Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Este texto foi publicado no dia 29 de Abril de 2018, no Diário de Notícias.

No se refere a informação e divulgação agrícola regional, as décadas de 40 e 50 do século XX são riquíssimas, pois houve um cuidado em fazer chegar aos agricultores e também aos técnicos do sector, artigos e notícias de carácter prático por meio de publicações periódicas e livros.

1_frutas_da_madeira_DR.jpg

Direitos Reservados

O boletim mensal "Frutas da Madeira", editado pelo Grémio dos Exportadores de Frutas e Produtos Hortícolas da Ilha da Madeira, é um excelente exemplo de uma publicação periódica dedicada à agricultura madeirense. Fundado e dirigido pelo Engenheiro Agrónomo António Teixeira de Sousa, então Delegado Regional da Junta Nacional de Frutas, "Frutas da Madeira" surge em Abril de 1941 com o seu primeiro número. Na primeira página escrevia-se que «[…] já há muito tempo sentíamos a necessidade de estabelecer um maior contacto com os produtores agrícolas, e esta folha vem assim satisfazer uma antiga aspiração». Como destaques desse boletim de estreia, constam textos sobre a colheita da cebola, o preço mínimo estabelecido para a banana para «cachos de peso superior a 12 kg – 1$30/kg [um escudo e trinta centavos]», os preços médios de venda no Mercado dos Lavradores, o calendário agrícola com recomendações de cultivo e práticas culturais, a adubação química de bananeiras com duas aplicações em Abril/Maio e a segunda de Agosto a Outubro, entre outras. O "Frutas da Madeira" recuperava artigos do início do século passado sobre diversas culturas, como por exemplo de Carlos Azevedo de Meneses, notável botânico madeirense co-autor do "Elucidário Madeirense" e autor de "Flora do Arquipélago da Madeira" em 1914, editado pela Junta Agrícola da Madeira. Como curiosidades, no número 5 de Agosto de 1941, um oportuno escrito sobre "A acidez das terras e os correctivos calcários"; no número 1 de Abril de 1942, a divulgação da 2.ª edição de "Pomares – Poda de Fruteiras – Monda dos Frutos" de 1942 do Professor Engenheiro Joaquim Vieira Natividade; no número 4 de Julho de 1942 um artigo sobre o uso da giesta e carqueja na agricultura, que eram usados como adubos verdes com adição de calcário, "camas" para o gado, em forragens (a carqueja era triturada em moinhos para torná-la comestível para os animais), na preparação de vassouras com giesta, e quando aquelas plantas estavam mais desenvolvidas, tiravam-se varas para suportar o feijão. Sem dúvida, uma maneira de aproveitar aquilo que é considerado mato, mantendo os terrenos limpos e evitando desse modo a propagação de incêndios. O número 2 de Maio de 1943 informava que o Engenheiro António Teixeira de Sousa tinha sido nomeado para Vice-Presidente da Junta Nacional das Frutas, mas que continuaria em funções por mais algum tempo, quer no Grémio dos Exportadores de Frutas e Produtos Hortícolas da Ilha da Madeira, quer como director do "Frutas da Madeira’.

Em Outubro de 1943, o Engenheiro Agrónomo Ernesto Burguête substituía o Engenheiro António Teixeira de Sousa na direcção do mensário. Na capa mencionava-se que Teixeira de Sousa defendera o «alargamento dos quadros técnicos distritais», a «criação de uma rede de postos meteorológico-agrícolas», e que recorrera da sua influência «[…] na instalação de campos experimentais e de demonstração, que sensíveis benefícios tem trazido à agricultura regional», assim como, «sob a sua direcção iniciou-se também o combate às pragas que infestam as culturas do arquipélago […]», além da sua apreciável actuação na área de divulgação em páginas agrícolas de alguns jornais da imprensa local, e como fundador e director do "Frutas da Madeira". Em Abril de 1950, após nove anos de existência e a entrar no décimo ano de publicação, o Engenheiro Agrónomo Jaime Azevedo Pereira era o director do boletim. No número 10 de Janeiro de 1952, dava-se conta que o Engenheiro Agrónomo António Teixeira de Sousa tinha tomado posse a 26 daquele mês, como Presidente da Junta Geral. Em Maio de 1952, o Engenheiro Agrónomo Rui Vieira escrevia um artigo naquele periódico sobre "A mosca da fruta – sua importância económica na Madeira", e em Fevereiro de 1954, este ilustre técnico era notícia, pois tinha sido o único representante português no Congresso da Organização Europeia de Protecção de Plantas sobre a mosca da fruta, que tinha decorrido em finais de Janeiro daquele ano, em Argel. Em Junho de 1952, o boletim anunciava que no dia 1 desse mês tinha sido inaugurada a beneficiação hidroagrícola Ribeira Brava-Câmara de Lobos, uma importante obra levada a cabo pela Comissão dos Aproveitamentos Hidráulicos da Madeira liderada pelo Engenheiro Manuel Amaro da Costa. No número 10 de Janeiro de 1956, fazia-se um balanço das palestras de divulgação agrícola denominadas "A rádio ao serviço da Agricultura", que foram transmitidas entre Janeiro de 1951 e Janeiro de 1953, na Estação Rádio da Madeira, tendo daí resultado 63 palestras, que iriam ser publicadas em edição do Grémio dos Exportadores de Frutas e Produtos Hortícolas da Ilha da Madeira. Dava ainda conta que a segunda fase destas palestras radiofónicas iria arrancar brevemente.

Este "Agricultando" foi redigido de acordo com uma breve consulta ao conjunto de boletins "Frutas da Madeira" que existe no Arquivo Regional e Biblioteca Pública da Madeira, desconhecendo se haverá mais exemplares, depois de Janeiro de 1958. De qualquer modo, é uma publicação que merece uma leitura atenta e demorada, sendo de facto um importante registo histórico da difusão agrícola madeirense de há cerca de 60-80 anos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 17:25


Anona da Madeira, como ela não há igual

por Agricultando, em 25.03.18

Este texto foi publicado no dia 25 de Março de 2018, no Diário de Notícias.

jornadas_tecnicas_da_anona_rodape.jpg

Direitos Reservados

No dia 21 de Fevereiro realizaram-se na Escola Agrícola da Madeira em São Vicente, as 1.ªs Jornadas Técnicas da Anona da Madeira organizadas pela Secretaria Regional de Agricultura e Pescas através da Direcção Regional de Agricultura, que contaram com a participação de técnicos, agricultores, estudantes e demais interessados. A Anona da Madeira é reconhecida pela União Europeia desde 2000 como Denominação de Origem Protegida (DOP), um estatuto que a identifica no espaço europeu pela sua excelência e características distintivas de anonas provenientes de outras paragens. É pois, mais um produto agrícola que contribui para que a Madeira seja conhecida e apetecida numa eventual visita. Nestas jornadas, o Director Regional de Agricultura (DRA), Engenheiro Paulo Santos, fez o ponto da situação do Plano Estratégico para a Anona da Madeira aprovado por meio da Resolução n.º 968/2015 do Governo Regional. Apontou a história multissecular da cultura da anoneira neste Arquipélago, a sua adaptação às condições climáticas e de solo locais, o saber-fazer do agricultor e do técnico ao longo do tempo, o trabalho de melhoramento genético iniciado por volta de 1985 pelos serviços oficiais que deu origem a quatro variedades de nome "Madeira", "Funchal", "Perry Vidal" e "Mateus I", as propriedades nutritivas e medicinais do fruto, entre outros. No que respeita aos objectivos estratégicos do referido Plano, onde se pretende aumentar a área de anoneira, de 115 para 150 hectares entre 2016 e 2020, alcançou-se em dois anos mais oito hectares, ou seja, 23 por cento do objectivo resultante da aprovação de 22 projectos de investimento agrícola que representam aproximadamente quatro hectares, e da venda de fruteiras daquela espécie nos viveiristas da Região. O Engenheiro Paulo Santos relevou ainda os apoios à comercialização local e à expedição, o aumento da capacitação dos actuais e futuros agricultores por via da formação de carácter prático, a prospecção de novas variedades de anoneira com interesse agrícola e comercial, o estudo de épocas de produção diferentes do presente. Depois seguiu-se uma mesa redonda subordinada ao tema "Oportunidades e desafios da cultura da Anona da Madeira", moderada por Luís Reis da Antena 1 Madeira e com a presença do DRA, do Engenheiro Marco Gonçalves, Gestor do PRODERAM, do Dr. Jorge Dias, Gerente da Gesba, de Octávio Freitas, Chefe de Cozinha, do Dr. Bruno Sousa, Nutricionista, do Engenheiro Jordan Andrade, produtor de anona, de Jose Rubia, empresário espanhol de anona e seus derivados e do Engenheiro João Luís Sousa da empresa Santoqueijo. Deste painel, reteve-se que há jovens agricultores a investir na cultura da anoneira, existe procura de anona no continente, na Inglaterra, na França e na Alemanha, mas que há colocá-la nesses destinos no melhor estado possível. A importância do aumento do consumo local de anona na hotelaria e restauração, quer em fresco, quer em transformado, pois são poucos os estabelecimentos que têm aquele fruto para oferecer ao cliente. O produto que deve ter qualidade e o incentivo ao consumo de derivados, tendo o cuidado de elaborar-se menus com 50 por cento ou mais de produtos da terra e do mar locais. As escolas e os lares onde se deveria dar preferência ao que é nosso, pois seria também uma excelente via de escoamento da produção regional. Os hipermercados que têm de dar formação aos seus colaboradores, pois em algumas superfícies, os frutos que foram entregues pelo produtor em perfeitas condições de venda, surgem nas prateleiras em mau estado de conservação. A anona que tem vitaminas do complexo B e C, propriedades anti-inflamatórias e anti-tumorais, e que não «engorda», pois 100 gramas de polpa contêm 75 calorias. A Santoqueijo que ensaiou uma sobremesa à base de iogurte, requeijão e polpa de anona e que pôde ser degustada na actividade "Sabores da Anona" no final deste evento.

Na parte da tarde o Engenheiro Emilio Guirado Sánchez da Estação Experimental La Mayora, em Málaga (Espanha) proferiu uma conferência sobre as "Problemáticas (e soluções) da cultura da anoneira". A Espanha é o primeiro produtor mundial de anona com uma área de 3.000 hectares e uma produção anual estimada em mais de 40.000 toneladas. Este credenciado técnico com 30 anos de experiência na cultura da anoneira apresentou uma comunicação de grande nível, fazendo uma passagem abrangente por todos os aspectos culturais da anoneira, nas regiões de Granada e Málaga. Mostrou a polinização manual essencial para a obtenção de frutos naquele país, e como novidade técnica, o recurso a uma máquina que através do fluxo de ar separa os estames das peças florais, bem como de um aplicador de pólen que é muito mais preciso e eficaz que o anterior método por meio de um pincel. A anona espanhola é constituída basicamente por duas variedades: "Fino de Jete" (98 por cento da produção) e "Campas" (restantes 2 por cento). Recentemente, resultante de hibridações, obtiveram a variedade "Alborán", com características diferentes das existentes, sendo mais uma alternativa comercial. Neste momento, com a prática cultural da poda total (eliminação dos ramos do ano anterior), têm conseguido prolongar a época de colheita até Março/Abril, quando antes terminava em Janeiro. No final da conferência, o Director de Serviços de Desenvolvimento da Agricultura, Engenheiro Rui Nunes, mencionou a relevância na Região de determinadas espécies de insectos da ordem dos coleópteros na época de floração da anoneira como promotores da polinização natural e sem custos de mão-de-obra, cujo número se intensifica com a presença de ananás, banana, maçã que esteja fermentada, originando um maior vingamento de frutos. As 1.ªs Jornadas encerraram com o Secretário Regional de Agricultura e Pescas, Dr. Humberto Vasconcelos, que sublinhou ser um privilégio contar nesta iniciativa com dois dos mais conceituados técnicos da cultura da anoneira a nível mundial, o Engenheiro Emilio Guirado Sánchez e o Engenheiro Rui Nunes, além deste tipo de evento dar notoriedade à Anona da Madeira que é DOP, e que tem possibilidades de crescer, quer localmente, quer no mercado externo, como aconteceu num passado recente. Por último, decorreram os "Sabores da Anona" com a degustação de diversos produtos à base daquele fruto e que contou com a colaboração da Santoqueijo e da Associação de Barmen da Madeira.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 16:59


Um contrato desigual

por Agricultando, em 25.02.18

Este texto foi publicado no dia 25 de Fevereiro de 2018, no Diário de Notícias.

No passado dia 15 foi exibido ao público pela primeira vez na Madeira, no Teatro Municipal Baltazar Dias, o documentário de Leonel Brito "Colonia e Vilões" de 1978. Leonel Brito nasceu em Moncorvo em Maio de 1941, e como Engenheiro Técnico Agrário trabalhou na Ilha da Madeira durante sete meses em 1967, onde contactou com o meio rural madeirense e se inteirou do regime de colonia pelos colonos (também conhecidos como caseiros). Uma década mais tarde, já com o curso de cinema e fotografia pela AR.CO (Centro de Arte e Comunicação Visual) regressa à Região para rodar o documentário, com o objectivo de gravar para memória futura aquela realidade tão antiga como o povoamento.

doc_colonos_e_viloes_DR.jpg

Direitos Reservados 

Durante uma hora, "Colonia e Vilões" faz uma viagem pela história dos 600 anos do Arquipélago, pelos ciclos das principais culturas agrícolas (cana-de-açúcar e vinho), recordando que após os capitães donatários terem dividido as terras pelos senhores («nobres arruinados e escudeiros do reino»), estes cediam-nas aos colonos com a condição de estes entregarem anualmente metade das colheitas. As benfeitorias pertenciam aos colonos para que se mantivessem ligados à terra por várias gerações, enquanto os donos das terras construíam casas no Funchal, originando uma aristocracia bastante próspera. Surgia assim o contrato de colonia que se prolongou durante mais de cinco séculos. E como a história também é feita por quem a viveu, o filme começa com o testemunho de um colono, António Ferreira, que conta que recebeu as «terras sem paredes, sem palheiros». Foi preciso «levantar paredes» (erigir os poios*), construir palheiros, plantar vinha de acordo com o que o senhorio exigia, depois regar, podar, tratar as doenças da vinha, apanhar as uvas, fazer o vinho e entregar metade ao senhorio. O Pe. Martins Júnior relata um caso verídico de uma família com os filhos que vivia num quarto, sem o mínimo de condições de conforto e bem-estar. Reconhece-se a voz do Pe. Mário Tavares que diz que se o caseiro melhorasse a sua casa, era expulso e que este “era um animal doméstico […] amarrado ao terreno, amarrado, numa palhota, ignorante, para trabalhar continuamente em favor do senhorio”. Só em 1847, o Conselheiro José Silvestre Ribeiro, Governador Civil da Madeira escreve uma carta ao Governo a pedir a extinção do contrato de colonia e em sua substituição, implementar um contrato de arrendamento. José Silvestre Ribeiro terá dito que «mas o que mais ata as mãos do lavrador, o que mais o constrange, é cruzar os braços e morrer de fome ou emigrar para morrer de peste, é o modo que se acha constituída na Madeira a propriedade territorial debaixo da maligna influência de duas instituições dos tempos feudais, vínculos e contratos de colonia». Se é certo que aquando do povoamento era possível dar metade da produção ao senhorio e a outra metade ainda ser rentável para o colono, principalmente quando a cana sacarina era tida e remunerada como uma especiaria, já nos anos 70 do século passado, dada a diminuição da área das propriedades em função da divisão de bens realizada ao longo do tempo, tornou muito difícil a vida do caseiro e o regime de colonia como algo injusto e até desumano. Por isso, na década de 60 do século XX, 55.000 madeirenses emigraram principalmente para a Venezuela e a África do Sul, sendo que apenas 45 por cento era emigração legal. Nos anos 70 do século passado, a Região tinha uma superfície agrícola de 20.000 hectares (mais de quatro vezes que a área actual), em que 30 por cento era de colonia e 15 por cento de arrendamento ou parceria.

Após a projecção do filme, seguiu-se uma conversa/debate com o Professor Doutor Alberto Vieira e o Pe. Martins Júnior moderada pela Dra. Cristina Trindade e pelo Dr. Carlos Barradas. O Historiador Alberto Vieira lembrou que a colonia surge da relação entre a terra e o homem (proprietário e colono), assente num contrato apalavrado em que as regras eram estabelecidas pelo senhorio. Os elevados custos de produção, mormente a construção dos poios para tornar a terra cultivável, são considerados pelos estudiosos como dos mais altos do mundo, o que leva à colonia. No decurso dos tempos, este sistema de exploração da terra leva à emigração e consequente abandono agrícola. O Pe. Martins Júnior definiu o senhorio, não só como proprietário do terreno, mas igualmente como dono do colono e da sua família, relevando que a extinção da colonia em 1977 através de um Decreto Legislativo Regional, foi o facto histórico mais determinante do pós 25 de Abril de 1974. Essa legislação permitiu que o caseiro tivesse direito de preferência para adquirir o terreno num determinado período de tempo. Mesmo assim, alguns não compraram as terras, por acharem que eram suas por direito, outros porque tinham emigrado e outros mais que não tinham dinheiro para tal. O Professor Doutor Alberto Vieira comentou uma questão vinda do público, sobre se a distância geográfica da Madeira ao Continente tinha contribuído para o prolongamento no tempo da colonia, ao que disse que alguns deputados pelo círculo da Madeira à Assembleia Nacional, eram senhorios e por isso, adiavam a solução de extinção da colonia. Este Historiador revela o relato de Isabella de França que a colonia entre os séculos XVI e XIX era um sistema de subordinação, de quase escravatura. Se o documentário "Colonia e Vilões" despertou-lhe o interesse pode vê-lo na plataforma Vimeo através da ligação https://vimeo.com/115476901

Como nota final, refira-se que é impossível abordar numa página todos os aspectos relacionados com a colonia e nem houve essa pretensão. Tão só, procurou-se trazer ao presente algo que marcou indelevelmente o agricultor madeirense desde o povoamento do Arquipélago da Madeira até à década de 70 do século XX, e que poderá explicar muito da sua atitude que subsiste nos dias de hoje perante a vida e a sociedade.

 

* - regionalismo para socalcos

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 16:17


Uma herança com 600 anos de história

por Agricultando, em 28.01.18

Este texto foi publicado no dia 28 de Janeiro de 2018, no Diário de Notícias.

A Comissão Europeia escolheu 2018 como o Ano Europeu do Património Cultural (AEPC) a fim de promover a diversidade e o diálogo interculturais e da coesão social, bem como despertar o interesse para a importância do património no desenvolvimento social e económico e nas relações externas da União Europeia, motivando os cidadãos para os valores comuns europeus. Ao longo do ano terão lugar diversas iniciativas de índole europeia, nacional, regional e local, no sentido de envolver as populações, as organizações, as entidades públicas e privadas, para uma maior visibilidade da cultura e do património, a sua importância e o seu carácter transversal em todos sectores da sociedade. Até porque o património cultural está nas cidades, nas vilas, nas freguesias, nos sítios, nas paisagens, mas também na literatura, nas artes, nos objectos, nas profissões tradicionais, na gastronomia, entre outros. Dos vários objectivos específicos do AEPC disponíveis na página de internet institucional elaborada pela Direcção Geral do Património Cultural, destaco os seguintes: realçar o contributo positivo do património cultural para a sociedade e para economia, promover estratégias de desenvolvimento local na perspectiva da exploração do potencial do património cultural através da promoção do turismo cultural sustentável e sensibilizar para a importância do património cultural europeu através da educação, visando em especial os jovens e as comunidades locais.

No que respeita ao património cultural regional associado à agricultura e ao meio rural, nunca é demais recordar os poios [regionalismo para socalcos agrícolas], verdadeira obra de "engenho e arte" criada pelos nossos antepassados com o propósito maior de ter terra para dali tirar o seu sustento. As culturas agrícolas de clima tropical, subtropical e temperado que foram introduzidas no decorrer dos tempos e que se distinguem por serem consideradas variedades regionais ou tidas como tais, os usos e costumes, os certames de promoção dos produtos agrícolas regionais são do mesmo modo parte desse todo que se designa de património cultural. Em tudo isto assenta muito do nosso passado, do nosso conhecimento oral e escrito, do saber de experiência feito, em suma, da nossa identidade como madeirenses. Num tempo em que se começa a celebrar os seis séculos da descoberta das Ilhas do Porto Santo e da Madeira, o AEPC surge no momento certo, pois parece-me que este riquíssimo património agrícola e rural, embora omnipresente, acaba por ser ignorado algumas vezes na promoção da Madeira como região turística. Costumo dizer que a Região não tem só a Laurissilva e o mar, pois entre um e outro, há poios com gente dentro, uma herança com 600 anos de história, que merece ser melhor (re)conhecida por nós, que aqui vivemos e por quem nos visita. É igualmente indispensável insistir na ideia que as levadas tão bem divulgadas por esse mundo fora, surgiram, não com o mero intuito de o homem percorrê-las e admirar as paisagens, mas para que a água abundante na costa norte da Madeira chegasse aos poios da costa sul, onde aquele precioso líquido escasseava, tornando-os assim produtivos e com um verde agrícola tão apreciado. É por estas razões que as levadas e os poios são e serão sempre indissociáveis.

Além disso, os principais produtos espicaçam a curiosidade dos forasteiros, pois a maioria praticamente só conhece-os das prateleiras dos supermercados. A banana, a cana-de-açúcar, a anona, o maracujá, o abacate, a batata-doce, o inhame, e os amanhos culturais inerentes são alguns exemplos elucidativos do nosso património cultural agrícola. Saibamos preservá-lo para os vindouros e mostrá-lo aos visitantes, o quanto é valioso, diverso e singular.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 16:37


Uma resolução para 2018

por Agricultando, em 01.01.18

Este texto foi excepcionalmente publicado no dia 1 de Janeiro de 2018, no Diário de Notícias. O artigo era para ter sido publicado a 31 de Dezembro de 2017, mas por decisão da Direcção do DN Madeira, a edição daquele dia foi dedicada ao balanço do ano, não tendo havido espaço para incluir o Agricultando.

No primeiro dia deste ‘bebé’ 2018 é tempo de olhar para o futuro. É usual nesta altura do ano termos resoluções de ano novo, traçando um ou mais objectivos, um rumo para os 12 novos meses que se avizinham, sempre na perspectiva de melhorarmos algo. Pois bem, o "Agricultando" de hoje sugere uma resolução em prol da Agricultura madeirense que está ao alcance de si, caro leitor, da hotelaria e restauração e das instituições públicas e privadas como creches, jardins-de-infância, escolas, lares, hospitais, entre outras, que precisam de comprar hortofrutícolas para as refeições do dia-a-dia. De acordo com o "Inquérito à Estrutura das Explorações Agrícolas de 2016" (IEEA 2016) da Direcção Regional de Estatística da Madeira (DREM) publicado na sua página de internet em finais de Novembro, onde se inquiriu uma amostra das explorações agrícolas, a Região possui 4.893 hectares de Superfície Agrícola Utilizada (SAU) e 11.628 explorações, o que comparativamente ao IEEA 2013 representa uma diminuição de 369,2 hectares (5.262,2 hectares de SAU naquele ano) e de 440 explorações (12.068 explorações no total). Por outro lado, a área média por exploração agrícola é de 4.212 metros quadrados, valor um pouco abaixo do apurado em 2013, que foi de 4.365 metros quadrados. Como curiosidade, as explorações agrícolas contribuem com 9,3 por cento da área total do Arquipélago da Madeira. Quanto à utilização da terra arável, as culturas permanentes como as árvores de fruto e a vinha constituem 48,4 por cento (mais 3 por cento que 2013), seguida pelos 38,6 por cento (menos 3,3 por cento que 2013) ocupados pelas culturas temporárias como as hortícolas, a semilha [regionalismo para batata] e as flores e por 10,7 por cento (mais 0,8 por cento que 2009) de pastagens permanentes, sendo que a horta familiar "pesa" apenas 2,3 por cento da área da SAU. Se pretende saber mais sobre estes indicadores, pode ler e descarregar gratuitamente o IEEA 2016 na página de internet da DREM. Por agora, importa reter que a evolução destes números e percentagens deve-se a vários factores: construção de acessos rodoviários, habitações, edifícios, envelhecimento da população agrícola familiar, emigração, incidência de pragas e doenças de introdução recente e consequente abandono das culturas, dificuldade de escoamento das produções agrícolas regionais em detrimento das que são importadas.

Então, o que pode ser feito? O que é que está ao alcance de mim e do leitor para inverter-se a tendência negativa ou pelo menos, estacá-la? Pois bem, terá que ler a outra metade deste texto.

Já o disse noutras ocasiões, mas é preciso recordar e insistir nesta ideia. O território onde vivemos, embora belo e único, é pequeno, de orografia agreste, pese embora a actual rede de excelentes estradas atenue essa limitação. Ora, a resolução de ano novo que proponho é tão só comprarmos o dobro dos produtos agrícolas regionais em relação a 2017. Como é que faremos isso sem acrescentarmos quilos ao corpo e não gastarmos muito mais? Fácil, comprando muito menos produtos agrícolas importados. E quando digo importados, são todos os que provem de fora de Portugal. Quando vai ao supermercado, já reparou bem na origem das frutas e dos hortícolas? A maioria vem de Espanha, França, Argentina, Brasil, Chile, Costa Rica, Nova Zelândia, China, África do Sul, entre outros. Nada tenho contra o que vem de fora, mas o que discordo em absoluto, é darmos primazia aos produtos importados, muitas vezes com aparente bom aspecto, mas de qualidade e frescura inferiores, pois foram colhidos cedo demais para que pudessem ser transportados por centenas a milhares de quilómetros até ao destino final. Quantas vezes, atraídos pelo preço baixo tão apregoado pelas redes de supermercados, acaba por sair caro ao consumidor, pois metade vai para o caixote do lixo, e os produtos agrícolas regionais ficam por comercializar, desmotivando quem os cultivou. Ao darmos preferência aos hortofrutícolas de origem local, estamos a escoar a nossa produção, a incentivar o seu cultivo e a diversificação cultural, a fixar pessoas nos poios* (leia-se no campo), a criar riqueza por cá, que se reflectirá nos outros sectores de actividade económica. E um desses sectores é o turismo. Os hotéis e os restaurantes (felizmente há muitos bons exemplos) e os serviços públicos que fornecem refeições deveriam também adoptar esta resolução de ano novo pelas razões atrás apontadas. Pensará o leitor mais céptico que isto que escrevi é utópico e inexequível. Será mesmo assim? É claro que uma pessoa não mudará nada, mas centenas e porque não, milhares, farão toda a diferença. Vamos a isso!

Bom, resta-me desejar a continuação de Boas Festas e um excelente 2018 com os produtos da terra madeirenses à nossa mesa!

 

* - Regionalismo para socalco agrícola

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 16:21


Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Pesquisar

  Pesquisar no Blog

Calendário

Abril 2018

D S T Q Q S S
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
2930


Posts mais comentados


Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2007
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D

Número de visitas | Desde 14 de Outubro de 2007

80.000 visitas alcançadas a 9.4.2015!