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Este texto foi publicado no Diário de Notícias, no dia 29 de Dezembro de 2019.

A Escola Prática Elementar de Agricultura localizada no sítio do Lugar de Baixo, freguesia e concelho da Ponta do Sol, foi criada por deliberação da Comissão Executiva da Junta Geral do Funchal, em reunião de 6 de Maio de 1953. Esta e outras notas que a seguir se apresentam, resultam de um artigo da autoria do Engenheiro Agrónomo Renato Gouveia publicado no número 143 de Novembro de 1969 do Suplemento Agrícola do Boletim Distrital da Junta Geral do Distrito Autónomo do Funchal (JGDAF). O reconhecimento da formação profissional insuficiente dos trabalhadores rurais madeirenses e a necessidade de melhoria das diferentes técnicas de cultivo justificava a possibilidade de ministrar os conhecimentos basilares para a aprendizagem, apreensão e aplicação prática de normas de cultura da terra, que proporcionassem o aumento da produção e o rendimento das pequenas explorações agrícolas locais com o consequente aumento do nível de vida rural. Assim, importava aperfeiçoar a componente técnica de todas as culturas, em especial as das hortofrutícolas, dos tratamentos fitossanitários, do tratamento do gado, da lacticultura e noções gerais de administração. No seu texto, o Engenheiro Agrónomo Renato Gouveia, que foi docente e Director daquela Escola, defendia que «[...] tratando-se de uma ilha com características meteorológicas muito especiais, só aqui [referindo-se à Madeira] podem ser instruídos e preparados os profissionais que melhor devem servir a agricultura desta região». A Escola Prática Elementar de Agricultura funcionou entre 1 de Outubro de 1954 e 1976 em regime de internato e recebia alunos com idades compreendidas entre os 13 e 16 anos, que tivessem completado o ensino primário (4.ª classe, actual 4.º ano), mostrassem ter saúde e robustez física e que tivessem trabalhado e vivido no meio rural. O curso correspondia a três anos lectivos, onde os dois primeiros eram leccionados no Palacete do Lugar de Baixo (também conhecido como Palacete dos Zinos) e o terceiro e último ano, na Quinta do Bom Sucesso, freguesia de Santa Maria Maior, concelho do Funchal.

escola_prat_elementar_agric_casa_palacete_DR.jpg(Direitos Reservados)

Como curiosidades da Escola Prática Elementar de Agricultura, os alunos tinham um horário escolar semelhante ao da jorna "de sol a sol", com pequeno almoço às 7 horas, almoço das 9 às 10 horas, jantar das 14 às 15 horas e ceia às 20 horas, com o estudo a ter lugar depois daquela hora até às 21h30. As aulas teóricas eram dadas na sala no período normal de trabalho diário, com uma duração de 50 minutos por lição. O ensino teórico e prático abrangia áreas do conhecimento como o estudo do solo e do clima, operações culturais e fertilização da terra, estudo das plantas, culturas arvenses, culturas hortícolas, jardinagem, vinhas, culturas frutícolas, culturas industriais, vinificação, apicultura, noções de agrimensura e escrituração, estudos dos animais, criação e tratamento do gado (noções gerais), doenças dos animais, criação de aves, criação de bovinos, criação de suínos, ovinos e caprinos e indústria animal. Além destes saberes eram dadas aulas de português, geografia, ciências naturais e aritmética, possibilitando assim um aumento da cultura geral. Esta Escola começou a 1 de Outubro de 1954 com 12 alunos, tendo depois passado a admitir até ao limite máximo de 20. O artigo do Engenheiro Agrónomo Renato Gouveia dava conta que entre a abertura da instituição e Novembro de 1969 tinham-se matriculado 250, dos quais 102 tinham concluído o curso, que lhes conferia a categoria de capataz agrícola, ficando a maioria colocada na JGDAF, nomeadamente na Estação Agrária e na Intendência de Pecuária, alguns em empresas particulares e outros como emigrantes nas antigas províncias ultramarinas de Angola e Moçambique, no Brasil e na Venezuela.

A terminar, duas referências ao Engenheiro Agrónomo António Camacho Teixeira de Sousa, então Presidente da JGDAF e mentor da Escola Prática Elementar de Agricultura, e ao Engenheiro Agrónomo Rui Vieira, o primeiro Director daquele estabelecimento de ensino, que formou dezenas de técnicos habilitados com um sólido conjunto de conhecimentos teóricos mas sobretudo práticos, que muito contribuíram para o desenvolvimento da Agricultura madeirense das últimas seis décadas e meia. Num tempo em que na Região havia poucos Engenheiros Agrónomos e Engenheiros Técnicos Agrários, urgia apetrechar rapidamente os serviços oficiais de técnicos auxiliares que pudessem dar uma resposta técnica aos anseios e necessidades dos agricultores e esse desiderato foi plenamente atingido. A título pessoal, tive o grato prazer de ter trabalhado na então Divisão de Fruticultura, de meados dos anos 90 do século passado até à primeira metade da primeira década desta centúria, com alguns destes antigos alunos da Escola Prática Elementar de Agricultura, podendo constatar o seu profissionalismo, a dedicação e o mérito do seu labor, quer nos serviços, quer pelos testemunhos dos agricultores. Aqui fica pois, um singelo tributo a todos os que foram estudantes da Escola do Lugar de Baixo, como também era conhecida.

A si, caro leitor, resta-me desejar a continuação de Boas Festas e votos de um excelente 2020!

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