira de contrariar a redução das áreas e produções agrícolas parte da atitude de cada um de nós como consumidor. Ao adquirirmos os hortofrutícolas locais e da estação, estamos a colaborar para manter e provavelmente a aumentar as superfícies de cultivo agrícola, fixando populações num meio rural cada vez mais desertificado. Mais, o sector da hotelaria e da restauração deve comprar mais produções agrícolas regionais, assim como as cantinas das escolas e dos refeitórios dos lares, que deveriam ter o cuidado de fornecer refeições com os nossos produtos agrícolas (e não de origem importada, por vezes até desconhecida!), por serem mais frescos e de elevada qualidade.
Demos valor ao que é nosso, ajudemo-nos uns aos outros, para que a paisagem agrícola madeirense tão admirada por todos continue a ser uma realidade no presente e no futuro!
* - regionalismo madeirense para batata
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