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Este texto foi publicado no Diário de Notícias, no dia 30 de Novembro de 2025.

O Centro de Desenvolvimento e Inovação Sociocultural e Agro-florestal (CDISA), localizado na freguesia do Jardim da Serra, concelho de Câmara de Lobos, é uma instituição sem fins lucrativos que pertence à Rede Rural Nacional e que tem como lema "pensar globalmente, agir localmente". Este Centro norteia-se pelas seguintes linhas de acção: conhecer, preservar, valorizar e promover o património sociocultural e agro-florestal do Arquipélago da Madeira; desenvolver actividades e projectos, nas áreas científico-pedagógicas, aproveitando as experiências, nomeadamente dos Centros de Ciência Viva e das Quintas com Ciência Viva; criar campos de variedades agrícolas regionais e reservas de sementes, tendo por finalidade a preservação, reprodução e propagação destas variedades em estreita colaboração com o Governo Regional, universidades e outros centros de investigação; realizar eventos experimentais e criativos para valorizar os produtos regionais, atendendo à sua qualidade e sazonalidade, entre outras. Desse modo, no âmbito do evento "Jardim da Serra – Food Matching – Aromas, Cores e Sabores 2025", organizado pelo CDISA desde 2022 (anteriormente era a Junta de Freguesia que organizava), tiveram lugar duas actividades, nos dias 21 e 22 deste mês. No primeiro dia houve a apresentação da curta-metragem "Ecos do passado – A Arte da Fermentação" de Ava Ferreira acerca da produção de sidra na Madeira, no Bio-Hotel Quinta da Serra, no qual se seguiu um jantar temático sobre a harmonização de Sidras da Madeira IGP (Indicação Geográfica Protegida), com pratos da gastronomia madeirense. Este jantar foi dinamizado pela Chefe de Cozinha Lídia Freitas, com a colaboração do "Sommelier" Américo Pereira, do Investigador Gregório Freitas da Universidade da Madeira/ISOPlexis e de alguns membros da AgroSenseLab – Câmara de Provadores de Produtos Agrícolas e Agro-alimentares da Região Autónoma da Madeira. Na manhã e início de tarde do segundo dia, realizou-se o Roteiro Gastronómico do Jardim da Serra, em que participei na sequência de um convite endereçado pelo Prof. Manuel Neto do CDISA, juntamente com Isabel Teles e Patrícia Gouveia da Agência de Viagens Windsor Travel, o Chefe de Cozinha Yves Gautier (que orientou a área gastronómica) e José António Barros do Grupo de Teatro Metaphora. Os objectivos principais deste Roteiro assentam no seguinte: propiciar experiências gastronómicas aos participantes, valorizar e promover os produtos agrícolas e seus derivados locais e regionais, sensibilizar a opinião pública para o fenómeno da perda de biodiversidade agrícola madeirense e a necessidade de serem tomadas medidas que a atenuem. Acresce dizer que este evento teve início em 2024 e foi promovido pela Casa do Povo local e integrado na Festa da Cereja, procurando-se agora que o mesmo possa acontecer em qualquer altura do ano, tendo sido criada uma plataforma em linha, onde se pode saber mais sobre os horários, os pontos de passagem, ementas e preçário. É sobre este Roteiro que darei destaque nas linhas que se seguem.

roteiro_gastronomico_jardim_da_serra_fotos_Manuel_(Direitos Reservados)

O Roteiro Gastronómico do Jardim da Serra iniciou-se num dos estabelecimentos aderentes, a pastelaria Doce Cereja, em que se apreciou pão com farinhas de centeio e de maçã, acompanhado de doce de uva tinta negra mole, pastel de maçã e café. Depois visitámos o Miradouro da Boca dos Namorados e dali podemos ver o Curral das Freiras e as montanhas grandiosas que o envolvem, tendo a mãe-natureza nos presenteado com um belíssimo arco-íris. Nesse local, o anfitrião deste Roteiro, o Prof. Manuel Neto, contou a lenda de Pero (sem "d") e Inês, ele nobre e ela pastora, numa história de amor que deu nome àquele local, além de outras histórias do tempo da colonia e da travessia a pé desde o Curral até à Boca dos Namorados, único acesso para Câmara de Lobos. Era tempo de irmos a outro miradouro, o da Boca da Corrida, junto ao Posto Florestal, e no qual se contempla noutra perspectiva uma majestosa vista para o Curral das Freiras, e vendo-se igualmente o ziguezaguear de um Caminho Real que permite chegar à Encumeada. Na descida, uns metros mais abaixo, encontrámos uma mesa primorosamente decorada com bolas de Berlim com cereja e outras com banana, pastéis de maçã, queijadas de castanha, água aromatizada com hortelã e "Pêro Domingos" (variedade regional de maçã oriunda do Jardim da Serra), num momento de harmonia com a natureza circundante constituída por imponentes castanheiros. Antes do almoço, havia que tomar um aperitivo noutro estabelecimento aderente, o Bar "O Mário", uma poncha regional "feita na hora", com aguardente de cana, sumo de limão e mel de abelha regionais. Chegados à hora do almoço, foi tempo de retemperar forças na Taberna "O Rasteirinho", onde se pôde desfrutar de um filete de espada regado com molho de Sidra da Madeira, com batata cozida e couve salteada, e de um prato de carne composto por pedaços de frango salteados com cogumelos, arroz e "Pêro Silvestre" cozido, aromatizado com especiarias, envoltos num molho "Béchamel" de trigo regional (farinha de variedades regionais "Temporão" e "Vermelho"). A acompanhar estas iguarias, tivemos oportunidade de provar quatro Sidras da Madeira IGP do Jardim da Serra: "Pomar do Avô", "Pomar das Levadas", "Rilha Pêros" e "Sidra Coop Bio". A terminar o Roteiro, visitámos a Casa de Colmo da Família Vieira situada na Achada, a única casa habitada nesta freguesia com cobertura de colmo e paredes de pedra, com mais de 100 anos, os jardins do Bio-Hotel Quinta da Serra, com inúmeras espécies ornamentais, florestais e agrícolas, e a Quinta Leonor (CDISA), localizada na antiga Escola Básica do 1.º Ciclo com Pré-Escolar entretanto desactivada, com os terrenos anexos com uma colecção de fruteiras de clima temperado e de clima subtropical e de variedades de batata-doce. Trata-se de um espaço que possui uma biblioteca com os acervos do Pe. Mário Tavares, Pe. José Luís Rodrigues e de particulares que têm confiado as suas bibliotecas àquele Centro. Este Roteiro Gastronómico do Jardim da Serra, pese embora a sua vertente gastronómica bem definida, é muito mais do que isso, ambiciona que se conheça melhor a história desta freguesia serrana do município de Câmara de Lobos, as vivências rurais de outrora e de agora e as belezas naturais e rurais.

O próximo Roteiro acontecerá brevemente e as inscrições poderão ser feitas na página do CDISA, numa ligação que será disponibilizada oportunamente. Caro leitor, esteja atento, aproveite e conheça melhor a nossa terra, pois no final dará muito mais valor ao que de bom temos e produzimos. Só se valoriza aquilo que se conhece!

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publicado às 16:07


Os 80 anos da FAO (1945-2025)

por Agricultando, em 26.10.25

Este texto foi publicado no Diário de Notícias, no dia 26 de Outubro de 2025.

No passado dia 16, Dia Mundial da Alimentação, a FAO, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, celebrou 80 anos de existência. Criada a 16 de Outubro de 1945, na cidade de Quebec, Canadá, esta agência especializada das Nações Unidas, com o lema "Fiat Panis" (expressão em latim que significa "Que Haja Pão"), instalou a sua primeira sede em Washington DC, nos Estados Unidos da América, mas em 1951 foi tansferida para Roma, Itália, onde permanece. Desde sempre, o seu objectivo principal passa pela segurança alimentar para todos e assegurar que cada pessoa possa ter acesso a uma alimentação de elevada qualidade, para que tenha uma vida activa e saudável. Actualmente, é constituída por 194 países, a União Europeia e dois membros associados, e trabalha em mais de 130 países. Em 1961, o Programa Alimentar Mundial foi lançado, para conceder ajuda alimentar em tempo real, em zonas afectadas. Em 1963, foi divulgado o "Codex Alimentarius", um documento elaborado pela FAO e pela OMS (Organização Mundial de Saúde), no sentido de proteger a saúde dos consumidores e garantir práticas justas no comércio alimentar. Em 1974, foi constituído o Comité para a Segurança Alimentar Mundial (CFS, em inglês), onde se procurou encontrar o equilíbrio na produção global crescente de cereais e a estabilização de preços no mercado de cereais, com o propósito que estas acções fossem suficientes para que qualquer pessoa tivesse alimento para comer. Em 1979, na vigésima sessão da conferência da FAO, e por unanimidade, instituiu-se o Dia Mundial da Alimentação para ser comemorado a 16 de Outubro, a fim de envolver os governos e os cidadãos, na luta para libertar o mundo da fome, da má-nutrição e da pobreza. Em 1986, foi apresentado o FAOSTAT (conhecido como AGROSTAT até meados dos anos 90 do século passado), e que se trata de uma edição electrónica anual, que é considerada a fonte de informação mais abrangente de dados ag
rícolas e respectivas estatísticas. Em meados de Novembro de 1996, a Cimeira Alimentar Mundial tornou-se num evento histórico, ao juntar cerca de 10.000 participantes, criando condições para um fórum de debate sobre um assunto sensível que os líderes mundiais do novo milénio enfrent
ariam: a erradicação da fome. Em 2008, a FAO organizou a Conferência sobre as Alterações Climáticas, onde participaram 43 Chefes de Estado e ministros de 100 países, para debater o impacto das alterações climáticas e do consumo exponencial de biocombustíveis na segurança alimentar e nos preços dos alimentos, com a aprovação de uma resolução para o aumento da assistência e do investimento do desenvolvimento da agricultura mundial. Em 2015, todos os membros das Nações Unidas adoptaram a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável e os 17 Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), para serem cumpridos até 2030. Em 2019, definiu-se a Década da Agricultura Familiar (2019-2028), para reforçar o seu papel importante na erradicação da fome e na modelação do nosso futuro alimentar. No ano seguinte, a Iniciativa Cidades Verdes foi lançada, no sentido de apoiar os órgãos governativos urbanos para que integrem práticas agrícolas, florestais e da bioeconomia, nas zonas urbanas e periurbanas, com vista a melhorar os meios de subsistência e bem-estar dos residentes urbanos, que se estima que serão dois terços da população mundial até 2050. A 16 de Outubro de 2021, teve lugar a primeira edição do Fórum Mundial da Alimentação dirigido aos jovens, àqueles que serão o futuro da agricultura.

dia_mundial_alimentacao_16_out_2025_FAO_80_anos_DR(Direitos Reservados)

Entre os dias 10 e 17 deste mês e no âmbito do 80.º aniversário da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, teve lugar na sede, em Roma, o "World Food Forum" (WFF, em português, Fórum Mundial da Alimentação). Este evento emblemático reuniu líderes mundiais, decisores políticos, jovens, povos indígenas, cientistas, agricultores, investidores e inovadores, à volta de um objectivo em comum: transformar os sistemas agro-alimentares para termos um mundo sustentável e sem fome. Sob o tema "De Mãos Dadas para uma Alimentação Melhor e um Futuro Melhor", o WFF apresentou mais de 300 iniciativas e contou com cerca de 16.500 participantes presenciais e mais de 60.000 assistentes pela internet de quase 200 países, e através da comunicação social, 1,5 biliões de pessoas tiveram conhecimento deste acontecimento. O WFF 2025 começou no dia 10 com a inauguração da exposição "Das Sementes aos Alimentos", a primeira exposição global sobre os primórdios da agricultura até às inovações do presente neste sector. O espaço em frente à sede da FAO, tornou-se uma galeria ao ar livre, com uma réplica do Cofre Global de Sementes de Svalbard (uma espécie de "Arca de Noé" das sementes de todo o mundo, que se localiza no Círculo Ártico e pertence ao governo norueguês, com orientação da FAO), uma estufa de aquaponia, drones agrícolas, tecnologias de satélite, e até cães treinados para detectar doenças nas plantas. A abertura do fórum aconteceu a 13 numa cerimónia ao mais alto nível, presidida pelo Director Geral da FAO, Qu Dongyu, com as intervenções do Rei Letsie III do Lesoto, Embaixador da FAO para a Nutrição, Luiz Inácio Lula da Silva, Presidente do Brasil, Muhammad Yunus, Conselheiro Chefe do Governo Interino do Bangladesh, Princesa Basma Bint Ali, da Jordânia, entre outros. No Dia Mundial da Alimentação 2025, em que se assinalou o 80.º aniversário da FAO, além do Director-Geral da FAO, estiveram presentes Sua Santidade o Papa Leão XIV, a Primeiro-Ministro italiana Giorgia Meloni, o Rei Letsie III do Lesoto, a Rainha Letizia, da Espanha e o Presidente do Uruguai, Yamandú Orsi Martínez. O Presidente da China, Xi Jinping enviou uma mensagem de felicitações através de Han Jun, Secretário do grupo de liderança do partido do Ministério da Agricultura e Assuntos Rurais. No mesmo dia, o Presidente da Itália, Sergio Mattarella, visitou a FAO e inaugurou o Museu e Rede de Alimentação e Agricultura (FAO MuNe) que teve o apoio do Ministério dos Negócios Estrangeiros e Cooperação Internacional de Itália, e que será um espaço onde se poderá conhecer melhor os sistemas agro-alimentares de outrora, de hoje e do que há-de vir, bem como o histórico de oito décadas de dedicação à segurança alimentar mundial. Importa reter que os três pilares-chave deste WFF, Juventude, Ciência e Inovação, e Investimento, assim como a cooperação global, podem marcar a diferença, desde soluções como a resiliência climática, a agricultura digital e o maneio sustentável da água associadas a parcerias e investimentos na transformação agro-alimentar. A Assembleia de Jovens que juntou mais de 1.200 jovens líderes e especialistas, e dezenas de milhares de pessoas de todo o mundo, que assistiram à distância, sobre o impacto crescente da liderança jovem na transformação dos sistemas agro-alimentares, foi outro dos destaques.

A finalizar, recordamos aqui as palavras de John Boyd Orr, primeiro Director-Geral da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura entre 1945 e 1948, Nutricionista escocês, Prémio Nobel da Paz em 1949, que proferiu a seguinte frase: «O nosso objectivo é que todo o homem, mulher e criança em todo o mundo, deve ter direito aos alimentos que necessita para ser realmente saudável. É o começo de um grande plano mundial que irá colocar o bom senso nos assuntos da humanidade. Um plano que irá pôr a política e a economia na senda da prosperidade e da paz mundial».

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publicado às 17:03

Este texto foi publicado no Diário de Notícias, no dia 28 de Setembro de 2025.

No passado dia 19 deste mês, a Região Madeira da Ordem dos Engenheiros (RMOE) através do Grupo de Trabalho da Especialidade de Engenharia Agronómica (GTEEA), organizou no auditório da sua sede regional uma "Tarde de Engenharia" subordinada ao tema "Sidra da Madeira IGP – Uma bebida com história e futuro". Antes de mais, importa esclarecer que quando falamos de sidra com "s", referimo-nos à bebida fermentada obtida a partir do sumo de maçãs/pêros (também conhecida entre nós como ‘vinho’ de pêros), enquanto a cidra com "c" é um citrino, que na Região é aproveitado pela sua casca que depois de cristalizada, faz parte da receita do bolo de mel de cana-de-açúcar. Esta iniciativa contou com a presença da Presidente do Conselho Directivo da RMOE, Engenheira Beatriz Jardim, que deu as boas-vindas aos convidados e participantes, tendo posteriormente dado a palavra ao Coordenador do GTEEA e moderador desta "Tarde de Engenharia", o signatário deste artigo, que no dia 1 de Abril assumiu as funções de coordenação regional daquela especialidade e de Vogal do Conselho de Especialidade de Engenharia Agronómica (órgão colegial nacional) pela Região Madeira, mandatado para o triénio 2025-2028. Perante um auditório muito bem composto pelo Vice-Presidente, Engenheiro Bernardo Araújo, pela Tesoureira, Engenheira Luísa Gouveia e pelo Vogal, Engenheiro Gilberto Figueira do Conselho Directivo Regional e membros da Ordem dos Engenheiros, pelos convidados, o Director Regional de Agricultura e Desenvolvimento Rural, Dr. Marco Caldeira da Costa, o Presidente do Instituto do Vinho, Bordado e Artesanato da Madeira, Dr. Tiago Freitas, o Presidente da Associação de Agricultores da Madeira, Engenheiro Técnico Agrário João Ferreira, o Presidente da Casa do Povo de São Roque do Faial, Prof. Heliodoro Dória e o Confrade-Mor da Confraria da Truta e da Sidra, Enfermeiro Gonçalo Jardim, produtores de sidra, entre outros interessados nesta matéria, a mesa-redonda decorreu durante aproximadamente 90 minutos, seguida de um animado período de debate e de uma prova de sidras madeirenses. A primeira intervenção coube à Engenheira Agrícola Regina Pereira Santos, da Secretaria Regional de Agricultura e Pescas (SRAP), Direcção Regional de Agricultura e Desenvolvimento Rural (DRA), com a comunicação "A História e a Evolução da Sidra da Madeira IGP". De seguida, a Engenheira Agrónoma Zita Vasconcelos da SRAP/DRA, falou sobre "A análise sensorial das sidras madeirenses (Sidra da Madeira IGP e outras sidras), suas características e potencialidades". E por fim, o Presidente da Direcção da Associação de Produtores de Sidra da Região Autónoma da Madeira (APSRAM), Vítor Maciel, fez o balanço acerca desta associação e "A situação actual e perspectivas futuras da produção de sidra na Região Autónoma da Madeira".

Tarde_Engenharia_Sidra_da_Madeira_IGP_19_9_2025_me(Direitos Reservados)

Como é sabido, a sidra é produzida na Madeira desde sempre. Elaborada a partir de pêros/maçãs de diversas variedades regionais com excelentes características para transformação, utilizam-se de igual modo frutos que não são consumidos em fresco, por não terem valor comercial para tal, mas que devem ser aproveitados para fazer sidra. Trata-se de uma bebida leve, de baixo teor alcoólico (semelhante ao de uma cerveja, com 5 a 6 graus), muito saborosa, refrescante e diurética. Para se obter uma boa sidra, os pêros devem ter uma maturação entre o verde e o maduro, pois nessa fase, os frutos têm pouco teor de açúcares, conferindo a frescura e a acidez que se procura para este produto distinto. Das intervenções dos três oradores, houve algo em comum: a importância da preservação das variedades regionais de maçãs/pêros, a acidez e a salinidade características das sidras madeirenses, o reconhecimento da Sidra da Madeira como Indicação Geográfica Protegida a nível europeu, o que ao fim e ao cabo é aquilo que nos distingue de outras regiões produtoras de sidra, na Europa e no mundo. A Colega Regina Pereira Santos contou como começou a trabalhar por acaso, na produção de sidra, há quase 20 anos, em 2006. Nessa altura, quis o destino que encontrasse o Pe. Rui Sousa, então Pároco da freguesia dos Prazeres, concelho da Calheta, que por ser natural do Santo da Serra, era conhecedor e apreciador de sidra, ao ver que os pomares de macieira estavam quase ao abandono, ambos decidiram produzir sidra com os produtores locais e das localidades vizinhas. No decorrer dos anos, onde a vontade popular e as técnicas modernas de produção de sidra no domínio da Engenharia Agronómica se juntaram, surgiu a sidra natural engarrafada, devidamente rotulada e que foi conquistando prémios nacionais e internacionais. A Engenheira Regina Pereira Santos e demais equipa de trabalho muito deram e dão ao sector das sidras naturais madeirenses, elevando-as a um patamar de excelência que lhes é reconhecido aqui e além-mar. A Colega Zita Vasconcelos, na sua exposição, elucidou a audiência sobre a actividade da AgroSenseLab, a Câmara de Provadores de Produtos Agrícolas e Agro-alimentares da Região Autónoma da Madeira, órgão colegial multidisciplinar pertencente à SRAP através da DRA e que presta um valioso serviço no que se refere às análises sensoriais e químicas das sidras madeirenses que as valorizam. A diversidade de sidras (naturais, aromatizadas, fortificadas, envelhecidas, entre outras) reflecte-se no leque de cores, aromas, sabores e texturas, tornando-a apelativa para os amantes desta bebida, e como disse Regina Santos, igualmente para «aqueles amantes de sidra que ainda não sabem que o são», ou seja, aquelas pessoas que não conhecem a bebida, mas que ao conhecê-la tornam-se fiéis admiradores. O Presidente da APSRAM, também ele produtor de maçã e de sidra, deu conta de um passado recente, onde a sidra era vendida a granel e agora é engarrafada, dos prémios que as sidras madeirenses têm conquistado na Região e no exterior, da pouca maçã/pêro que existe actualmente para tanta procura com vista à produção de sidra, o envelhecimento dos pomares e dos produtores, e a necessidade de atrair jovens para este sector rentável e da criação de um roteiro regional da Sidra pelas localidades como o Santo da Serra, a Camacha (freguesias do concelho de Santa Cruz), Santo da Serra, Machico (freguesias do concelho de Machico), São Roque do Faial, Santana (freguesias do concelho de Santana), Jardim da Serra (freguesia do concelho de Câmara de Lobos), Prazeres, Fajã da Ovelha, Ponta do Pargo (freguesias do concelho da Calheta), entre outras. A finalizar, uma nota de agradecimento aos cinco produtores de sidra, Casa do Caramanchão (Santo da Serra, Machico), Geraldo Dória (São Roque do Faial, Santana), Marco António Faria Gonçalves (Jardim da Serra, Câmara de Lobos), Marco Teles (Santana) e às irmãs Sandra e Sónia Vargem (sítio da Lombada, Ponta do Sol), que proporcionaram aos presentes uma prova de sidras, de diferentes locais de produção e com diversas variedades regionais de maçã/pêro, tendo sido bastante elogiadas e apreciadas.

Uma tarde à volta da Sidra da Madeira IGP, da dedicação dos produtores e do contributo decisivo da Engenharia Agronómica madeirense no passado, presente e futuro desta bebida secular!

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publicado às 14:34


A maioridade do Agricultando!

por Agricultando, em 09.09.25

A 9 de Setembro de 2007 surgia o "Agricultando", rubrica de opinião sobre Agricultura madeirense na então revista do Diário de Notícias da Madeira.

1_o_artigo_Agricultando_9_9_2007.pngO "Pêro da Ponta do Pargo em festa" foi o primeiro artigo de um conjunto de 246 textos publicados até à presente data. São 71 textos da 1.ª série - 9.9.2007 a 13.6.2010, 72 textos da 2.ª série - 30.1.2011 a 29.1.2017 mais 103 textos da 3.ª série iniciada a 26.2.2017, e que se encontra em curso. A estes 246 escritos há que juntar mais dois artigos-resumo das 1.ª e 2.ª séries que foram publicados no Diário de Notícias da Madeira a 13.6.2010 e 29.1.2017, respectivamente.

Dada a efemeridade dos jornais, compilaram-se os 71 textos da 1.ª série em livro a 21 de Março de 2011 com a respectiva versão inglesa, a 16 de Dezembro de 2013, livros que ainda se encontram à venda e são procurados, quer pelos locais, quer pelos visitantes.

Decorridos 18 anos jamais pensaria estar ainda a escrever. O facto de sentir que o Agricultando é lido e acarinhado por muitos leitores do Diário de Notícias da Madeira, aqui no blogue e na página de facebook, dá-me vontade para continuar, fazendo aquilo que mais gosto: escrever sobre o que de bom a Madeira e o Porto Santo tiveram ou têm, na agricultura e na gastronomia.

Muito agradecido a quem me lê!

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publicado às 10:35


Perspectivas Agrícolas para a década 2025-2034

por Agricultando, em 31.08.25

Este texto foi publicado no Diário de Notícias, no dia 31 de Agosto de 2025.

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) e a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) lançaram em Julho deste ano a publicação em inglês "OECD-FAO Agricultural Outlook 2025-2034" ("Perspectivas Agrícolas 2025-2034 pela OCDE-FAO"). A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico é composta por 38 países membros, dos quais Portugal foi membro fundador da então Organização Europeia de Cooperação Económica (OECE) que existiu entre 1948 e 1960, e em 1961, quando esta instituição passou a ter a actual designação. Abrange países dos continentes europeu, americano (norte e sul) e asiático. Os objectivos desta organização passam pela promoção da democracia e economia de mercado, análise e recolha de dados, bem como a identificação de tendências para o futuro, que são úteis para a definição de políticas dos membros e parceiros da OCDE. A FAO é uma agência especializada que tem como propósito erradicar a fome no mundo e alcançar a segurança alimentar para todos os países, de modo que as pessoas tenham alimentos disponíveis no dia-a-dia, que lhes permitam ter uma vida activa e saudável. O documento de 166 páginas traz perspectivas dos mercados de produtos básicos (agrícolas, pecuários e da pesca) a nível regional, nacional e internacional, para os próximos dez anos, resultante de uma avaliação detalhada e baseada em dados e políticas em vigor até Dezembro de 2024, no que concerne à produção, consumo, comércio e preços, tornando-se assim numa ferramenta de trabalho para o planeamento de políticas agrícolas. Dada a extensão da publicação, faremos um breve apontamento do seu conteúdo que está dividido em três partes: Parte 1 sobre Mercados Agrícolas e Alimentares, tendências e prospectivas; Parte 2 acerca das mais recentes evoluções de mercado e projecções a médio prazo de produtos básicos como cereais, oleaginosas e seus derivados, açúcar, carne, leite e produtos lácteos, peixe, biocombustíveis, algodão e outros produtos, com apresentação de conclusões sobre os assuntos principais e incertezas que poderão afectar os mercados até 2034; e a Parte 3 que é um Anexo Estatístico que só pode ser consultado em linha como material de apoio e que se refere a previsões de produção, consumo, mercado e preços dos produtos agrícolas, peixe, biocombustíveis, assim como os pressupostos macroeconómicos e políticos.

OECD_FAO_agricultural_outlook_2025_2034_capa_DR.pn(Direitos Reservados)

Como mensagens chave deste trabalho, fica-se a saber que é expectável que na próxima dezena de anos haja um acréscimo da ingestão calórica diária por pessoa na ordem dos seis por cento, de carne, leite, peixe e outros produtos de origem animal, devido ao aumento dos rendimentos em países de rendimento médio. Contudo, nos países de baixos rendimentos, essa ingestão diária desses produtos ricos em nutrientes vai manter-se baixa com o valor de 134 quilocalorias até 2034, muito inferior às 300 quilocalorias incluídas no cabaz da dieta saudável utilizado pela FAO. Espera-se que a produção agrícola e actividade pesqueira global aumente 14 por cento durante a próxima década por via dos melhoramentos da produtividade, em particular nos países de rendimentos médios. Porém, este crescimento de produção, a par com as mudanças estruturais em curso no sector, está igualmente associado à expansão das explorações pecuárias e áreas de cultivo. Apesar da diminuição da intensidade das emissões provenientes do acréscimo da produtividade, há um aumento de seis por cento nas emissões de gases de efeito estufa agrícolas. No cenário em análise e até 2034 propõem-se medidas para eliminar a subnutrição e para reduzir em sete por cento as emissões directas de gases de efeito estufa por comparação com os níveis actuais. Para conseguirmos este duplo resultado seria necessário um incremento de 15 por cento da produtividade agrícola complementada com a adopção generalizada de tecnologias que visem o abrandamento de emissões e um nível de produção suficiente para erradicar a subnutrição a nível mundial. À medida que cresce a procura por alimentos e rações animais, com as áreas de produção muitas vezes afastadas das zonas de consumo, projecta-se que nos próximos dez anos, 22 por cento de todas as calorias irão atravessar fronteiras internacionais. Para assegurar uma circulação de produtos agrícolas e de peixe, a cooperação multilateral e um sistema de comércio baseado em regras, são essenciais. Estes contextos além de melhorar a segurança alimentar, têm o mesmo efeito na sustentabilidade e resiliência perante possíveis rupturas no fornecimento. Por último, estima-se que os preços dos produtos básicos agrícolas baixarão a médio prazo enquanto a produtividade do sector agrícola cresce, colocando pressão nos agricultores individuais, nomeadamente os produtores de pequena dimensão, no extremo inferior da escala da produtividade, para que continuem a aumentar a sua própria produtividade. Os melhoramentos sustentados de eficiência, adopção de tecnologias inovadoras, o acesso facilitado aos insumos, conhecimento, mercados, e práticas eficazes de gestão de risco empresarial, são fundamentais para a manutenção dos rendimentos da exploração agrícola e os meios de subsistência dos agricultores.

Um comentário à parte
Foi com um sentimento de tristeza e apreensão que durante este mês assisti pela televisão aos incêndios que puseram em perigo populações de aldeias remotas do interior das regiões centro e norte do país, cada vez mais despovoadas e envelhecidas, à semelhança do que acontece nos concelhos da costa norte e sudoeste da Madeira. É um círculo vicioso que urge quebrar, prevenindo antes da prevenção dos incêndios rurais/florestais. Não basta apetrechar os bombeiros e a protecção civil de meios materiais e humanos para apagar os fogos. É preciso limpar os terrenos (se as pessoas se ajudam nos incêndios, porque não o fazem nas limpezas, por exemplo, com o apoio logístico dos municípios?), erradicar as invasoras como acácias, giesta, carqueja, silvado, eucaliptos, entre outras, plantar espécies autóctones e acompanhar ao longo dos anos (leia-se, seguir o crescimento das plantas que escolhemos e eliminar as plantas invasoras que ficam sempre nos terrenos). É um processo moroso? É, mas é importante fazer e manter, para o nosso bem e das gerações vindouras.

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publicado às 15:05


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