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Este texto foi publicado no Diário de Notícias, no dia 24 de Abril de 2022.

Nos últimos meses assistiu-se a um grande aumento dos preços dos fertilizantes químicos essenciais à obtenção de produções agrícolas abundantes. A explicação para aquele facto está relacionada grosso modo com o aumento do preço do gás que é utilizado nas fábricas de fertilizantes e da invasão da Rússia na Ucrânia com as consequentes sanções económicas impostas pela União Europeia à Rússia, que é o principal exportador mundial de fertilizantes nitrogenados, isto é, à base de azoto e o segundo maior fornecedor de fertilizantes potássicos e fosforosos. Importa esclarecer que o azoto, o fósforo e o potássio são os três nutrientes indispensáveis para o bom desenvolvimento dos cultivos agrícolas e a garantia de quantidade e qualidade das produções. Por outro lado, os custos económicos e a extracção de matérias-primas necessárias ao fabrico dos fertilizantes químicos, provocam graves desequilíbrios ambientais que se sentem à escala global. A compostagem surge então como uma alternativa ao uso dos fertilizantes químicos. De acordo com o livro "Compostagem – Utilização de compostos em Horticultura" do Professor Doutor João Guilherme Batista e da Doutora Edite Romana Batista do Departamento de Ciências Agrárias da Universidade dos Açores, a compostagem é «um processo biológico que assegura a transformação de materiais orgânicos num produto higienizado e rico em compostos húmicos, suficientemente estável para poder ser armazenado, e cujo emprego aos solos não produza efeitos adversos para o meio ambiente». Trata-se, portanto, de um método natural onde ocorre a degradação de folhas, aparas de sebes e árvores, relva, flores, restos de verduras e frutas, cascas de ovos trituradas, borra de café, sacos de chá, sobras de pão entre outros resíduos orgânicos, que é efectuada por fungos e bactérias, minhocas e insectos, na presença de oxigénio e num ambiente quente e húmido, modificando a matéria orgânica até à sua estabilização. Esta é realizada num recipiente (compostor) ou num monte e decorre normalmente ao longo de dois a três meses. O composto, de fácil utilização, traz inúmeras vantagens para o sucesso da exploração agrícola, seja no modo de produção biológico ou no convencional. Este derivado da compostagem acrescenta ao solo matéria orgânica e nutrientes, melhora a sua fertilidade, prolonga a sua vida, retém a água em solos arenosos e "areja" os terrenos argilosos, evita a sua erosão, incorpora bactérias e fungos que facilitam a transferência de nutrientes que estão no solo para as plantas, confere resistência às culturas no que diz respeito ao aparecimento de pragas e doenças e impede a expansão de ervas daninhas.

biovalor_ARM_DR_blogue.jpeg(Direitos Reservados)

A compostagem doméstica que já é uma realidade na Região há algum tempo, não é suficiente para satisfazer a demanda por parte dos agricultores detentores de superfícies agrícolas de maiores dimensões. É em 2019 que a Águas e Resíduos da Madeira (ARM) retoma a operação da Instalação de Compostagem na Estação de Tratamento de Resíduos Sólidos (ETRS) da Meia Serra (telefone 291004300), situada na freguesia da Camacha, concelho de Santa Cruz, indo ao encontro dos anseios dos produtores madeirenses e colocando ao seu dispor, o composto Biovalor. O Biovalor é um composto 100% natural proveniente do tratamento biológico de resíduos verdes de jardins e parques por via da recolha selectiva, de valor acrescentado para a actividade agrícola, retornando ao meio ambiente e dando um contributo à economia circular dos materiais. Desde 2019 que foram entregues aos agricultores 1.820 toneladas deste composto distribuídas da seguinte maneira: 120 toneladas em 2019 por 50 produtores, 570 toneladas em 2020 por 225 e 1.130 toneladas em 2021 por 411. Esta procura crescente que se prevê que continue a aumentar no corrente ano, comprova a qualidade do Biovalor obtido pela ARM, pois pode ser usado em qualquer cultura agrícola, com ganhos evidentes no provimento de azoto, fósforo, potássio e de um elevado número de oligoelementos essenciais, reduzindo a aplicação de fertilizantes químicos, o seu potencial poluidor e respectivos custos. No presente e por forna a facilitar o seu acesso ao maior número de interessados, este composto é colocado a título gratuito nos seguintes locais: ETRS da Meia Serra, Estação de Tratamento da Zona Leste, localizada no Porto Novo, concelho de Santa Cruz e Centro de Processamento de Resíduos Sólidos, no Porto Santo, pertencentes à ARM e aos Centros de Abastecimento Agrícolas dos Prazeres, concelho da Calheta, de Santana e da Santa, concelho do Porto Moniz, infra-estruturas de apoio ao comércio agro-alimentar também conhecidas como Mercados Abastecedores, pertencentes à Secretaria Regional de Agricultura e Desenvolvimento Rural através da Direcção Regional de Agricultura e Desenvolvimento Rural. O Biovalor deve ser aplicado e incorporado na camada arável do solo tão breve quanto possível e tendo em conta as culturas ali instaladas, podendo também ser empregue nas covas de plantação, num limite máximo anual na ordem das 25 toneladas por hectare. Todavia, o ideal é realizar análises de terra para o apuramento do pH do solo, teor de matéria orgânica, nutrientes minerais e metais pesados, tipo de cultura e seu desenvolvimento vegetativo, época do ano e objectivo pretendido, para que se apliquem as quantidades exactas de composto.

Sob o ponto de vista ambiental, acresce ainda relevar que esta compostagem levada a cabo pela Águas e Resíduos da Madeira incrementa as taxas de separação e recolha selectiva de resíduos para reutilização e reciclagem, contribuindo desse modo para o cumprimento das metas nacionais e europeias no que se refere à gestão de resíduos.

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publicado às 15:09

Este texto foi publicado no Diário de Notícias, no dia 27 de Março de 2022.

No passado dia 9, o Centro ISOPlexis da Universidade da Madeira (UMa) apresentou no auditório da Reitoria, no edifício do Colégio dos Jesuítas, no Funchal, o "Manual Técnico da Macieira". A cerimónia contou com a presença do Secretário Regional de Agricultura e Desenvolvimento Rural, Dr. Humberto Vasconcelos, da Vice-Reitora da UMa, Professora Doutora Elsa Fernandes e do Coordenador do ISOPlexis – Centro em Agricultura Sustentável e Tecnologia Alimentar, Professor Doutor Miguel Ângelo Carvalho, contando com uma plateia bem composta constituída pelo Director Regional de Agricultura e Desenvolvimento Rural, Engenheiro Paulo Santos, produtores, técnicos, investigadores, dirigentes e demais interessados pela cultura da macieira. Esta publicação surge na sequência de um trabalho realizado durante três anos iniciado em 2018, onde se procedeu à entrevista dos produtores responsáveis por pomares de macieira e à recolha, identificação e caracterização das árvores das variedades regionais. Para concretizar este livro e no âmbito do projecto do PRODERAM "Caracterização dos Principais Recursos Genéticos Vegetais Tradicionais e Estratégicos da RAM", teve a colaboração da Secretaria Regional de Agricultura e Desenvolvimento Rural (SRA) através da Direcção Regional de Agricultura e Desenvolvimento Rural (DRA), da Associação de Jovens Agricultores da Madeira e Porto Santo e da Associação dos Produtores de Sidra da RAM. Por publicar e em datas a anunciar, estão ainda os manuais técnicos da anoneira, batata-doce, cebola e do maracujazeiro. O "Manual Técnico da Macieira" encontra-se disponível no formato em papel com uma tiragem de 3.000 exemplares, que pode ser solicitado através do email isoplexis@uma.pt, e no formato digital acessível por via da página de internet do ISOPlexis. Os autores deste manual são: Gonçalo Antunes (ISOPlexis), Graça Freitas (SRA/DRA), Gregório Freitas (ISOPlexis), Humberto Nóbrega (ISOPlexis), Isabel Tomás Freitas (SRA/DRA), Manuel Neto (CDISA), Miguel Rodrigues (SRA/DRA), Luís Miguel Dantas (SRA/DRA), Rui Nunes (SRA/DRA) e Miguel Ângelo Carvalho (ISOPlexis).

manual_tecnico_macieira_capa_DR.jpg

(Direitos Reservados)

O "Manual Técnico da Macieira" com 51 páginas está dividido pelos seguintes tópicos: "Introdução", "Recursos Genéticos da Macieira", "Fichas de Caracterização das Variedades", "A Poda da Macieira", "Fitossanidade na cultura da Macieira", "Bibliografia", "Sites consultados" e "Origem das fotos e/ou texto de fitossanidade". Na "Introdução" faz-se um breve histórico da cultura da macieira desde o povoamento do Arquipélago da Madeira até meados do século XX. Refere-se que na obra "Fomento da Fruticultura na Madeira" (1947, reeditada em 2018 pela Direcção Regional da Cultura da Madeira), Joaquim Vieira Natividade já enaltecia a diversidade varietal regional desta cultura, considerando que «o que se passa com as variedades de macieira constitui seguramente caso único na fruticultura mundial». No capítulo "Recursos Genéticos da Macieira" fica-se a saber que o trabalho de campo permitiu a elaboração de um inventário de 134 formas cultivadas de maçãs e peros, do qual fazem parte as dez variedades regionais registadas no Catálogo Nacional de Variedades (CNV): maçãs "Barral" e "Cara de Dama" e os peros "da Ponta do Pargo", "Domingos", "Calhau", "Branco", "da Festa", "Focinho de Rato", "Vime" e "Bico de Melro". Nas "Fichas de Caracterização das Variedades" registadas no CNV encontramos informação variada como os sinónimos, os locais de ocorrência, o aspecto da árvore, as épocas de floração, de maturação, o tipo de propagação, as características botânicas e físicas do fruto, as características pós-colheita e os usos (em fresco e/ou transformado), bem como um elucidativo gráfico com indicação dos meses e dos estados fenológicos da planta e um outro que relaciona os meses do ano com as épocas de plantação/enxertia, adubações, poda e tratamentos de Inverno e de Verão. "A Poda da Macieira" merece destaque por ser uma prática cultural fundamental para o desejado equilíbrio entre a frutificação e a vegetação, com o intuito de ter uma produção regular, quer em qualidade, quer em quantidade, com diminuição dos custos. Os tipos de poda, formação (nos primeiros três a quatro anos após a plantação), frutificação ou de Inverno e a de rejuvenescimento (nas árvores "velhas" ou abandonadas) são explicados com recurso a esquemas de poda. "A Fitossanidade na cultura da Macieira" mostra as principais pragas e doenças que comprometem seriamente as produções e as próprias plantas, recomendando os tratamentos com os produtos fitofarmacêuticos (conhecidos entre nós por "remédios") autorizados, entre outras medidas de controlo.

Em suma, o "Manual Técnico da Macieira" é um livro de bolso com o essencial da informação sobre a cultura da macieira no Arquipélago da Madeira e que é de consulta obrigatória para agricultores, técnicos, investigadores e por todos aqueles que gostam de maçãs!

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publicado às 14:55

Este texto foi publicado no Diário de Notícias, no dia 27 de Fevereiro de 2022.

Mensalmente, esta página traz aspectos da agricultura madeirense, particularmente as culturas mais representativas e as pessoas que se dedicam àquela nobre actividade, quer como produtores, quer como técnicos ou investigadores. Todavia, o texto deste mês sai dessa baliza e incide sobre um livro intitulado "Artur Pastor" editado em Outubro de 2021 pela Fundação Francisco Manuel dos Santos em colaboração com o Arquivo Municipal de Lisboa da Câmara Municipal de Lisboa. Desde 2002 que o Município lisboeta possui o Fundo Artur Pastor constituído por negativos, diapositivos, provas, maquetes de projectos de livros, provas de trabalho e documentação diversa, depois de os seus herdeiros terem proposto a sua venda, na perspectiva de salvaguardar aquele valioso espólio reunido ao longo de quase 60 anos. A publicação com 205 páginas resulta de um catálogo em formato digital da exposição fotográfica "Artur Pastor" que teve lugar entre Junho e Agosto de 2014, em vários lugares da Capital. Revista e com uma nova imagem gráfica, está dividida em sete capítulos: "Apresentação" por António Araújo e Isabel Corda, "Pastor, fotógrafo de sonhos" por Luís Pavão, "Artur Pastor" por Artur  Pastor (filho), "A vida do ‘Franco Atirador’: Artur Pastor, seis décadas de fotografia. Contributo para uma biografia" por Ana Saraiva, "A fotografia nos anos 40, 50 e 60. Espaço para Humanismo, Neorrealismo, Reportagem Subjectiva, Paisagem Social e Salonismo, no tempo fotográfico de Artur Pastor" por Marcos Fernandes, "O país de Artur Pastor" por Cristiana Bastos e as "As fotografias de Artur Pastor no seu tempo" por Maria Carlos Radich. Dada a extensão do livro em apreço e para a elaboração deste artigo, concentramo-nos nos capítulos "Pastor, fotógrafo de sonhos" por Luís Pavão e "A vida do ‘Franco Atirador’: Artur Pastor, seis décadas de fotografia. Contributo para uma biografia" por Ana Saraiva. Atendendo à vasta obra de Pastor produzida ao longo de seis decénios, demos particular atenção ao seu trabalho enquanto Regente Agrícola da Direcção Geral de Serviços Agrícolas (DGSA), já que cedo se interessou igualmente pelo litoral e pelas gentes que labutavam na faina do mar, pelas paisagens urbanas, entre outros. Artur Arsénio Bento Pastor, natural de Portalegre, Alentejo, nasceu a 1 de Maio de 1922 e a seguir à conclusão da instrução primária, entrou para a Escola de Regentes Agrícolas de Évora. A 10 de Fevereiro de 1942 obteve o diploma do 7.º ano do curso de Regentes Agrícolas, tendo a 16 de Junho daquele ano prestado juramento no Distrito de Recrutamento e Mobilização 16, em Évora. Após o serviço militar, Artur Pastor realizou tirocínio na Brigada Técnica da XII Região Agrária em Évora com o propósito de se diplomar Regente Agrícola. Desse modo, em 1949, candidatou-se a Regente Agrícola de 3.ª classe, porém, com o curso por terminar, foi admitido como Regente Agrícola tirocinante no Serviço de Fomento e Inspecção Técnica da Batata-Semente, apresentando-se a 18 de Setembro de 1950 no Posto Experimental de Montalegre, onde ficou até Fevereiro de 1953, concluindo, entretanto, o curso em 8 de Outubro de 1951. Em 1953, foi transferido para a Direcção de Serviços Fitopatológicos, em Lisboa. Em 1955 foi promovido a Regente Agrícola de 3.ª classe e passou a exercer funções na Repartição de Estudos, Informação e Propaganda da DGSA, também na Capital. Em 1959, foi promovido a Regente Agrícola de 2.ª classe e em 1978 foi nomeado Engenheiro Técnico Agrário de 1.ª classe, tendo passado a Engenheiro Técnico Agrário Principal, em 1980, aposentando-se em Agosto de 1983.

No seu percurso profissional, Artur Pastor esteve sempre ligado à fotografia, com excepção dos primeiros anos no Posto Experimental de Montalegre, no início da década de 50 do século passado. Na qualidade de "Regente Agrícola Fotógrafo" na Direcção Geral de Serviços Agrícolas sugeriu a criação de um arquivo fotográfico naqueles serviços, tendo o mesmo sido autorizado e denominado de Arquivo Fotográfico da Direcção Geral dos Serviços Agrícolas do Ministério da Economia. Actualmente, os negativos e provas desse Arquivo na ordem dos mais de 10.000, encontram-se no Centro de Documentação do Ministério da Agricultura, ordenados através de um modelo de ficha descritivo idealizado e preenchido manualmente por Artur Pastor com vista à classificação das fotografias. Artur Pastor visitou diversas regiões do país, fotografando os campos e os postos agrários da DGSA, bem como os amanhos culturais desde lavras, sementeiras, o transporte e a debulha do trigo, o varejo e a apanha da azeitona, o arranque e a escolha de batata para ensacagem, o descortiçamento dos sobreiros, a aplicação de fertilizantes, as vindimas, as regas, entre outras. Do mesmo modo, registou para memória futura o trabalho realizado no Serviço de Ensaio de Sementes, da Estação Agronómica Nacional, em Lisboa. Em 14 de Outubro de 1968 foi agraciado pelo Presidente da República, Américo Thomaz, com o grau de Oficial da Ordem do Mérito Agrícola e Industrial na Classe do Mérito Agrícola. Fez a cobertura fotográfica de visitas oficiais e de reuniões de trabalho, organizou concursos de fotografia e foi júri, colaborou e foi autor de edições da DGSA, como por exemplo, com fotografias suas publicadas nos quatro fascículos da segunda edição da revista Agricultura, em 1973, e o caderno "A Fotografia e a Agricultura" editada pela Direcção Geral de Extensão Rural do Ministério da Agricultura e Pescas, em 1979. A título de curiosidade, organiza e ministra em 1980, o "Curso de Iniciação à Fotografia Agrícola", no Centro de Formação e Extensão Rural, nas Caldas da Rainha, levada a cabo pela Direcção de Serviços de Documentação e Divulgação Agrária. Faleceu em 17 de Setembro de 1999.

No seu ofício, Artur Pastor teve uma vida dedicada ao gosto pela fotografia e a agricultura, o querer capturar aquele momento para a posteridade. Para que os vindouros soubessem o que foi o Portugal rural e agrícola (e não só) dos anos 50 e 60 do século XX, por comparação com o Portugal de hoje, o que mudou e o que se perdeu irremediavelmente pelo decurso do tempo.

Inspirador!

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publicado às 18:17

Este texto foi publicado no Diário de Notícias, no dia 30 de Janeiro de 2022.

A "Cultivar" (Cadernos de Análise e Prospectiva) é uma publicação editada pelo Gabinete de Planeamento, Políticas e Administração Geral (GPP). No número 9 de Setembro de 2017, a Gastronomia foi o tema escolhido e no Editorial do Director-Geral do GPP, Eduardo Diniz, surge em destaque uma frase de Wendel Berry, citado no livro de Dan Barber "The Third Plate": «Comer é um acto incontornavelmente agrícola». Ao lermos estas palavras consensuais recordamos que não existe gastronomia sem agricultura. Sobre este tópico e do conjunto de textos que compõem este caderno, no artigo assinado por Francisco Bendrao Sarmento, Chefe do Escritório de Informação da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) em Portugal e junto da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa), faz-se referência às paisagens alimentares e a sua correspondência com a gastronomia de um país ou de uma região, bem como o papel desta última como um atractivo do turismo. Este apoia-se no "Manifesto para o Futuro da Cozinha Portuguesa" subscrito por Chefes de Cozinha portugueses e apresentado no III Simpósio Sangue na Guelra "Cozinha Portuguesa. E agora?", onde afirmam no segundo ponto que a identidade gastronómica nacional «[…] é o reflexo do nosso território, mas também dos povos e culturas que o influenciam desde séculos aos dias de hoje, contribuindo para a sua riqueza e diversidade». Assim, os sistemas agrários tradicionais e a relação das populações de um território com a sua comida, assim como a sua interacção, mostram uma proximidade entre estes conceitos. A valorização da identidade gastronómica passa pela ligação aos sistemas agrários tradicionais e à melhoria e/ou manutenção das paisagens alimentares que os caracterizam, não obstante alguma falta de união devido à evolução do meio rural nos últimos tempos. Importa definir que um sistema agrário é uma forma de exploração dinâmica do meio através de um ou mais tipos de agricultura, constituído ao longo dos tempos, que vai ao encontro das necessidades das comunidades, sobretudo das rurais, numa determinada região e num certo momento. Por outro lado, a paisagem revela diversos sistemas agrários e por isso é igualmente dinâmica. Uma paisagem alimentar faz, por exemplo, a conexão entre um sistema agrário, uma cultura tradicional, a saúde e a gastronomia.

É do conhecimento geral que os sistemas agrários industriais substituíram os vegetais pelas sementes, deram prioridade à quantidade, à simplificação dos sistemas de produção e aos alimentos refinados e processados, originando desse modo, no entanto, um desgaste na alimentação tradicional. A nível mundial, a facilidade de obtenção das produções levou a dietas alimentares que assentam em quatro produtos: milho, soja, arroz e trigo. Representam grosso modo dois terços das calorias consumidas, quando se conhecem cerca de 80 mil espécies utilizadas pela humanidade na alimentação. A alimentação associada às tradições resulta da experiência de muitas gerações que se foram apercebendo dos seus benefícios para a saúde e, no presente, são elemento essencial das paisagens alimentares cada vez mais valorizadas pelos turistas. Em Portugal, com o modelo de desenvolvimento adoptado nas décadas mais recentes, verifica-se uma erosão dos sistemas agrários tradicionais e consequentemente das paisagens alimentares. A desertificação populacional no meio rural, a degradação paisagística e ambiental, que se torna mais vulnerável aos incêndios florestais e as mudanças do tipo de alimentação (até no meio rural) são indícios e efeitos desse desgaste. No final do texto de Francisco Bendrao Sarmento, este avança que a FAO poderá ajudar a contrariar esse cenário através de um programa de identificação e conservação dinâmica de sistemas de património agrícola, que foram criados e mantidos por gerações de agricultores e pastores, baseados em vários recursos naturais e práticas de gestão apropriadas a nível local. No nosso país, é referido que a região do Barroso, no norte, foi a primeira candidata. Em suma, a valorização da identidade gastronómica portuguesa no seu todo e nas suas regiões, onde se inclui a Madeira, só é atingida se houver nexo entre os sistemas agrários tradicionais e as paisagens alimentares, bem como a sua preservação activa. E como só se valoriza aquilo que se conhece, o conhecimento do património imaterial desses sistemas e dessas identidades gastronómicas, é fundamental, para a definição de estratégias e políticas com vista à sua manutenção, envolvendo os sectores público (no caso da Madeira, Governo Regional e autarquias) e privado (agentes ligados ao turismo, associações de produtores e cidadãos).

Saibamos tirar partido do legado que os nossos antepassados nos deixaram e de uma das maiores riquezas reconhecida por nós e por quem nos visita: a nossa gastronomia com os produtos de cá!

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publicado às 16:34


Haja poios* com gente dentro!

por Agricultando, em 27.12.21

* - regionalismo madeirense para socalcos

Este texto foi publicado no Diário de Notícias, no dia 27 de Dezembro de 2021. Apesar de o Agricultando ser publicado no último domingo de cada mês, o texto deste mês foi publicado excepcionalmente numa segunda-feira, uma vez que não se publicou o DN Madeira no dia 26 de Dezembro.

Na noite de 30 de Novembro rumei a norte e participei na XXVII Semana Cultural da Ilha organizada pela Casa do Povo local, como orador da conferência "Paisagens humanizadas e Património rural edificado", que foi partilhada com a Engenheira Graça Mateus da Unidade de Gestão do PRODERAM. Por estar sempre presente no nosso olhar, damos quase por garantido que a paisagem agrícola madeirense ali permanece imutável. Porém, sabemos que isso não corresponde à realidade, uma vez que os melhores terrenos com aptidão agrícola coincidem com aqueles que têm maior potencial urbanístico e rodoviário. Numa região insular pequena e de relevo acidentado como a nossa, a convivência de interesses opostos não é fácil, em especial, nos meios mais urbanos e povoados, localizados na costa sul da Madeira, numa faixa compreendida entre os concelhos da Ribeira Brava e Machico. Na intervenção da Colega Graça Mateus foi recordado que a paisagem e o património rurais conferem identidade e diferenciação de uma comunidade e de um território, contribuem para a qualidade e diversidade da paisagem e mantêm as tradições e memórias locais. A este propósito, mencionou três personalidades que na década de 50 do século passado se debruçaram sobre esta matéria: o Agrónomo Joaquim Vieira Natividade, o Arquitecto Paisagista Gonçalo Ribeiro Telles e o Geógrafo Orlando Ribeiro. A paisagem, as construções, os instrumentos, as técnicas agrícolas, o saber-fazer e o homem são elementos do património rural. As casas típicas do concelho de Santana como componente essencial da paisagem humanizada e de outras habitações igualmente tradicionais, mas já maiores, com um andar para os quartos de dormir e outro para o armazém agrícola (loja como é conhecida entre nós) e construídas com pedra. Os remates de telhado, o balcão com cimento e a chaminé, os palheiros, as edificações destinadas a actividades artesanais e industriais como os moinhos de vento na Ilha do Porto Santo e os movidos a água como o que existe na freguesia de São Jorge e que se encontra em funcionamento, a fábrica da manteiga da Fajã da Ovelha. As levadas, os poços, as centrais hidroeléctricas, os postos de transformação eléctricos (os reforços como são designados na Região), as casas dos levadeiros, os lavadouros públicos, são exemplos do riquíssimo património rural madeirense, que merecem a nossa atenção. Na impossibilidade de recuperar tudo aquilo que devia ser valorizado e não o é por diversas razões, no final da sua comunicação, a Engenheira Graça Mateus sugeriu que as entidades locais e regionais preservassem, por exemplo, o sítio da Achada do Marques, na freguesia da Ilha, concelho de Santana, que se criasse uma rota pelas casas de colmo antigas de Santana, incentivando desse modo a manutenção das habitações recuperadas e a reabilitação das que se encontram degradadas, a Aldeia Etnográfica das Carreiras e os sítios da Maloeira e da Lombada dos Marinheiros, na Fajã da Ovelha, concelho da Calheta, com casas e palheiros distintos daquilo que se encontra na costa norte da Madeira.

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(Direitos Reservados)

No que diz respeito à minha comunicação e ao tema proposto, recorri a "Madeira – A Epopeia Rural" de Joaquim Vieira Natividade, um pequeno livro que é enorme no seu conteúdo. A 22 de Junho de 1953, a convite do Centro Madeirense do Porto, aquele insigne Agrónomo alcobacense profere uma conferência com igual título, na Associação Industrial Portuense. Trata-se, na minha opinião, dos mais belos textos sobre o Arquipélago da Madeira, porquanto descreve a chegada de João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira a estas ilhas, a ocupação do território e as principais marcas na paisagem madeirense ao longo dos então mais de cinco séculos de história, até meados do século XX. Nessa altura, Vieira Natividade observa que, apesar de existir uma Madeira mais virada para o turista, com os passeios de carros de bois no centro do Funchal, os hotéis luxuosos, os passeios a Câmara de Lobos, ao Monte, por vezes até ao Ribeiro Frio, e a Noite de São Silvestre, havia uma Madeira rural que fora construída ao longo das centúrias pelo vilão, pelo nosso agricultor, o que lhe desperta um grande interesse. Veja-se a frase «Ora a Madeira é melhor que tudo isto: é a epopeia do trabalho, a glorificação do esforço humano. Tão presente está por toda a parte a influência do homem, o fruto magnífico da sua labuta heróica, o rude afago das suas mãos calosas e ásperas, que a paisagem, por assim dizer, se embebeu dessa presença e se humanizou». Acrescenta justamente que «[...] irmanados por um amor sem fim a este palmo de terra, escreveram a mais bela epopeia agrícola de que se pode orgulhar um povo». Mais adiante afirma que «E o homem, o pigmeu, atacou a montanha. Durante séculos não cessou o trabalho rude da picareta e da alavanca, e à custa de vidas, de suor e de sangue talharam-se na rocha as gigantescas escadarias, sem que o alcantilado das escarpas, a fundura dos despenhadeiros ou a vertigem dos abismos detivessem os passos do titã. Monumento este único no mundo, porque jamais em parte alguma, com tão grande amplitude, tanto esforço humano foi empregado na conquista da terra». Perante esta herança deixada pelos nossos antepassados, urge aproveitar os lugares das Ilhas da Madeira e do Porto Santo que felizmente ainda conservam a paisagem rural humanizada tão bem narrada pelo Professor Vieira Natividade. Contudo, esses lugares só vão continuar a existir se tiver gente a viver e a trabalhar lá, ou como em tempos já escrevi nestas linhas, se houver poios com gente dentro. Só assim se irá continuar a valorizar o que de mais genuíno há no Arquipélago da Madeira.

Saibamos transmitir aos mais novos a importância deste património rural edificado, desde o pré-escolar ao ensino universitário pois só se valoriza aquilo que se conhece. No presente, as gerações até aos 20-25 anos perderam o elo com o meio rural, com o campo, até mesmo em algumas zonas rurais da Região. Recuperemos a nossa paisagem agrícola humanizada, criando condições de vida e de trabalho dessas populações por via da actividade turística e daqueles que nos visitam, bem como pelo gosto de comprarmos o que é de cá, visto que ao termos esse gesto rotineiro, estamos a ajudar para a defesa dessa paisagem rural madeirense que é singular no mundo!

E para quem me lê, votos de Boas Festas e de um 2022 com saúde e boas produções agrícolas!

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publicado às 17:12


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