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Sidra, uma bebida com história na Madeira

por Agricultando, em 24.06.18

Este texto foi publicado no dia 24 de Junho de 2018, no Diário de Notícias.

No passado dia 14 e integrada na 4.ª Semana das Sidras da Madeira, realizou-se a conferência "Das Maçãs às Sidras", na Escola Agrícola da Madeira, em São Vicente. Esta iniciativa organizada pela Quinta Pedagógica dos Prazeres (QPP) com o apoio da Secretaria Regional de Agricultura e Pescas/Direcção Regional de Agricultura (DRA) e a Câmara Municipal da Calheta, procura divulgar a história e a diversidade dessa bebida fermentada a partir do sumo de maçã/pêro, que é produzida um pouco por toda a Madeira. A conferência contou com três oradores: o Prof. Manuel Gonçalves, Responsável pelo CDISA – Quinta Leonor, no Jardim da Serra, a Engenheira Regina Pereira da DRA, que desde 2006 tem dado apoio técnico para a produção de sidra e seus derivados à QPP e Jesús Gómez Solórzano, produtor de sidra da região de Cantabria, Espanha. O Prof. Manuel Gonçalves apresentou "A Macieira: Preservação e valorização das variedades regionais", tendo dito no início, que apesar de não ter formação em ciências agrárias, queria deixar o seu testemunho baseado na experiência pessoal. Fez o enquadramento histórico da cultura da macieira na Região, que já era referida na obra do Pe. Gaspar Frutuoso "Saudades da Terra" de finais do século XVI e no livro "Fomento da Fruticultura na Madeira" (1947) de Joaquim Vieira Natividade, onde este ilustre Agrónomo elogiava a diversidade genética de macieiras na ordem de uma centena de variedades regionais ou «tidas como tais». Actualmente, é preocupante o envelhecimento dos pomares de macieira e o maneio insuficiente ou mesmo inexistente, tendo como consequência a redução do número de exemplares por variedade de macieira. Para contrariar ou inverter essa tendência de desaparecimento varietal, deu os exemplos do CDISA – Quinta Leonor que tem cerca de meia centena de variedades regionais, algumas com nomes vulgares que diferem de localidade para localidade, mas que são a mesma variedade, a realização de certames agrícolas alusivos ao fruto e à sidra um pouco por toda a Região e o trabalho encetado pela DRA, Associação de Agricultores da Madeira, Universidade da Madeira, QPP, Associação de Produtores de Sidra da RAM, entre outros. O conhecimento científico é fundamental para a preservação, pelo que têm sido realizados trabalhos técnicos sobre a cultura da macieira e seus derivados, bem como a inclusão oportuna de dez variedades regionais no Catálogo Nacional de Variedades. Falta (re)introduzir as variedades regionais de macieira e os transformados no mercado regional, pois estes desapareceram ao longo do tempo. Há que defender este legado histórico e respeitar o trabalho notável dos nossos antepassados, transmitindo-o às gerações vindouras. A Engenheira Regina Pereira na comunicação "Sidras da Madeira" mencionou igualmente o Historiador Gaspar Frutuoso e o Professor Engenheiro Joaquim Vieira Natividade que na obra "Fomento da Fruticultura na Madeira" questionava «Porque persistimos em menosprezar a árvore de fruto? Porque razão nós, tão pobres de bens, desdenhamos tal riqueza?». Esta frase com mais de 70 anos continua surpreendentemente actual, pois apesar de um ou outro esforço em recuperar as variedades regionais de macieira, aliás reflectido no registo de dez variedades de macieira no Catálogo Nacional de Variedades, muito ainda há por fazer. Esclareceu que a palavra sidra com "s" deriva do latim sicera, e como tal, é preciso não confundir com a palavra cidra com "c" que se trata de um citrino, cuja casca cristalizada é usada na confecção do bolo de mel de cana-de-açúcar. Na Madeira, a sidra é uma bebida com história intimamente ligada ao meio rural, onde se concentra a produção e o consumo associado às gerações mais antigas. Porém, esta bebida está na moda e há multinacionais a produzi-la. No presente, é comum misturar a sidra com outros frutos, como por exemplo o limão, tornando-a mais apetecível para os jovens. Na QPP, à sidra adicionam-se frutos como o tomate inglês, a goiaba, a uveira da serra, o maracujá ou a pitanga. Há que tirar partido do interesse e da procura dos turistas ingleses, franceses, alemães e espanhóis que visitam a Madeira, e que são conhecedores e apreciadores de sidra, havendo por isso um grande potencial económico. Os vinagres de sidra, pelas suas conhecidas propriedades medicinais, são outros produtos a ter em conta e que enriquecem a gastronomia regional.

O produtor espanhol de sidra Jesús Gómez Solórzano deu conta da sua actividade na região de Cantabria, localizada entre o País Basco e as Astúrias, no norte de Espanha. Nesta região, a produção e consumo de sidra tem lugar há muito tempo, mas apenas para autoconsumo. Só em 2010 é que Jesús apostou na vertente comercial, tendo lançado a marca Somarroza e engarrafado cerca de 200.000 garrafas, em 2017. Trata-se de uma empresa familiar (o casal mais dois filhos) que tem produção própria e adquire maçã a outros produtores, comercializando sete tipos de sidra, desde a sidra natural (seca) à doce, com gás e sem gás, sendo que a sidra natural é a mais vendida. O principal canal de escoamento é a restauração, tendo já recebido prémios pela excelente qualidade das sidras. Este produtor recordou que a higiene dos locais de produção de sidra e a uniformidade da sidra no decorrer dos anos, é crucial para a fidelização do consumidor. Chegou mesmo a dizer que é preferível não vender sidra num determinado ano se esta não atingir a qualidade esperada, podendo comercializar essa sidra em vinagre depois de ocorrer a acetificação. Dada a produção relativamente pequena, podemos dizer que os passos dados por Jesús Gómez Solórzano poderão ser semelhantes aos dos produtores de sidra madeirenses. Em suma, há que insistir nas actuais boas práticas de produção de sidra em termos de higiene e segurança alimentar, nas nossas variedades regionais de macieira e no saber-fazer madeirense. A Madeira ficará mais rica se criar num futuro próximo um conjunto de sidras que são diferentes das demais, originando desejavelmente um roteiro pelas freguesias produtoras de sidra como a Camacha, Fajã da Ovelha, Jardim da Serra, Ponta do Pargo, Prazeres, Santo da Serra, São Roque do Faial, São Vicente, entre outras. Certamente, essa "Rota das Sidras da Madeira" ocuparia o interessado durante dois a três dias, visitando aquelas localidades, não só para apreciar as sidras, mas também a gastronomia local e outros pontos de interesse cultural, com evidentes ganhos socioeconómicos.

É, pois, tempo de cuidar de uma das nossas riquezas: as maçãs e os pêros da Madeira e a sua transformação em sidra!

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