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O doce saber-fazer das nossas gentes!

por Agricultando, em 27.09.20

Este texto foi publicado no Diário de Notícias, no dia 27 de Setembro de 2020.

Ele há tradições no nosso Arquipélago que nos continuam a surpreender. Foi o que aconteceu comigo, quando tive conhecimento da exposição temporária "Do teu fruto, o mel" organizada pelo Museu Etnográfico da Madeira (MEM) localizado no centro da Vila da Ribeira Brava, que está ali patente desde 1 de Setembro e que se prolonga até 5 de Dezembro. Para os menos familiarizados com o significado da palavra mel na Madeira, importa clarificar que não nos referimos apenas ao mel de abelha, mas igualmente ao mel de cana-de-açúcar que está autorizado a ter aquela designação. É claro que, em termos técnicos, quando se fala de mel, estamos a falar da substância açucarada que as abelhas preparam com o suco das flores e depositam nos alvéolos dos favos. Porém, entre nós, a denominação mel vai muito além do produto laborado pela abelha. No tempo em que era caro comprar mel de cana-de-açúcar para a confecção dos «bolos e broas da Festa [regionalismo para Natal]», o "engenho e arte" populares descobriram duas alternativas ao alcance de qualquer pessoa: o mel de figos e o mel de "vinho em mosto". No presente, este saber-fazer remoto é ainda usado pelas gentes dos sítios da 1.ª, 2.ª e 3.ª Lombadas, freguesia da Ponta Delgada, concelho de São Vicente. Coincidência ou não, é naquela freguesia nortenha que existem muitas figueiras, pelo que desde sempre houve o cuidado de aproveitar os frutos que não eram consumidos em fresco, recorrendo à sua transformação em mel de figos. Este derivado é utilizado na preparação dos bolos de mel e das broas de mel, do bolo de rolão doce, da macia (mistura de aguardente com mel), para verter sobre as malassadas no Carnaval, como substituto do açúcar no café ou no chá e para barrar no pão. Já o mel de "vinho em mosto" aparece nos sítios da 2.ª e 3.ª Lombadas desde tempos idos com recurso aos produtores directos como o "jaqué", o "herbemont" e o "americano", e que, nos dias de hoje, é preservado para obter o mosto que será transformado em mel.

Para obter o mel de figos, recorre-se aos figos vindimos, isto é, àqueles que são colhidos durante o mês de Agosto até às primeiras chuvas de Setembro. De acordo com testemunhos recolhidos por Técnicos do MEM junto de duas famílias, João Irineu Líbano, Maria Gilda Caldeira, Maria Gorete Fernandes e António Raimundo Fernandes, que actualmente confeccionam este derivado, os figos devem estar bem maduros, "arregoados" (com fendas na casca), com o pingo de mel na extremidade do fruto. Para que se consiga um litro de mel de figos são necessários aproximadamente 15 quilos de figos, mas se o ano for seco, precisam-se de 20 quilos para alcançar igual quantidade de mel. Na cozedura, retira-se o talo e parte da casca dos frutos, para que o processo seja mais rápido, perfazendo mesmo assim uma hora e meia de cocção até os figos terem uma cor caramelizada. A seguir, deitam-se dentro de um saco de serapilheira que é amarrado com uma corda e pendurado a uma altura de 80 centímetros do chão. Com o auxílio de dois paus roliços e duas pessoas, espreme-se o saco para extrair o máximo de sumo ou "vinho" como também é conhecido, para uma banheira larga. O sumo é coado e vertido numa panela, onde coze em lume brando. À medida que ferve, vai engrossando e adquirindo uma tonalidade escura e consistência espessa, processo este que decorre no espaço de três horas, dependendo do tipo de mel que se pretende, mais ou menos líquido. Ao estar finalizado, o mel de figos arrefece pelo menos 12 horas e é armazenado em garrafas de vidro escuro durante todo o ano. No primeiro mês, são tapadas com folhas de vinha, uma vez que o mel ainda está a fermentar, sendo posteriormente arrolhadas com um pano amarrado ao gargalo. O mel de "vinho em mosto" acontece em Setembro, quando o mosto é retirado da tina do lagar, antes da fermentação. Morador no sítio da 3.ª Lombada, Ricardo Jesus, prepara este tipo de mel há algum tempo para ser usado nos bolos de mel e nas malassadas, tendo aprendido com Cândida de Jesus, sua vizinha, que lhe disse que os avós já o faziam. São necessários 2 litros de "vinho em mosto" para conseguir um litro de mel. O mosto é fervido e o seu volume diminui por causa da evaporação, ficando mais denso, em mel. Depois, «baixa-se o lume» e as impurezas que se encontram à superfície são retiradas com uma colher, sendo colocado em garrafas que devem ser guardadas num local seco e escuro. Eis assim, a descrição possível destes dois modos de produção de um produto que se aproxima do mel de cana-de-açúcar e que foi uma maneira inteligente e acessível para que na Festa não faltassem os bolos de mel e as broas de mel e que, ao longo do ano se pudesse adoçar a boca!

Vale, pois, a pena visitar o MEM e a exposição "Do teu fruto, o mel", e deliciar-se com o doce saber-fazer das nossas gentes!

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publicado às 16:21


Agricultando, 13 anos depois!

por Agricultando, em 09.09.20

A 9 de Setembro de 2007 nascia o "Agricultando", rubrica de opinião sobre Agricultura madeirense na então revista do Diário de Notícias da Madeira.

Captura de ecrã 2015-09-9, às 22.06.57.png

O "Pêro da Ponta do Pargo em festa" foi o primeiro artigo de um conjunto de 186 textos publicados até à presente data (71 textos da 1.ª série - 9.9.2007 a 13.6.2010, 72 textos da 2.ª série - 30.1.2011 a 29.1.2017 mais 43 textos da 3.ª série iniciada a 26.2.2017, e que se encontra em curso). A estes cento e oitenta e seis escritos há que juntar mais dois artigos-resumo das 1.ª e 2.ª séries que foram publicados no Diário de Notícias da Madeira a 13.6.2010 e 29.1.2017, respectivamente.

Depois, os 71 textos da 1.ª série transfomaram-se em livro a 21 de Março de 2011 com a respectiva versão inglesa, a 16 de Dezembro de 2013.

Passados 13 anos nunca pensei estar ainda a escrever. O facto de saber que o Agricultando é lido por muitos leitores do Diário de Notícias da Madeira, aqui no blogue e na página de facebook, dá-me vontade de continuar, fazendo aquilo que mais gosto: escrever sobre o que de bom a Madeira e o Porto Santo tiveram ou têm, na agricultura e na gastronomia.

Muito agradecido a quem me lê!

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publicado às 12:01


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