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Textos sobre Agricultura madeirense no Diário de Notícias da Madeira (1.ª série, quinzenal - de 9.9.2007 a 13.6.2010; 2.ª série, mensal, de 30.1.2011 a 29.1.2017; 3.ª série, mensal de 26.2.2017 a ...)
Este texto foi publicado no Diário de Notícias, no dia 26 de Janeiro de 2025.
Na escolha do tema do "Agricultando" deste mês veio-me à memória o boletim informativo "Memória" número 35 de Outubro de 2015 (disponível aqui) dedicado aos poios e publicado pelo então Centro de Estudos de História do Atlântico (actual CEHA – Alberto Vieira), com coordenação do Historiador Alberto Vieira (1956-2019) e colaboração de Graça Alves e Cláudia Faria. Na sua introdução diz-se que «Imagem da Ilha da Madeira, os poios são um traço definidor da paisagem agrícola. Esculpido nas montanhas, desenhos [quase lineares] de basalto sustêm as terras, separam as culturas, organizam o olhar e a propriedade». O Geógrafo Orlando Ribeiro é citado através da sua obra ‘A Ilha da Madeira até meados do século XX – Estudo geográfico’ de 1985: «Os poios cobrem toda a superfície cultivada. Sobem desde o litoral até 700 ou 800 metros de altitude. Se o declive é médio, o poio não é mais do que um pequeno muro de sustentação separando parcelas mais ou menos inclinadas. Mas se o declive é muito acentuado é necessário levantar um muro alto e espesso. Nas arribas para suster as terras destinadas às culturas mais ricas (bananeira e cana-de-açúcar), vêem-se parcelas onde a superfície cultivada é inferior à dos muros que a protegem». Sobre a complexidade de construção dos poios, Orlando Ribeiro acrescenta que: «[…] Não basta construir poios: é necessário ainda criar o solo. Frequentemente os muros assentam na rocha nua. Vai-se então buscar a outro lado terras de boa qualidade, que se transportam em cestos e se mistura em diversas proporções. Muitas vezes esta terra constitui um solo artificial que nada tem a ver com a rocha sobre o qual assenta. […] Constituem unidades de exploração». Por tudo isto, é preciso olhar e preservar no presente, pensando já no futuro, sobre este património edificado rural que os nossos antepassados por necessidade e mesmo sobrevivência, o executaram à força de um incessante trabalho braçal.

(Direitos Reservados)
No referido boletim, dá-se ainda conta que «À pequenez do espaço geográfico que habita, o madeirense antepõe a ideia da ilha como o centro do mundo, afirmando, assim, a sua anti-insularidade. A ideia de poio como forma de delimitação e afirmação do seu espaço e da sua vida conduz e reforça o isolamento e a insularização. […] É lá que o madeirense encontra espaço para construir a casa, a terra para explorar os recursos que nunca garantem em pleno a sua subsistência. Aqui construiu o seu mundo». Ao contrário de outros arquipélagos vizinhos como os Açores e as Canárias, onde «[…] é nítida a noção arquipelágica do espaço, a ideia de que a nossa ilha se projecta e estende noutra que está próxima, por isso não sentimos de forma nítida a noção de fronteira, porque na ilha do horizonte aparece já o perfil de outra linha. Na Madeira, não é assim. Embora sejam visíveis outras ilhas na linha do horizonte, o madeirense tem a noção de que são espaços mais limitados e carentes que a sua própria ilha e que, em vez de suprirem algo de que necessitam, são muitas vezes concorrentes na partilha dos seus parcos recursos. […] Na linha do horizonte, há a noção de que não existe outra ilha capaz de alargar o seu espaço limitado. Daí a luta pelo seu torrão natal, gerado desde princípios do século XV com a construção dos poios». Na publicação em apreço faz-se referência à literatura, quer de autores regionais, quer nacionais e estrangeiros, em que os poios são exaltados e dos quais cito alguns: «Na vertente sul, dentro da área irrigada, a mancha incrível de retalhos, de minúsculos poios que se sobrepõem e ajustam ao sabor do relevo do solo como peças de um gigantesco puzzle, começa nas fajãs, à beira-mar, trepa pelas falésias, assalta as encostas e as lombadas, e só cessa no alto, junto à coroa florestal, onde a água escasseia e o clima é já adverso à cultura agrícola intensiva» (Joaquim Vieira Natividade em ‘Madeira – A Epopeia Rural de 1953, com 2.ª edição em 1954); «o milho e a sopa, as batatas e as couves, colheita de uns poiozinhos pequenos atrás da casa, lá isso nunca faltava à vida, sem que soubessem o que era a fome» (Irene Lucília Andrade em ‘A Penteada ou o fim do caminho’); «Os poios, a cultura em socalco praticada pelos camponeses da Madeira, são uma espécie de escadaria para o céu, uma escadaria que, certamente, um dia, os conduzirá ao céu, pelo que representa de luta para tirar o máximo da terra, uma terra acidentada, montanhosa, hostil» (Carlos Cristóvão em ‘No Vale de Machico’ de 1966); «A fertilidade do solo, por si, sem mais nada, seria condição primária de os camponeses se prenderem aos seus lugarejos com amor indissolúvel, não se apartando uns dos outros senão quando Deus o ordenasse, vivendo na santa paz da família, (…) se cada um possuísse uma nesga de terra [isto é, um poio] a que pudesse chamar sua e a legasse, por morte, à descendência» (Horácio Bento de Gouveia em ‘Canga’ citado por Nelson Veríssimo em ‘Narrativa Literária de Autores da Madeira, Séc. XX, Antologia’ de 1990). No boletim informativo podem ler-se também os testemunhos de Jorge Ramos, Teresa Valério e Emanuel Janes sobre os poios, desde as memórias de infância até ao que estes representaram no passado, para os locais e os visitantes.
E por estar a falar de poios que precisam de ser irrigados, recordo uma ideia que escrevi neste espaço a 26 de Junho de 2016, a de que as levadas e os poios estão intrinsecamente ligados, ou seja, não haveria levadas sem poios e não haveria poios agricultados sem levadas que levassem a água até lá. Que as levadas e os poios da Madeira possam um dia ser considerados Património Mundial pela UNESCO, numa possível reformulação futura mais abrangente da candidatura das Levadas da Madeira, e que esta passasse a ter a designação de Levadas e Poios da Madeira.
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