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Este texto foi publicado no Diário de Notícias, no dia 29 de Junho de 2025.

O Secretariado-Geral do Conselho da União Europeia (UE) através da Equipa de Análise e Investigação (ART – Analysis and Research Team), num artigo científico intitulado "From screens to fields: how digitalisation is transforming agriculture" ("Dos Ecrãs aos Terrenos: Como a Digitalização está a Transformar a Agricultura"), publicado em Fevereiro de 2025 e disponível na internet, faz um ponto da situação da evolução da digitalização agrícola. Segundo aquela publicação, o surgimento em 1995 do sistema de monitorização de áreas agrícolas baseada na tecnologia GPS marca o início de uma nova era para a agricultura, a agricultura de precisão, baseada na recolha e análise de dados que auxilia os agricultores a diminuir custos, a manterem-se competitivos e a reduzir o impacto ambiental resultante da sua actividade. Naquele ano, apenas 0,8 por cento da área agrícola dos Estados Unidos da América estava abrangida por aquele tipo de tecnologia. Nos 20 anos seguintes, os sistemas autoguiados estavam a ser utilizados em 60 a 70 por cento da área agrícola norte-americana, em 30 a 50 por cento na Europa e em mais de 90 por cento na Austrália. Nessa época, 70 a 80 por cento dos novos equipamentos agrícolas vendidos na UE já incorporavam tecnologias de agricultura de precisão, realçando assim o rápido crescimento e a adopção generalizada em duas décadas. No presente, a agricultura inteligente como também é conhecida a agricultura de precisão, está quase em toda a parte e os seus benefícios são inegáveis. Como exemplo, os pulverizadores de precisão com câmaras incorporadas e software de reconhecimento de imagem podem reduzir a utilização de herbicida em 70 a 90 por cento. Na irrigação, a instalação de sensores de temperatura e de humidade do solo prometem uma poupança de água até 50 por cento. A identificação de plantas infestantes, de pragas e doenças está à distância de uma aplicação de telemóvel. As tecnologias de vanguarda surgem a todo o instante com a mais recente inteligência artificial, abrindo novas possibilidades no terreno. Porém, ao mesmo tempo, este processo transformador não está isento de defeitos, pois a par das questões de segurança de dados, as lacunas persistem, no que diz respeito ao acesso desta tecnologia, das infra-estruturas e da formação. Além do mais, paralelamente à disseminação de soluções digitais inovadoras, os desafios no contexto global da agricultura também multiplicaram-se. Os agricultores na União Europeia estão a lutar com matérias complexas como as alterações climáticas, a degradação dos ecossistemas, a competitividade crescente, as perturbações nos mercados e o aumento dos custos de produção agravados por crises como a covid-19 e a guerra na Ucrânia, onde periodicamente se assistem a níveis considerados críticos como aconteceu em 2024.

Ao longo de 19 páginas, este artigo científico aborda a digitalização agrícola como uma tendência que pode desempenhar um papel importante no desenvolvimento do futuro da agricultura. A digitalização quando usada com ponderação pode ser parte da solução para os desafios que a agricultura enfrenta nos dias de hoje. A primeira parte deste trabalho incide sobre o conceito de "revolução" digital na agricultura, dando um retrato do estado actual de alguma evolução lenta e o seu lugar na UE. A segunda parte analisa os principais agentes da digitalização e aponta para os possíveis benefícios das soluções digitais e que está organizada à volta de três desafios intimamente interligados: eficiência (produzir mais com menos recursos como terra, água e mão-de-obra, não obstante as incertezas crescentes) sustentabilidade ambiental e resiliência socioeconómica. A terceira e última parte foca-se nos riscos do processo e nas questões que podem maximizar os benefícios, na identificação de imprevistos e de encontrar políticas que atenuem os seus efeitos, aumentando assim o nível de aceitação e uma melhor utilização das tecnologias digitais. Em jeito de conclusão, a transição simultânea da digitalização e da sustentabilidade irão desempenhar um papel fundamental no devir da agricultura da União Europeia. As tecnologias digitais têm um enorme potencial para o avanço de práticas agrícolas sustentáveis em termos ambientais e sociais, bem como no maneio eficiente de recursos como a água e os nutrientes. A tomada de decisão e os processos automatizados simplificam o dia-a-dia do agricultor, proporcionando-lhe mais qualidade de vida. Importa dizer que a digitalização é apenas um dos aspectos relacionados com o futuro da agricultura e não uma solução para todos os desafios que o sector enfrenta. Mesmo assim poderá ter um impacto positivo em áreas sensíveis para a agricultura como a gestão de riscos, a renovação geracional ou o cumprimento dos requisitos reguladores e de divulgação de informação. Por outro lado, a dependência crescente de registo de dados na actividade agrícola traz benefícios, mas também riscos. Os problemas de conectividade, a falta de infra-estruturas e de literacia digital, bem como o custo elevado destas tecnologias, são comuns a muitos agricultores. A partilha de dados e os ciberataques, assim como a ausência de um quadro legal compromete a confiança nas soluções digitais. Ao fim e ao cabo, a transformação digital na agricultura articular-se-á igualmente na vontade dos agricultores em adoptar as práticas digitais. Para que haja estímulo, é crucial que as ferramentas digitais tenham uma função complementar em vez de substituir-se ao Homem, de melhorar em vez de menosprezar a experiência do agricultor. A formação, um quadro legal de governança de dados e uma abordagem centrada no ser humano, podem ajudar a contribuir para uma confiança do agricultor acerca desta matéria.

Quanto ao que se passa no país e na Região, já existem entidades públicas e privadas que trabalham com a digitalização na agricultura e que se tornam cada vez mais visíveis, atraindo sobretudo jovens que possuem literacia digital e gostam da actividade agrícola moderna, o que poderá ir ao encontro da tão desejada renovação geracional.

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publicado às 17:16


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