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Este texto foi publicado no Diário de Notícias, no dia 31 de Outubro de 2021.

Antes de mais, importa esclarecer sempre que não se deve confundir as palavras sidra (bebida) e cidra (citrino), cuja casca cristalizada é usada na confecção do bolo de mel de cana sacarina. A Sidra da Madeira provém da fermentação do sumo de maçã/pêro que foi prensado a partir de frutos frescos de variedades regionais ou «tidas como tais» produzidas na Ilha da Madeira. Com um teor de álcool de 5 a 8 graus semelhante ao de uma cerveja, é uma bebida fresca e agradável ao paladar. Na obra "Saudades da Terra – Livro Segundo", o Pe. Gaspar Frutuoso descreve a existência de pomares de macieira/pereiro e pereira na primeira metade do século XVI, o que por consequência, deu lugar à produção de sidra. O Professor Joaquim Vieira Natividade na publicação "Fomento da Fruticultura na Madeira" de 1947, reeditada em 2018 pelo Serviço de Publicações da Direcção Regional da Cultura, dava conta da diversidade e da riqueza genética de macieiras que rondavam a centena de variedades locais dispersas pela Ilha da Madeira. Mais recentemente, fruto do trabalho encetado pelos Técnicos da Direcção Regional de Agricultura e Desenvolvimento Rural ao longo do tempo, estão registadas dez variedades de macieira no Catálogo Nacional de Variedades, das quais também se produz sidra. Na Região, a sidra é uma bebida com história, consumida sobretudo no campo, em localidades como São Roque do Faial (Santana), Santo da Serra (concelho de Machico), Camacha (Santa Cruz), Jardim da Serra (Câmara de Lobos), Prazeres e Ponta do Pargo (Calheta). A partir de 2006, começa-se a produzir sidra em moldes industriais na Quinta Pedagógica dos Prazeres e seguindo os procedimentos modernos da sua obtenção, nomeadamente no que se refere à higiene e segurança alimentar, labor esse iniciado com produções daquela freguesia, da Fajã da Ovelha e da Ponta do Pargo, com assinalável êxito. Em Janeiro de 2020, com a inauguração da sidraria comunitária de Santo António da Serra, situada no Centro Cívico, na Ribeira de Machico, dá-se um novo impulso a esta bebida e à produção de maçã/pêro regionais.

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(Direitos Reservados)

No dia 23 de Setembro, teve lugar no Centro Nacional de Exposições e Mercados Agrícolas (CNEMA), em Santarém, o 6.º Concurso Nacional de Sidras Tradicionais Portuguesas organizado pelo CNEMA e pela Qualifica/oriGIn Portugal. A Madeira foi reconhecida ao mais alto nível naquele concurso com 13 distinções. A sidra "Netos e Gautier" do Jardim da Serra foi considerada a melhor das melhores e ganhou uma medalha de ouro, tendo a "HBS", a "Herdeiros de Agostinho Rodrigues" e a "Casa do Povo de Santo António da Serra", ambas do Santo da Serra (Machico), alcançado a medalha de ouro. As sidras "A Poncha da Fátima" do Santo da Serra (Machico), "Sidra Massa" do Santo da Serra (Santa Cruz), "Princesa do Santo" do Santo da Serra (Ribeira de Machico), "Fazenda Corte" da Ponta do Sol, "José Luís Correia Gouveia" do Santo da Serra (Ribeira de Machico), "Fábrica da Igreja Paroquial dos Prazeres" (Calheta), conquistaram a medalha de prata, enquanto que "Geraldo Dória" de São Roque do Faial, "Gouveia e Sabido" e "Barraca da Avó", do Santo da Serra (Ribeira de Machico), conseguiram a medalha de bronze. A inegável qualidade das variedades regionais de macieira das diferentes zonas produtoras, o saber-fazer do produtor e o processamento efectuado nas melhores condições de higiene e segurança alimentar nas sidrarias, conferiram níveis de excelência que foram confirmados neste concurso de âmbito nacional. Uma palavra de apreço à Colega Regina Pereira Santos que desde 2006 tem realizado um trabalho digno de reconhecimento na área sidrícola, sendo a actual responsável técnica pelas sidrarias dos Prazeres e de Santo António da Serra. No presente, são já 12 os produtores de sidra madeirenses, que agora têm a oportunidade de comercializar junto dos locais e dos turistas, em especial, os ingleses, alemães, franceses e espanhóis, que são conhecedores e apreciadores desta bebida. O turismo tem um papel crucial no sentido de alavancar o consumo da Sidra da Madeira, que está em vias de ser qualificada como IGP (Indicação Geográfica Protegida), uma insígnia europeia requerida pela Associação de Produtores de Sidra da Região Autónoma da Madeira, que só é concedida aos melhores dos melhores! É preciso ter estas sidras na hotelaria e restauração, pois enriquecem a oferta gastronómica e acrescentam mais valor, quer ao sector turístico, quer aos produtores de maçã/pêro, que assim sentir-se-ão motivados a recuperar pomares e a plantar mais macieiras, evitando o abandono dos terrenos agricultados e fixando a população no meio rural.

Com a já anunciada abertura da sidraria comunitária de São Roque do Faial em 2022 e da sidraria dos Prazeres para breve, fazemos votos que num futuro próximo se estabeleça um Roteiro da Sidra da Madeira, que permita ao residente e ao forasteiro, conhecer não só aquele produto, mas a tudo ao que este diz respeito, no pomar, na sidraria, na culinária, nos usos e costumes, nos eventos que se realizam anualmente um pouco por toda a Ilha. Ele há muito por descobrir!

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publicado às 16:37

Este texto foi publicado no Diário de Notícias, no dia 26 de Setembro de 2021.

O Programa Editorial das Comemorações dos 600 anos do Descobrimento do Porto Santo e da Madeira permitiu recuperar publicações que há muito deixaram de ser vistas nas livrarias. Nesse âmbito, a obra "Camponeses da Madeira – As Bases Materiais do Quotidiano no Arquipélago (1750-1900)" de Jorge Freitas Branco, que tinha sido editada em 1987 pela Publicações Dom Quixote, vê novamente a luz do dia numa segunda edição de 2019 "corrigida e ampliada", desta vez levada a cabo pelo Serviço de Publicações da Direcção Regional da Cultura (DRC) através da Secretaria Regional do Turismo e Cultura e que contou com o empenho do então Responsável por aquele serviço, Dr. Marcelino de Castro, como é mencionado na "Nota prévia". Na tarde da passada segunda-feira, no Museu Quinta das Cruzes, aconteceu uma Tertúlia de apresentação deste livro, moderada pela Dr.ª Cláudia Faria, Chefe de Divisão de Publicações, o autor, Professor Doutor Jorge Freitas Branco, a Dr.ª Graça Alves, Directora de Serviços de Museus e Centros Culturais, o Dr. Paulo Ladeira da DRC e o signatário deste artigo, na presença do Secretário Regional do Turismo e Cultura, Dr. Eduardo Jesus e da Directora Regional da Cultura, Dr.ª Teresa Brazão. À pergunta lançada pela moderadora de «quem é este camponês, quem é este vilão», os participantes da tertúlia tiveram a oportunidade de dar perspectivas diversas do camponês de outrora e de agora. Nas linhas que se seguem, descrevo um pormenor assaz curioso contado pelo Professor Jorge Freitas Branco a propósito da fotografia da sua autoria que ilustra a capa desta edição e da primeira edição. Estava um dia de nevoeiro cerrado no sítio da Maloeira, freguesia da Fajã da Ovelha, concelho da Calheta, mas de repente, o nevoeiro levantou um pouco e na estrada, surge um homem com uma vaca e uma carreta e a mulher a transportar um molho de erva. O autor da fotografia e da obra não hesitou, parou o carro no pouco movimentado caminho e tirou aquele instantâneo que resume aquilo que se pode ler nas 324 páginas desta reedição.Camponeses_da_Madeira_2a_ed_capa_DR_blogue.jpg

(Direitos Reservados)

No "Prefácio (da 1.ª edição)", o Antropólogo Jorge Freitas Branco afirma que «o papel histórico desempenhado pelo campesinato insular é a especificidade deste trabalho, daí o acento posto no tratamento dos aspectos materiais que sustentam o seu quotidiano». O livro está dividido em 4 partes: "O Eixo da Organização do Quotidiano", "Instrumentos e Processos de Trabalho", "Aspectos das Relações Sociais na Produção Agrícola" e "Factores de Transformação duma Ruralidade". Nesta segunda edição consta pela primeira vez, uma adenda denominada "Apêndice: A Madeira como Experiência Antropológica". Este suplemento foi anteriormente publicado com o título "Entre a imagem e a realidade: reflexões sobre a Madeira como experiência antropológica", nas Actas do I Congresso Internacional da História da Madeira realizado em 1986, tendo o autor alterado o subtítulo e suprimido a transcrição do debate, dando o testemunho da metodologia usada para a elaboração deste trabalho. Jorge Freitas Branco dá conta da sua experiência de campo, mais concretamente entre Março de 1979 e Julho de 1980, onde registou apontamentos diários, normalmente ao fim do dia, considerados importantes para a sua reflexão pessoal e numa forma de compreender a realidade. Escolhe sobretudo a zona oeste da Madeira, também conhecida localmente como "Costa de Baixo", mais propriamente o concelho da Calheta, por estar supostamente distante da área de influência directa da cidade do Funchal e por ter um conjunto de produções agrícolas representativas da Ilha, como por exemplo a banana e a cana-de-açúcar, anotando aspectos dos amanhos agrícolas e outros como a construção de habitação própria ao fim-de-semana comum naquela época. A colaboração das "forças vivas" como os párocos, presidentes de juntas de freguesia e do município revelaram-se decisivas para a aceitação do investigador junto das populações rurais. As vendas, como as mercearias são designadas na Região, foram do mesmo modo essenciais para o contacto com os residentes e a compreensão do seu dia-a-dia. Reconhece diferenças entre os cultivos agrícolas no litoral e a serra, assim como o desenvolvimento socioeconómico dessas zonas, mais ricas e pobres, respectivamente. Os problemas de há 40 anos continuam actuais: o preço elevado e os aumentos frequentes dos fertilizantes, a falta de mão-de-obra para trabalhar ao dia e a emigração afectavam a actividade agrícola. Naquela altura, a pecuária e a criação de gado bovino para produção de leite era expressiva e um complemento significativo de rendimento para as famílias, mesmo que tivessem em média um animal por proprietário, utilizando-se o estrume dos animais para a fertilização dos terrenos. A propriedade e a posse da terra, o morgadio, o contrato de colonia, em geral, verbal, e o colono, são explicados de uma forma clara, com algumas referências cronológicas do período em estudo. Ao longo da obra, o Porto Santo é motivo de inúmeras informações sobre as culturas agrícolas com destaque para os cereais, a criação de gado, a escassez crónica de água, o avanço da areia sobre os terrenos cobrindo os cultivos e a obrigação régia de instalar-se vinhas para conter as areias trazidas pelos ventos na segunda metade do século XVIII, entre outras. O livro encontra-se à venda na loja de livros da DRC, à Rua dos Ferreiros, n.º 165, no Funchal, ou através do endereço electrónico https://loja.madeira.gov.pt/product/camponeses-da-madeira-as-bases-materiais-do-quotidiano-no-arquipelago-1750-1900/

Muito mais há para (re)descobrir nesta segunda edição, percebendo-se que a vida neste Arquipélago, para a maioria dos agricultores, nunca foi fácil, apesar da generosidade da Natureza, mas consoante os anos, também sentiam na pele a sua adversidade. Assim foi e assim ainda é!

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publicado às 15:40


E vão 14 anos de Agricultando!

por Agricultando, em 09.09.21

A 9 de Setembro de 2007 nascia o "Agricultando", rubrica de opinião sobre Agricultura madeirense na então revista do Diário de Notícias da Madeira.

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O "Pêro da Ponta do Pargo em festa" foi o primeiro artigo de um conjunto de 198 textos publicados até à presente data. São 71 textos da 1.ª série - 9.9.2007 a 13.6.2010, 72 textos da 2.ª série - 30.1.2011 a 29.1.2017 mais 55 textos da 3.ª série iniciada a 26.2.2017, e que se encontra em curso. A estes cento e noventa e oito escritos há que juntar mais dois artigos-resumo das 1.ª e 2.ª séries que foram publicados no Diário de Notícias da Madeira a 13.6.2010 e 29.1.2017, respectivamente. Chego assim às duas centenas de textos, número que nunca pensei atingir!

Dada a efemeridade dos jornais, compilaram-se os 71 textos da 1.ª série em livro a 21 de Março de 2011 com a respectiva versão inglesa, a 16 de Dezembro de 2013.

Passados 14 anos jamais pensaria estar ainda a escrever. O facto de sentir que o Agricultando é lido e acarinhado por muitos leitores do Diário de Notícias da Madeira, aqui no blogue e na página de facebook, dá-me alento para continuar, fazendo aquilo de que mais gosto: escrever sobre o que de bom a Madeira e o Porto Santo tiveram ou têm, na agricultura e na gastronomia.

Muito grato e reconhecido a quem me lê!

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publicado às 12:03

Este texto foi publicado no Diário de Notícias, no dia 29 de Agosto de 2021.

Ao longo do tempo, as páginas deste Diário centenário já tiveram espaços de opinião sobre Agricultura. Uma das rubricas que aqui recordo hoje intitulava-se "Agricultura Regional" e tinha a coordenação do Engenheiro Agrónomo Rui Vieira. Com periodicidade quinzenal, o primeiro artigo surgiu em 15 de Julho de 1989 e o último foi publicado a 26 de Junho de 1993. No texto de estreia, "Perspectivas da agricultura regional", o Engenheiro Rui Vieira, no final da "Nota de abertura", dizia que «[…] Vamos falar da agricultura. Queremos também dar a mão aos agricultores. Mas, aqui, procuraremos sobretudo contribuir para que esta actividade não esmoreça e para que se continue a dar o alento e a atenção que lhe são devidos, porventura para melhoria da sua situação, mas certamente, também, para se acautelar a sobrevivência de todos». Estas palavras escritas há mais de 32 anos continuam actuais, já que a Agricultura na Região, é uma actividade difícil por estar sujeita aos caprichos do tempo, ainda para mais nesta era de alterações climáticas, por termos um relevo acidentado com terrenos de reduzida dimensão e dispersos por várias parcelas que limitam a mecanização agrícola e desse modo requerem mais mão-de-obra. Esta página agrícola contou com a colaboração de diversos autores, licenciados, bacharéis e técnicos profissionais, quer dos serviços oficiais, quer do sector privado, dos quais seguidamente enumeramos por ordem cronológica de publicação: Henrique Seabra, Manuel José Pita, Duarte Caldeira, Rui Nunes, Carlos de França Dória, Margarida Costa Neves, Ricardo Freitas França, Francisco Xavier Teixeira, João Carlos Dória, Constantino Lopes Palma, Jaime Azevedo Pereira, Fátima Freitas, Anabela de Faria Mendes, Isabel Pimenta de França, A. Viana Barreto, Raquel M. R. Coelho, Jaime J. de Freitas, Georges Chavanier, Vítor Torres de Almeida, Mário Jardim Fernandes, Maria Gabriela Faria, Natividade Santos, Paulo Freitas Rodrigues e Ricardo Costa. A condizer com a diversidade dos colaboradores da "Agricultura Regional" e das áreas de conhecimento que dominavam, realçamos os seguintes temas: Agricultura geral, fruticultura (com destaque para a cultura da bananeira e outras subtropicais), floricultura, horticultura, vitivinicultura, fitossanidade, floresta, pecuária, cooperativismo e associativismo, apicultura, formação e aperfeiçoamento profissional em agricultura, os programas comunitários direccionados para a Agricultura e os primeiros anos de Portugal na então CEE, comercialização de produtos agrícolas, certames agrícolas como a I Exposição Regional da Anona em 1991 e a 37.ª Exposição da Flor em 1992, entre outros.

A título de curiosidade, e atendendo que há três décadas a Agricultura debatia-se com dificuldades e limitações de vária ordem, à semelhança dos dias de hoje, o Engenheiro Rui Vieira escrevia a 4 de Julho de 1992 um interessante, oportuno e actual artigo intitulado "Agricultura: Levanta-te e anda!", onde dava conta que o individualismo, o isolamento e a indiferença crónicos dos agricultores madeirenses em relação à «[…] salvaguarda dos direitos e dos interesses da Agricultura», os prejudicava sobremaneira. Não obstante aquele cenário, alertava para a profusão de associações de defesa do sector, que em vez de fortificar, dividiam, advogando que se deviam unir em torno de uma entidade que os representasse a todos sem excepção. Naquela época, apontava os problemas que afligiam a Agricultura como o escoamento da banana produzida na Madeira e nas outras regiões periféricas europeias a par com a importação massiva na Europa daquele fruto proveniente da América do Sul, o reforço da promoção do Vinho Madeira por via da recessão em alguns mercados tradicionais de importação e uma maior elucidação e apoio técnico junto dos produtores quanto ao vinho de mesa madeirense na altura recentemente lançado. A reflorestação, os vimes, os fogos florestais, a água de rega, o pastoreio desregrado, os preços e as infra-estruturas de comercialização de produtos agrícolas, eram outras das questões agrícolas polémicas indicadas. O Engenheiro Rui Vieira concluía que é «[…] imprescindível que a defesa da Agricultura se fortaleça cada vez mais com maior entusiasmo e participação dos agricultores. Sem preocupação de acolher ou discutir as palavras ocas que às vezes lhes são dirigidas, o que interessa, sobretudo, é que os agricultores não só se levantem, mas que principalmente andem!». Na pesquisa que efectuei na página de internet do Arquivo e Biblioteca da Madeira, onde se pode consultar em linha o acervo do Diário de Notícias da Madeira, contabilizei 90 números de "Agricultura Regional", mas provavelmente numa procura presencial no Arquivo Regional, poderá haver mais.

E porque hoje celebro o meu 53.º aniversário, presto a minha singela homenagem ao Engenheiro Agrónomo Rui Vieira falecido a 29 de Agosto de 2009, que juntamente com outros técnicos, registaram neste Diário para memória futura, as suas opiniões e saberes, retratando assim a Agricultura madeirense de finais dos anos 80 e início dos anos 90 do século passado.

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publicado às 16:18

Este texto foi publicado no Diário de Notícias, no dia 30 de Julho de 2021. Habitualmente, o Agricultando é publicado no DN Madeira, no último domingo de cada mês. Acontece que este texto por ter sido mais extenso e devido ao planeamento das edições do matutino, só foi possível publicá-lo em duas páginas, a título excepcional, na data em apreço, em vez de domingo passado, 25 de Julho.

No pretérito dia 15, teve lugar no auditório da Reitoria da Universidade da Madeira, no Funchal, a apresentação do livro "A Agricultura Madeirense e Eu" da autoria do Engenheiro Técnico Agrário Duarte Caldeira. Nascido na freguesia do Seixal, concelho do Porto Moniz a 16 de Julho de 1942, Duarte do Carmo Caldeira Ferreira, concluiu o seu curso em 1962, na Escola Superior Agrária de Coimbra, tendo desempenhado funções no Instituto Geográfico e Cadastral entre 1964 e 2003, na Madeira. Foi deputado eleito pelo Partido Socialista na Assembleia Legislativa da Madeira durante 16 anos, sendo colaborador do Diário de Notícias da Madeira (DN Madeira) há mais de 50 anos. Em simultâneo, desenvolveu actividade privada na área da agricultura, na produção e na comercialização, de produtos para o apoio à horticultura e floricultura, tendo-se dedicado mais recentemente à produção de vinhos tranquilos e espumantes, sendo o primeiro produtor de espumante na Região. No final dos anos 70 do século passado realizou um estágio nas Ilhas Canárias sobre a aplicação dos plásticos na agricultura, nomeadamente na construção de estufas, tendo implementado o seu uso na Madeira. Apresentou alguns programas de rádio, na Estação Rádio da Madeira ("Charrua", com frequência semanal), na então Emissora Nacional e depois na RDP-Madeira, actual Antena 1 Madeira, tendo participado em debates e entrevistas na RTP-Madeira, SIC e TVI, para um canal de televisão alemão e nas rádios. Na nota de autor, é referido que esta obra surge de um conjunto de ideias soltas que foram escritas no decorrer de quase seis décadas de experiência a ocupar-se dos problemas da agricultura regional. A pequena dimensão da propriedade agrícola, a comercialização das produções, o fornecimento de água de rega e para consumo, a florestação, as jardinagens públicas, o regime de colonia, entre outros, sempre foram temas para os quais Duarte Caldeira procurou mostrar soluções. A publicação com 384 páginas e uma tiragem de 1.000 exemplares contém cerca de 80 fotografias do autor e de Roberto Ramos, numa edição da Arteleia, Produção de Conteúdos Literários coordenada pela Jornalista Sónia Silva Franco, que contou com o apoio da Ordem dos Engenheiros Técnicos. Dedicada aos pais, mulher, filhos e netos, irmãos, colegas e amigos, bem como ao seu Seixal, está dividida em 12 capítulos: "Notas introdutórias", "Ciclos de culturas e a nossa economia", "As águas", "Outras culturas", "A colonia", "Particularidades", "Soluções", "Outras medidas a tomar", "Pecuária", "Porto Santo", "Jardinagem" e "Vontade política".

a_agricultura_madeirense_e_eu_capa_duarte_caldeira(Direitos Reservados)

No prólogo, é transcrita uma entrevista a Duarte Caldeira publicada no DN Madeira de 6 de Janeiro de 1971, a propósito de uma deslocação às ilhas de Gran Canária e Tenerife para se inteirar das técnicas de aplicação de plásticos na agricultura, mormente a instalação de estufas, onde se percebe a sua linha de pensamento e sobre aquilo que pensava e pensa sobre a agricultura madeirense, nas suas limitações e oportunidades. Nas "Notas introdutórias", o autor recorda o trabalho hercúleo levado a cabo pelos nossos antepassados quando aqui chegaram há seis centúrias. A orografia difícil e acidentada, a abundância de pedra nos terrenos, levou a que o ilhéu metesse mãos à obra e erigisse os degraus de gigante, os poios [regionalismo para socalcos], verdadeiros tabuleiros férteis de produções agrícolas, quando alimentados pela água vinda das levadas. Relata a dificuldade acrescida do trabalho agrícola em terrenos de áreas reduzidas, dispersos, onde mesmo nos dias de hoje, a mecanização apesar de ser possível, é difícil na deslocação daqueles equipamentos de poio em poio. Regista as suas recordações de infância e de juventude passadas no Seixal, designadamente as tradições da Festa, o panelo no sítio do Chão da Ribeira, as vindimas, entre outras. No segundo capítulo, dá conta das culturas mais importantes ao longo do tempo para o Arquipélago da Madeira (cereais, aquando do povoamento, cana sacarina, vinho e banana) e explana a sua evolução, com dificuldades e ensejos, em especial, no período antes e depois do 25 de Abril de 1974, ou seja, no tempo do Estado Novo e da democracia instaurada, com apontamentos da sua própria vivência rural. Sugere, por exemplo, que o preço corrente de um quilo de cana-de-açúcar pago ao produtor, 28 cêntimos, deveria ser aumentado para 35 cêntimos, atendendo aos custos dos fertilizantes, da mão-de-obra e dos transportes e que apesar disso trazer igual custo num litro de aguardente, seria um valor aceite pelo sector. A título de curiosidade, e contrariando uma ideia de que são os comerciantes ingleses que dominam a comercialização do Vinho Madeira, refere que actualmente 70 por cento daquele vinho generoso é transaccionado por uma casa de origem francesa. Critica (e bem) que o madeirense, por não ter o hábito de consumir Vinho Madeira, tal como acontece com o Continental que consome o Vinho do Porto, dificulta o seu escoamento, quando no presente a produção é quase seis vezes menos que no passado. Menciona como é que constituiu a Duarte Caldeira & Filhos – Seixal Wines, Lda., o motivo da escolha do nome Terras do Avô para os vinhos de mesa produzidos e o desafio e as várias atribulações de ter sido o primeiro produtor madeirense de espumante. Na cultura da bananeira, foi Presidente da Cooperativa Agrícola de Produtores de Fruta da Madeira na segunda metade da década de 70 do século passado, lembrando a sua intervenção no sentido de mudar o modo de operação daquela cooperativa, passando de ‘cortadora’ de banana para também exportadora, com ganhos para os sócios, pois antes entregavam as produções a exportadores. Depois, nos capítulos seguintes, "Águas", indica problemas do abastecimento de água de rega no Verão e propõe respostas. Em ‘Outras culturas’, destaca as hortícolas e suas variedades como a alface, a semilha [regionalismo para batata], a batata-doce, o feijão, o milho, a cebola, a cenoura, os nabos, a couve, a salsa, o alho francês, o tomate, entre outras. Sobre a fruticultura, recorda os tempos em que qualquer casa na Madeira tinha árvores de fruto como anoneiras, abacateiros, mangueiros, goiabeiras, pitangueiras, araçazeiros, laranjeiras, tangerineiras, limoeiros, macieiras, pereiras, pessegueiros, ameixeiras, nespereiras, figueiras, consoante a altitude em que a residência se encontrava. Enaltece o trabalho encetado por dois Técnicos que muito deram à pecuária e à agricultura regionais, o Dr. Carlos França Dória e o Engenheiro Agrónomo Rui Vieira, respectivamente, com quem muito aprendeu e estabeleceu relações de amizade. Defende a ideia de que se devem aproveitar os antigos funcionários já aposentados dos postos zootécnicos e agrários da Secretaria Regional de Agricultura e Desenvolvimento Rural (SRA), para complementar a formação aos novos funcionários, pois a experiência e o conhecimento acumulados no decorrer da sua actividade profissiobal devem ser aproveitados. No capítulo "A colonia", uma nota de registo para a redacção de um texto em meados dos anos 70 do século XX como provável lei de Extinção da Colonia na Madeira com a colaboração do Engenheiro Rui Vieira. Apesar das desigualdades patentes no regime de colonia, Duarte Caldeira está convencido que sem a sua existência nunca se teria aproveitado tanta terra para fins agrícolas, na Madeira. Nas "Particularidades", caracteriza a agricultura da Região Autónoma da Madeira da seguinte maneira: agricultura de montanha, dimensão da propriedade agrícola, falta de acessos, o nosso clima, falta de adaptação das culturas ao solo e/ou clima, falta de conhecimentos técnicos, dificuldades na comercialização, a mentalidade fechada, a criação controlada de gado ao ar livre, entre outros. No capítulo das "Soluções" reivindica um programa de apoio ao emparcelamento voluntário com um gabinete de apoio jurídico, financeiro e técnico, que também poderia gerir o Banco de Terrenos. Sobre as licenças camarárias sustenta que se deveriam utilizar as mesmas regras nos 11 municípios no que diz respeito ao licenciamento da construção de muros de suporte, tanques de rega, armazéns agrícolas, estufas e escavações, com o objectivo de simplificar os processos de aprovação, reduzindo o tempo de decisão e dos custos inerentes. Recomenda o surgimento de um Conselho Regional de Agricultura próximo do Gabinete do Secretário Regional da tutela e que seria composto pelo Director Regional, Directores de Serviços, representantes das Associações de Agricultores, de Cooperativas Agrícolas, elementos da Ordem dos Engenheiros e da Ordem dos Engenheiros Técnicos com formação na área das Ciências Agrárias, por um agricultor de cada freguesia indicado pela respectiva Junta de Freguesia e pelos Técnicos Concelhios. Seria um órgão de consulta do Secretário Regional que reuniria pelo menos duas vezes por ano, consoante o seu entendimento e a convocação de pelo menos 25 por cento dos membros efectivos, dando pareceres não vinculativos sobre o Orçamento e Plano anual da SRA e outros documentos de grande relevância para a Região.

Dada a extensão do livro e deste escrito, faço questão de mencionar que muito mais há para ler (merece especial atenção o capítulo dedicado à Ilha do Porto Santo), com sentido crítico, mas sobretudo com uma abertura de mentalidade que é saudável, pois é pela discussão de ideias que nascem decisões mais ou menos duradouras, com o intuito de melhorar.

Está pois, de parabéns, o Engenheiro Técnico Agrário Duarte Caldeira por este seu contributo a um sector que é primordial ao Arquipélago da Madeira, a Agricultura!

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publicado às 12:38


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