Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]




A Agricultura não pára!

por Agricultando, em 29.03.20

Este texto foi publicado no Diário de Notícias, no dia 29 de Março de 2020.

Nestes dias incertos, mas de esperança que tudo vai correr bem se fizermos a nossa parte, é inevitável falar do Covid-19. Quase todos tivemos de parar de fazer o que era o dia-a-dia e ficar em casa, quando até há um par de semanas nos queixávamos do tempo que passava a correr, e agora num repente, até parece que sobra tempo! E não é só a doença que nos preocupa, é a economia que também começa a "adoecer". Na agricultura, e porque as plantas e as árvores de fruto se tratam de seres vivos que o agricultor cuida todos os dias para deles tirar produção e sustento, o quotidiano mudou, mas não tanto, pois é preciso semear, regar, sachar, fertilizar, proteger as culturas das pragas e doenças e colher. O mesmo raciocínio de trabalho permanente deverá ser feito para a produção animal, seja de carne, leite ou ovos. Como precisamos de comer várias vezes ao dia, se nas refeições incluirmos hortofrutícolas de origem regional, tanto melhor, visto que são mais frescos e como tal, têm mais qualidade que aqueles que vêm de destinos longínquos. Além dos supermercados, onde nos podemos prover de frescos, existem lojas nos mercados municipais da Região e os "Mercado dos Agricultores" dos Centros de Abastecimento Hortícola dos Canhas e Hortofrutícola dos Prazeres geridos pela Secretaria Regional da Agricultura e Desenvolvimento Rural (SRA) através da Direcção Regional de Agricultura e Desenvolvimento Rural (DRA), entre outros estabelecimentos de venda a retalho, que continuam de portas abertas, embora condicionados no horário de funcionamento e no acesso ao interior dos recintos.

A necessidade aguça o "engenho e arte" no sentido de dar resposta às restrições de circulação de pessoas devido ao Covid-19, pelo que têm surgido algumas soluções de carácter privado e público para que nada falte em termos de produtos agrícolas frescos e outros derivados. No privado, dou aqui o exemplo de uma empresa, a Freshbio que comercializa hortofrutícolas de produção própria e transformados biológicos que sempre forneceu cabazes ao domicílio e que, nos últimos dias, apesar de ter reforçado as entregas, chegou ao ponto de não poder dar mais resposta a tantos pedidos de encomenda. Contudo, resolve o problema de muitas famílias que de outro modo tinham de sair de casa para conseguir aqueles produtos. No público, ilustro com uma iniciativa do Município do Funchal, "Mercado em Casa", que vai permitir entregar nas habitações dos mais velhos, legumes e frutas adquiridos nas lojas dos Mercados dos Lavradores e da Penteada, sendo o transporte gratuito assegurado pela autarquia. Os interessados deverão pedir as encomendas e obter mais informações pelo telefone 291214083 das 9h00 às 12h00. Esta medida proporciona o escoamento dos produtos nos estabelecimentos, mantendo a montante o fornecimento por parte dos agricultores e garantindo frescos a quem tem mais dificuldade e risco de sair da sua residência. Ainda no público, o Governo Regional da Madeira decidiu comprar vários produtos lácteos às agro-indústrias locais, até um valor de 120.000 euros, para serem posteriormente redistribuídos por instituições de solidariedade social. O Mercado Abastecedor de São Martinho, no Funchal, que pertence à rede de Centros de Abastecimento Agrícola da Madeira sob gestão da SRA por meio da DRA, é um mercado grossista aonde muitos comerciantes dos Mercados Municipais do Funchal e do retalho dos concelhos do Funchal, Câmara de Lobos, Santa Cruz e Machico, adquirem os produtos agrícolas. Este Mercado continuará a operar no seu horário habitual, dadas as quantidades ali transaccionadas, embora o acesso à nave principal daquele mercado esteja restringido, assim como os clientes dos postos fixos, que só podem entrar pelas portas do exterior da nave.

Sei que existem outras propostas no âmbito agrícola com o mesmo propósito, de fazer chegar à sua casa o que precisa, quer na Madeira, quer certamente no Porto Santo, mas dada a falta de espaço decidi trazer estes três exemplos. Cabe a si, caro leitor, informar-se do local ou locais de venda mais próximos do seu domicílio, para que tenha sempre os nossos produtos agrícolas frescos e de excelência à sua mesa!

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 16:51


Em busca de algo mais nutritivo

por Agricultando, em 23.02.20

Este texto foi publicado no Diário de Notícias, no dia 23 de Fevereiro de 2020.

Desde tempos muito antigos, que o uso de rebentos na alimentação do Homem é uma realidade. A Bíblia e culturas dos Continentes Americano e Asiático já mencionavam as propriedades alimentares e medicinais dos rebentos, que são o resultado da germinação de sementes. No século XVIII, o conhecido Capitão James Cook, entre 1772 e 1775, ordenou que se incluísse o limão e algumas variedades de rebentos na alimentação das tripulações, por serem ricas em vitamina C, e assim, poderem evitar a doença do escorbuto. Mais recentemente, e um pouco por todo o mundo, estes germinados são cada vez mais familiares pois além da sua produção ser muito rápida e de poder ser feita em pequenos espaços, são muito nutritivos. Todo este saber-fazer foi aproveitado pela Engenheira Agrícola Ana Ghira, que há uns anos, por motivos familiares, precisava de alimentos bastante nutritivos que proporcionassem um desenvolvimento harmonioso a um filho que estava para nascer, mas que teimava em não crescer no seu ventre, no devido tempo. Determinada, como é seu timbre, esta Colega da Direcção Regional de Agricultura e Desenvolvimento Rural (DRA) pertencente à Secretaria Regional de Agricultura e Desenvolvimento Rural (SRA), cedo se empenhou em saber mais sobre este universo dos rebentos e das plantas jovens até então desconhecido. Surge por isso, em meados desta década, o projecto "Semear Saúde, Colher Sorrisos" que é partilhado entre a Associação de Desenvolvimento da Costa Norte da Madeira (ADENORMA) e a SRA através da DRA. O principal propósito era motivar as crianças e adolescentes para o consumo de rebentos, envolvendo-os na difusão, produção e na sua generalização pelas cantinas escolares e em casa dos jovens, por meio de um germinador individual que era entregue. Em 2015, é lançado o "Germinador Sorrisos" com um manual de instruções e dois pacotes de sementes, seguindo-se em 2016, 2017 e 2018, a inclusão de sementes de rábano, dos germinadores "Germinador Canguru Sorrisos" e "Colher Sorrisos num Frasquinho" (reutilizado), respectivamente. Até ao presente chegou a cerca de 70 escolas da Região e a mais de 4.000 alunos. Como consequência de todo este trabalho realizado nos últimos anos, havia a necessidade de compilar a informação técnica e científica, entretanto concretizada, numa única publicação, que fosse acessível a todos quantos se pudessem interessar por este peculiar cultivo. Essa obra chama-se "Manual de Produção de Rebentos e Plantas Jovens".

manual_rebentos_plantas_jovens_DR_blogue.jpg

(Direitos Reservados)

Numa edição do Governo Regional da Madeira através da SRA apresentada no passado dia 17 de Janeiro, o "Manual de Produção de Rebentos e Plantas Jovens" integra a Colecção "Deméter". Coordenada pela Engenheira Ana Ghira e autoria partilhada com a Dr.ª Natália Silva, este livro com uma tiragem de 1.000 exemplares (de que restam poucos livros), contém 188 páginas profusamente ilustradas com fotografia de Miguel Lira, um apelativo grafismo d’ "AMeio", uma introdução assinada pelo Director Regional de Agricultura e Desenvolvimento Rural, Engenheiro Paulo Santos e prefaciado pelo Presidente da Direcção da ADENORMA, Dr. José Medeiros Gaspar. Apresenta 11 capítulos: "Conceitos", "Breve resenha histórica sobre os rebentos", "Processo germinativo", "Condições gerais da germinação", "As sementes para a produção de rebentos e plantas jovens", "Higiene e segurança na produção de rebentos", "Métodos de germinação", "Pontos críticos na produção de rebentos e plantas jovens", "Importância do consumo de rebentos na alimentação", "Como usar os rebentos e plantas jovens na nossa alimentação" e "Como produzir rebentos e plantas jovens". O consumo de rebentos e plantas jovens, pelas reservas de energia nutritiva existentes e pela sua riqueza em proteínas, vitaminas e sais minerais, são alimentos recomendados para todas as idades e ocasiões, quer transformados em sumos ou incorporados em saladas, quer crus ou cozidos. Na publicação, são indicadas 11 sugestões culinárias preparadas pelos Chefes de Cozinha Octávio Freitas, Luísa Castro, João Manuel Luz, Luís Pestana, Yves Gautier e pelas suas autoras. E há muito por onde escolher, pois é possível recorrer a 40 variedades de sementes que, ao germinar, darão origem a rebentos e plantas jovens, com aparência, aroma, sabor e textura característicos.

Se se interessou por este tema e pretende obter o Manual em apreço, tornando a sua alimentação mais viva e saudável, saiba que a SRA disponibilizará brevemente uma versão em suporte digital.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 15:57


"Proteger as Plantas, Proteger a Vida"

por Agricultando, em 26.01.20

Este texto foi publicado no Diário de Notícias, no dia 26 de Janeiro de 2020.

Em Dezembro de 2018, a Assembleia Geral das Nações Unidas declarou 2020 como o Ano Internacional da Fitossanidade (AIF), tendo mandatado para a sua implementação a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) em colaboração com o Secretariado do International Plant Protection Convention (IPPC). Com a divisa "Proteger as Plantas, Proteger a Vida", este ano é uma oportunidade única para sensibilizar a opinião pública à escala mundial, que a fitossanidade pode ajudar a reduzir a fome e a pobreza, a proteger o meio ambiente e a impulsionar o desenvolvimento económico. Como é sabido, as plantas, além de fornecerem oxigénio e a maioria dos alimentos que precisamos para a nossa subsistência, na maioria das vezes, não lhes damos a devida atenção no que diz respeito à sua sanidade, o que leva a resultados devastadores. A FAO estima que anualmente até 40 por cento das culturas alimentares se perdem pelo ataque de pragas e doenças, deixando milhões de pessoas sem comida suficiente e com graves prejuízos na actividade agrícola, a principal fonte de rendimento das comunidades rurais pobres. No presente, a fitossanidade está sob ameaça crescente como consequência das alterações climáticas e das actividades humanas, que alteraram os ecossistemas, reduzindo a biodiversidade e criando nichos onde as pragas podem desenvolver-se. Na última década, a circulação de pessoas e mercadorias no mundo triplicou, proliferando pragas e doenças em toda a parte, e originando grandes perdas às plantas autóctones e ao meio ambiente. À semelhança da saúde humana, a protecção das plantas de pragas e doenças é de longe economicamente mais rentável do que lidar com situações de emergência. Muitas vezes, as pragas e doenças das plantas ao estabelecerem-se, são impossíveis de erradicar e o seu controlo é moroso e dispendioso. A prevenção é crucial para evitar o impacto arrasador das pragas e doenças na agricultura, nos meios de subsistência e na segurança alimentar.

O plano de acções do AIF passa por mobilizar governos, indústrias, organizações civis, cientistas e os cidadãos, para que se trabalhe em conjunto no sentido de proteger as plantas da disseminação de pragas destruidoras, encoraje a inovação científica dirigida a ameaças de novas pragas, promova práticas responsáveis que reduzam o seu alastramento e aumente o apoio dos sectores público e privado para estratégias e serviços com vista a uma maior fitossanidade sustentável. As políticas e actividades que fomentam a sanidade vegetal são fundamentais para que se atinjam os Objectivos do Desenvolvimento Sustentável defendidos pelas Nações Unidas, em particular, e como foi atrás mencionado, aqueles que apontam para a eliminação da fome e da má nutrição, para a redução da pobreza e as ameaças ao meio ambiente. Quando se viaja há que ter cuidados no transporte de plantas ou seus derivados que devem cumprir com os requisitos fitossanitários, seguindo o mesmo comportamento quando se encomenda plantas ou seus derivados pela internet ou através de serviços postais, que facilmente contornam os habituais controlos fitossanitários. Para que o comércio de plantas seja seguro, é essencial que se ponham em prática os padrões e normas de sanidade vegetal preconizados pelo IPPC e pela FAO. Este procedimento reduz o impacto negativo das pragas e dos pesticidas de uso agrícola na saúde humana, na economia e no meio ambiente, tornando-se assim mais fácil prevenir e controlar a disseminação de pragas e doenças sem haver necessidade de criar barreiras ao comércio. No combate às pragas e doenças, os agricultores e os decisores políticos devem adoptar e encorajar, respectivamente, o uso de métodos "amigos do ambiente" como a protecção integrada. Os governos, os legisladores e os governantes deviam fortalecer os organismos de protecção de plantas e outras instituições relevantes, e proporcionar-lhes recursos humanos e financeiros apropriados, assim como apostar num maior investimento na investigação e em práticas e tecnologias inovadoras. Os governantes e os governos devem garantir que as suas decisões se baseiam em dados concretos. A monitorização regular das plantas e a informação atempada através de avisos agrícolas sobre ameaças emergentes ajudam os governos, os funcionários dos serviços e os produtores a tomar medidas preventivas e adaptativas para que as plantas se mantenham sãs.

Assim, importa prevenir as pragas e doenças das plantas e enfrentá-las numa perspectiva "amiga do ambiente" como a já referida protecção integrada. Esta abordagem ao ecossistema combina as diferentes estratégias e práticas para desenvolver culturas agrícolas sadias enquanto se minimiza o uso de pesticidas. Ao evitarmos as substâncias tóxicas quando lidamos com as pragas, não só protegemos o meio ambiente, como também os insectos polinizadores, os inimigos naturais das pragas, os organismos benéficos e as pessoas e animais que dependem das plantas.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 15:41

Este texto foi publicado no Diário de Notícias, no dia 29 de Dezembro de 2019.

A Escola Prática Elementar de Agricultura localizada no sítio do Lugar de Baixo, freguesia e concelho da Ponta do Sol, foi criada por deliberação da Comissão Executiva da Junta Geral do Funchal, em reunião de 6 de Maio de 1953. Esta e outras notas que a seguir se apresentam, resultam de um artigo da autoria do Engenheiro Agrónomo Renato Gouveia publicado no número 143 de Novembro de 1969 do Suplemento Agrícola do Boletim Distrital da Junta Geral do Distrito Autónomo do Funchal (JGDAF). O reconhecimento da formação profissional insuficiente dos trabalhadores rurais madeirenses e a necessidade de melhoria das diferentes técnicas de cultivo justificava a possibilidade de ministrar os conhecimentos basilares para a aprendizagem, apreensão e aplicação prática de normas de cultura da terra, que proporcionassem o aumento da produção e o rendimento das pequenas explorações agrícolas locais com o consequente aumento do nível de vida rural. Assim, importava aperfeiçoar a componente técnica de todas as culturas, em especial as das hortofrutícolas, dos tratamentos fitossanitários, do tratamento do gado, da lacticultura e noções gerais de administração. No seu texto, o Engenheiro Agrónomo Renato Gouveia, que foi docente e Director daquela Escola, defendia que «[...] tratando-se de uma ilha com características meteorológicas muito especiais, só aqui [referindo-se à Madeira] podem ser instruídos e preparados os profissionais que melhor devem servir a agricultura desta região». A Escola Prática Elementar de Agricultura funcionou entre 1 de Outubro de 1954 e 1976 em regime de internato e recebia alunos com idades compreendidas entre os 13 e 16 anos, que tivessem completado o ensino primário (4.ª classe, actual 4.º ano), mostrassem ter saúde e robustez física e que tivessem trabalhado e vivido no meio rural. O curso correspondia a três anos lectivos, onde os dois primeiros eram leccionados no Palacete do Lugar de Baixo (também conhecido como Palacete dos Zinos) e o terceiro e último ano, na Quinta do Bom Sucesso, freguesia de Santa Maria Maior, concelho do Funchal.

escola_prat_elementar_agric_casa_palacete_DR.jpg(Direitos Reservados)

Como curiosidades da Escola Prática Elementar de Agricultura, os alunos tinham um horário escolar semelhante ao da jorna "de sol a sol", com pequeno almoço às 7 horas, almoço das 9 às 10 horas, jantar das 14 às 15 horas e ceia às 20 horas, com o estudo a ter lugar depois daquela hora até às 21h30. As aulas teóricas eram dadas na sala no período normal de trabalho diário, com uma duração de 50 minutos por lição. O ensino teórico e prático abrangia áreas do conhecimento como o estudo do solo e do clima, operações culturais e fertilização da terra, estudo das plantas, culturas arvenses, culturas hortícolas, jardinagem, vinhas, culturas frutícolas, culturas industriais, vinificação, apicultura, noções de agrimensura e escrituração, estudos dos animais, criação e tratamento do gado (noções gerais), doenças dos animais, criação de aves, criação de bovinos, criação de suínos, ovinos e caprinos e indústria animal. Além destes saberes eram dadas aulas de português, geografia, ciências naturais e aritmética, possibilitando assim um aumento da cultura geral. Esta Escola começou a 1 de Outubro de 1954 com 12 alunos, tendo depois passado a admitir até ao limite máximo de 20. O artigo do Engenheiro Agrónomo Renato Gouveia dava conta que entre a abertura da instituição e Novembro de 1969 tinham-se matriculado 250, dos quais 102 tinham concluído o curso, que lhes conferia a categoria de capataz agrícola, ficando a maioria colocada na JGDAF, nomeadamente na Estação Agrária e na Intendência de Pecuária, alguns em empresas particulares e outros como emigrantes nas antigas províncias ultramarinas de Angola e Moçambique, no Brasil e na Venezuela.

A terminar, duas referências ao Engenheiro Agrónomo António Camacho Teixeira de Sousa, então Presidente da JGDAF e mentor da Escola Prática Elementar de Agricultura, e ao Engenheiro Agrónomo Rui Vieira, o primeiro Director daquele estabelecimento de ensino, que formou dezenas de técnicos habilitados com um sólido conjunto de conhecimentos teóricos mas sobretudo práticos, que muito contribuíram para o desenvolvimento da Agricultura madeirense das últimas seis décadas e meia. Num tempo em que na Região havia poucos Engenheiros Agrónomos e Engenheiros Técnicos Agrários, urgia apetrechar rapidamente os serviços oficiais de técnicos auxiliares que pudessem dar uma resposta técnica aos anseios e necessidades dos agricultores e esse desiderato foi plenamente atingido. A título pessoal, tive o grato prazer de ter trabalhado na então Divisão de Fruticultura, de meados dos anos 90 do século passado até à primeira metade da primeira década desta centúria, com alguns destes antigos alunos da Escola Prática Elementar de Agricultura, podendo constatar o seu profissionalismo, a dedicação e o mérito do seu labor, quer nos serviços, quer pelos testemunhos dos agricultores. Aqui fica pois, um singelo tributo a todos os que foram estudantes da Escola do Lugar de Baixo, como também era conhecida.

A si, caro leitor, resta-me desejar a continuação de Boas Festas e votos de um excelente 2020!

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 16:54

Este texto foi publicado no Diário de Notícias, no dia 24 de Novembro de 2019.

No âmbito das Comemorações dos 600 anos da Descoberta do Porto Santo e da Madeira, a Secretaria Regional do Turismo e Cultura através do Centro de Estudos de História do Atlântico Alberto Vieira, realizou mais uma "Tardes com História" no passado dia 16 de Outubro. Subordinada ao tema "A paisagem enquanto bem-público: entre poios, natureza e (des)ordenamento", esta palestra foi proferida pelo Dr. Ilídio Sousa, Presidente da Associação Insular de Geografia, membro do Comité Nacional para o Programa Internacional de Geociências da UNESCO e membro fundador do Observatório da Paisagem da Madeira. A paisagem determina uma parte do território, tal como é apreendida pelas populações, cujo cunho resulta da acção e da interacção de factores naturais e humanos. A sua dimensão espacial e estética, a identidade e carácter próprios como são os poios e as habitações dispersas torna-a diferente quando vista aos olhos dos turistas, que a apontam como humanizada. O seu desempenho importante de funções de interesse público, cultural, ecológico, social, económico, entre outras. As paisagens notáveis e do quotidiano que contemplamos na Madeira e no Porto Santo, mas também as degradadas como consequência dos incêndios de Agosto de 2016. As rurais, urbanas e peri-urbanas e o seu dinamismo no decorrer do tempo. Segundo a Convenção Europeia da Paisagem e consoante o tipo de paisagem, os principais objectivos estratégicos são os seguintes: proteger, gerir e ordenar. Na Região, o Dr. Ilídio Sousa indicou alguns exemplos de protecção, a Ponta de São Lourenço e o Rabaçal, como paisagens notáveis; de gestão, o Cabo Girão e a pressão urbanística, o Estreito de Câmara de Lobos com os vinhedos e um edifício de grande dimensão da área do retalho e distribuição alimentar, a cimentação das veredas, como paisagens do quotidiano; de ordenamento da paisagem, as zonas afectadas pela aluvião de Fevereiro de 2010 e os incêndios de Agosto de 2016, como paisagens degradadas.

O ordenamento do território pode assumir um papel fundamental nesta mudança de paradigma. Deve ser incluída de forma sistemática a dimensão da paisagem nos Programas e Planos de Ordenamento, delimitando as grandes unidades territoriais ou de paisagem e criando directrizes e normas orientadoras, que se concretizam em Planos Directores Municipais, Planos de Urbanização e de Pormenor. Como medidas específicas e tendo em conta a actividade turística, o Dr. Ilídio Sousa defende que importa salvaguardar os sistemas de vistas (miradouros, jardins públicos), com especial atenção para a resolução da poluição visual dos cabos dos operadores de comunicações naqueles locais e um pouco por todo o lado, comprometendo o sentido estético da paisagem. No que respeita à agricultura há que reactivar os processos produtivos em superfícies rurais abandonadas ou identificar novos usos (florestal, turístico, residencial) para as mesmas; envolver os sectores de produção como o turismo, a construção, os serviços ou o comércio, no estabelecimento de políticas comuns de valorização da paisagem (por exemplo através da transferência de dividendos); desenvolver sinergias entre o público e o privado para a gestão de áreas marginais negligenciadas, desenvolver propostas conjuntas que incorporem visões futuras para a protecção, gestão e valorização da paisagem (os poios); proceder à actualização do cadastro rústico indispensável à identificação de proprietários e posterior aplicação de medidas; medidas de apoio à agricultura familiar além das existentes. Foram mencionadas ainda algumas das conclusões apresentadas no IV Congresso Mundial da ITLA (Internacional Terraced Landscapes Alliance) que aconteceu em meados de Março nas Canárias e na Madeira, como a relevância dos acessos (rodoviários e outros como os mono-carris) aos poios para que a população não os abandone, que os poios cultivados são territórios mais seguros que os baldios, que a paisagem dos poios deve ser um projecto colectivo e de longo prazo, e que é essencial a criação de espaços de reconhecimento do(s) produto(s) dos poios, que têm qualidade e que se diferenciam dos demais.

Em suma, a paisagem deve ser cuidadosamente protegida, gerida e ordenada e não ser pensada apenas na sua dimensão estética, devendo ser sempre encarada como um bem público.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 16:21


Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Pesquisar

  Pesquisar no Blog

Calendário

Março 2020

D S T Q Q S S
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
293031


Posts mais comentados


Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2017
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2016
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2015
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2014
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2013
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2012
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2011
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2010
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2009
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2008
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2007
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D

Número de visitas | Desde 14 de Outubro de 2007

80.000 visitas alcançadas a 9.4.2015!