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Madeira, a Ilha da aguardente velha de cana

por Agricultando, em 31.03.19

Este texto foi publicado no dia 31 de Março de 2019, no Diário de Notícias.

Há mais de 100 anos, a Madeira foi conhecida como a "Ilha da aguardente", pois chegou-se a consumir 2 milhões de litros de aguardente de cana, tendo sido por isso publicado um decreto em 1911 que expropriava fábricas de produção desta bebida e impunha um limite à sua produção, conforme informação transmitida pelo Professor Doutor Alberto Vieira no Dicionário Enciclopédico "Aprender Madeira", disponível na internet. O "Rum da Madeira" ou aguardente de cana-de-açúcar que é Indicação Geográfica Protegida desde 20 de Fevereiro de 2008, deriva da fermentação alcoólica e destilação do sumo de cana-de-açúcar oriunda da Região, sendo produzida maioritariamente por três Engenhos: Calheta, Novo e do Norte. Todavia, neste "Agricultando" merece especial atenção, o produtor de aguardente de cana, Abel Fernandes, com 83 anos, da freguesia do Porto da Cruz, concelho de Machico, que se tem dedicado afincadamente à produção de aguardente velha e que me foi apresentado pelo Colega e Amigo Ricardo Costa. Com quase 40 anos de conhecimento e experiência na produção de rum, cedo começou nos anos 60 do século passado como agente do Engenho do Hinton, encarregando-se do envio de cana sacarina das freguesias do Porto da Cruz, Faial e São Roque do Faial para aquela importante unidade de transformação. Depois do fecho do Engenho do Hinton em 1986, inicia uma colaboração com o Engenho de Machico que entretanto também cessou a sua actividade, passando para os Engenhos do Norte (Porto da Cruz), onde permaneceu durante cinco anos. Então, resolveu estabelecer-se por conta própria, tendo adquirido equipamentos com mais de um século à família Welsh, proprietária do Engenho do Hinton. Ao longo do tempo este produtor apercebeu-se do valor acrescentado do "Rum da Madeira" envelhecido, isto é, a aguardente de cana sacarina que permanece em cascos de madeira de carvalho, por um período mínimo de três anos.

Abel Fernandes tem algumas dezenas de pipas de mais de 600 litros de capacidade no seu armazém, que foram compradas à Madeira Wine e a outra companhia de Vinho Madeira. Contêm aguardente de cana-de-açúcar que está armazenada há 15, 18, 21, e 24 anos, sendo de 25 anos a idade máxima de envelhecimento permitida pelo Instituto do Vinho, Bordado e Artesanato da Madeira. Como é perceptível, quanto mais velha é uma aguardente de cana, mais complexa é a sua cor, o seu aroma e o seu sabor, completamente distintos de um rum ou aguardente branca (como é igualmente designada) com um ano. Como é sabido, esta última é usada para a confecção da poncha, bebida madeirense que é uma mistura feita no momento de servir com aguardente de cana, mel ou açúcar, sumos de limão e/ou laranja no seu modo tradicional, e mais recentemente com sumos de maracujá, tangerina, tomate-inglês, entre outros. Por falta de espaço no armazém e por estar a aguardar o melhor momento para comercializar os lotes de aguardente velha, este produtor deixou de elaborar aguardente há dois anos. O "Rum da Madeira" envelhecido ao ser comparado com outros congéneres existentes noutras partes do globo, por prémios já conquistados em concursos mundiais e por comentários e apontamentos de conhecedores e especialistas regionais, nacionais e internacionais desta bebida, damo-nos conta que a Madeira poderá ser novamente reconhecida como a "Ilha da aguardente", não pela quantidade como o foi no princípio do século XX, mas pela qualidade de excelência das melhores aguardentes de cana sacarina envelhecidas do mundo!

E que potencial agrícola e cultural existe na Região para atrair turistas que correm mundo com o propósito de apreciar uma boa aguardente velha de cana, e que querem saber onde tudo começa (nos canaviais) e recomeça (nos engenhos).

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publicado às 15:47


Ideias para dar uma nova vida aos poios

por Agricultando, em 24.02.19

Este texto foi publicado no dia 24 de Fevereiro de 2019, no Diário de Notícias.

No contexto do IV Congresso Mundial da ITLA ("Internacional Terraced Landscapes Alliance") que acontecerá em meados de Março nas Canárias e na Madeira, realizou-se uma conferência no dia 15 de Fevereiro sobre os "Territórios em Socalcos", no auditório da Biblioteca Municipal de Câmara de Lobos. Numa organização conjunta da Associação Insular de Geografia e da Delegação da Madeira da Ordem dos Arquitectos convidaram o Presidente da ITLA, Dr. Timmi Tillman e a Dr.ª Maruja Salas daquela organização, com o propósito de sensibilizar os participantes desta iniciativa para as singularidades, desafios e potencialidades dos territórios em socalcos que existem um pouco por todo o mundo, e que tal como se verifica na Região, têm um papel relevante na construção da paisagem e nos vários sectores socioeconómicos locais. Os poios, regionalismo madeirense para socalcos, foram erigidos ao longo do tempo pelos nossos antepassados para que houvesse terra para cultivar e dali tirar o sustento, e para nela habitar. A interacção homem-natureza proporcionou o uso de recursos como a pedra, a água, o solo, as sementes e as plantas de interesse agrícola que neles encerram o "engenho e arte" de uma população e de um território. Nas apresentações, os oradores destacaram a necessidade premente de trabalhar e reflectir sobre o abandono dos poios e áreas circundantes, bem assim de analisar projectos e exemplos de boas práticas que possam dar uma nova vida, novos usos e novos habitantes àqueles espaços. O IV Congresso Mundial da ITLA cujo lema é "Re-encantar Bancales", título em espanhol que se poderá traduzir por "(Re)encantar os Socalcos", dedicará uma especial atenção às Ilhas da Macaronésia (Açores, Madeira, Canárias e Cabo Verde), constituindo desse modo uma excelente oportunidade para pensar sobre um conjunto de reptos para os quais carecem de resposta urgente.

A redução do abandono da terra em áreas rurais marginais com garantia da qualidade de vida da população, a reactivação de produções agrícolas em terrenos abandonados e o respectivo fomento de reintrodução no mercado, a identificação de novos hábitos para as terras desprezadas atendendo à procura da sociedade para a saúde e o bem-estar, o envolvimento de outros sectores de produção como o turismo, a construção, os serviços e o comércio com vista à determinação de políticas territoriais comuns, o desenvolvimento de sinergias entre o público e o privado para a gestão de áreas marginais deixadas ao desleixo, são questões essenciais para que se mantenham os poios. Por outro lado, a melhoria de programas e acções de protecção contra riscos naturais como os deslizamentos de terras, inundações e incêndios, o estabelecimento de uma estrutura de entendimento entre as diferentes partes interessadas e o aumento de propostas conjuntas que permitam (re)encantar e valorizar os socalcos, e a tomada de consciência da sua relevância baseada nos princípios resultantes da Convenção Europeia da Paisagem deverão ser equacionados. O incremento de medidas na paisagem assentes na memória dos seus produtores e construtores, a adaptação de métodos e técnicas às condicionantes locais específicas, a geração de conclusões e propostas para a manutenção, conservação e valorização das paisagens em socalcos e a concepção de uma plataforma inter-administrativa capaz de instituir uma estratégia apropriada para esse fim, são outros aspectos que terão de ser considerados.

A finalizar, no debate acerca da "Paisagem em socalcos da Região Autónoma da Madeira. Diálogo de perspectivas" constatou-se que uma parte substancial daqueles desafios deixados pelos oradores convidados, foram igualmente apontados pelos 60 participantes, o que revela um consenso sobre tão importante matéria, a preservação dos poios.

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publicado às 16:41


O valor da Agricultura Familiar na Região

por Agricultando, em 27.01.19

Este texto foi publicado no dia 27 de Janeiro de 2019, no Diário de Notícias.

A Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas proclamou em Dezembro de 2017, que o período de 2019 a 2028 fosse a Década da Agricultura Familiar. Recorde-se que a FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação) já tinha instituído 2014 como o Ano Internacional da Agricultura Familiar (AIAF) e que teve grande repercussão a nível mundial. A Agricultura Familiar (AF) contribui para a soberania alimentar, a preservação da biodiversidade agrícola e das tradições alimentares locais, a dinamização da economia regional e o bem-estar das populações. A Década da Agricultura Familiar 2019-2028 pretende reconhecer a relevância daquele tipo de agricultura, onde se incluem os agricultores de pequena dimensão produtiva, os trabalhadores rurais, os pastores, os povos indígenas, os pescadores artesanais, entre outros e o papel que desempenharão na implementação da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável. É um facto que a AF produz mais de 80 por cento dos alimentos produzidos no mundo, embora os agricultores familiares pertençam a um dos grupos sociais mais sujeitos à fome e à pobreza. Por isso, é crucial que se erradique a pobreza, a fome e se promova um equilíbrio ambiental através da AF, nas próximas décadas. Em Portugal, e como consequência daquilo que foi preconizado durante o AIAF, surge o Decreto-Lei n.º 64/2018 de 7 de Agosto que cria o Estatuto da Agricultura Familiar. Os objectivos gerais daquele Estatuto passam pelo reconhecimento e distinção da especificidade da Pequena Agricultura Familiar (PAF) nas suas diversas dimensões económica, territorial, social e ambiental; na promoção de políticas públicas adequadas para este estrato socioprofissional; na promoção e valorização da produção local e melhoria dos respetivos circuitos de comercialização; na promoção de uma agricultura sustentável, incentivando a melhoria dos sistemas e métodos de produção; na contribuição para contrariar a desertificação dos territórios do interior e na concessão da PAF como um valor estratégico, a ter em conta, designadamente nas prioridades das políticas agrícolas nacional e europeia.

Na sequência do referido Decreto-Lei que determinava a formação de uma Comissão Nacional de Agricultura Familiar (CNAF), este órgão reuniu-se pela primeira vez no passado dia 14 de Dezembro para um ponto da situação sobre a entrada em vigor daquele diploma, e para a discussão sobre o conteúdo de uma futura portaria a propósito do procedimento de reconhecimento do Estatuto da Agricultura Familiar aos agricultores. A Comissão tem competência no acompanhamento do Decreto-Lei n.º 64/2018 de 7 de Agosto, mormente na sua aplicação, na avaliação e na elaboração do relatório anual do funcionamento do regime. A CNAF é presidida pelo Ministro da Agricultura, Florestas e Desenvolvimento Rural e é composta por membros de várias áreas governativas como as das Finanças, Trabalho e Solidariedade Social, Saúde, Economia, Ambiente, Mar, entre outras, das Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira, de organizações de produtores, de desenvolvimento local e das Associações Nacionais de Municípios e de Freguesias. Acerca da Madeira e do Porto Santo, e de acordo com o Recenseamento Agrícola de 2009, a população agrícola familiar constituída pelo produtor agrícola e pelos elementos do seu agregado familiar rondava as 41.000 pessoas, cerca de 15 por cento da população do Arquipélago. Há dez anos, as explorações agrícolas madeirenses dedicadas à Agricultura Familiar representavam 99 por cento, sendo que mais de três quartos tinham uma área agrícola útil inferior a 5.000 metros quadrados (meio hectare). Neste ano em que se realiza mais um Recenseamento Agrícola, os números serão diferentes com a mais que provável redução do número de produtores agrícolas e de elementos pertencentes à família.

Sobre esta matéria e atendendo às especificidades da agricultura madeirense, tudo indica que haverá uma adaptação da legislação nacional à Região. Para que se atenda às características das explorações agrícolas familiares locais e dos seus agricultores, e o estabelecimento de possíveis medidas de incentivo e defesa deste tipo de agricultura que é tão importante para a manutenção da nossa paisagem agrícola, tão apreciada pelos que cá vivem como por aqueles que nos visitam.

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publicado às 16:05


Um Porto Santo que importa preservar

por Agricultando, em 30.12.18

Este texto foi publicado no dia 30 de Dezembro de 2018, no Diário de Notícias.

De 28 a 30 de Novembro teve lugar no auditório da Câmara Municipal do Porto Santo (CMPS), o Seminário "Porto Santo - Reserva da Biosfera da UNESCO: Oportunidades e Desafios", organizado pela CMPS, Secretaria Regional do Ambiente e Recursos Naturais, Direcção Regional para a Administração Pública do Porto Santo, Associação Grupo de Folclore do Porto Santo, Agência Regional de Energia e Ambiente da Região Autónoma da Madeira (AREAM) e Instituto das Florestas e Conservação da Natureza, IP-RAM, contando com o apoio da Associação de Promoção da RAM e do Hotel Vila Baleira. Participei neste evento, como assistente e orador (numa das mesas-redondas), agradecendo novamente o amável convite endereçado pela Doutora Susana Fontinha em nome da organização. No dia 28 de Novembro, realizaram-se duas mesas-redondas, "Reservas da Biosfera da UNESCO" e "Reserva da Biosfera – que Atrativos do destino Porto Santo?" precedidas de duas palestras, "O Programa MaB e as Reservas da Biosfera da UNESCO" e "O Porto Santo enquanto destino de excelência" apresentadas pela Dra. Anabela Trindade, Presidente do Comité Nacional MaB (‘Man and Biosphere’) e pela Doutora Susana Fontinha, Coordenadora da candidatura do Porto Santo a Reserva da Biosfera, respectivamente. No dia seguinte, efectuaram-se debates direccionados para a importância da educação e do programa Eco-Escolas, tendo o encerramento ocorrido a 30 de novembro com um passeio pelo Porto Santo, em que se visitaram locais de interesse histórico, cultural, agrícola e natural, e do qual escreverei mais adiante. Mas, o que é uma Reserva da Biosfera? É um galardão atribuído pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura), e define-se como um "laboratório vivo", onde se desenvolvem como funções principais, a conservação de paisagens, ecossistemas e espécies, o desenvolvimento sustentável a nível social, económico, cultural e ecológico. Actuam ainda como plataformas de investigação, monitorização, educação e sensibilização, tendo sempre em vista a partilha de informação e de experiência adquirida. Em Portugal, existem 11 Reservas da Biosfera, sendo a mais antiga, a de Boquilobo instituída em 1981, e a mais recente, a de Castro Verde, no ano passado. No caso da Madeira, desde 2011 que o Concelho de Santana é Reserva da Biosfera.

Na mesa-redonda "Reservas da Biosfera da UNESCO", participaram António Domingos Abreu, Especialista de Programa da UNESCO (Divisão de Ciências Ecológicas e da Terra), António San Blas, Director da Reserva da Biosfera de La Palma, Canárias, Fernando Ferreira, Director da Reserva da Biosfera do Corvo, Açores e Rui Moisés, Promotor da Candidatura de Santana a Reserva da Biosfera, moderada por Anabela Trindade, Presidente do Comité Nacional MaB. Da troca de ideias, reteve-se a relevância que o estatuto de Reserva da Biosfera representa para a comunidade local e para os turistas, quer no aspecto cultural, quer no aspecto socioeconómico. António San Blas da Ilha de La Palma e Rui Moisés sublinharam que os produtos agrícolas e agro-alimentares oriundos das reservas são mais valorizados, justamente por ostentarem o símbolo da UNESCO, que é reconhecido mundialmente. Na parte da tarde, depois de uma completa e brilhante apresentação da Doutora Susana Fontinha sobre "O Porto Santo enquanto destino de excelência", onde foram abordadas as componentes históricas, culturais, naturais e agrícolas da Ilha Dourada, intervieram na mesa-redonda "Reserva da Biosfera – que Atrativos do destino Porto Santo?", Roland Bachmeier, Empresário Hoteleiro e representante da Mesa do Turismo/ACIF – Câmara de Comércio e Indústria da Madeira, Filipe Oliveira da AREAM, o signatário deste artigo, representando a Direcção Regional de Agricultura e Natércia Xavier da Secretaria Regional do Turismo e Cultura, com a moderação do painel a ser realizada por Susana Fontinha. Das comunicações apresentadas, sublinhou-se a primazia de utilizar as energias renováveis e reduzir os consumos de água na hotelaria, de dar preferência aos produtos agrícolas regionais para a confecção das refeições, de utilizar as energias renováveis no aquecimento das águas e na produção de electricidade, da substituição dos automóveis que utilizam combustíveis fósseis pelos eléctricos, diminuindo a ‘pegada ecológica’, de preservar e divulgar as tradições porto-santenses expressas no folclore. Da minha parte, procurei destacar a qualidade dos hortofrutícolas produzidos na Ilha do Porto Santo. É do conhecimento geral que os produtos agrícolas daquela Ilha como por exemplo o tomate, a cebola, a cenoura, a batata doce, a alface, a melancia, o figo, o tabaibo, o maracujá, a pitanga, a romã, têm um sabor diferente dos demais. Além disso, são mais ricos em cálcio e estrôncio, dois elementos essenciais para o fortalecimento dos ossos e dos dentes. É por isso que se fala de uma agricultura medicinal, conceito que alia o consumo de hortofrutícolas locais para o bem-estar da população residente e visitante. O ilustre Agrónomo Joaquim Vieira Natividade foi recordado, pois na obra "Fomento da Fruticultura na Madeira" de 1947, recentemente reeditada, dedica um capítulo à Ilha do Porto Santo. Cito algumas frases daquele livro que caracterizam a agricultura na ilha vizinha: «Porto Santo é a ilha dos paradoxos. A sua agricultura, por mais estranho que isso pareça, tem por base, em boa parte, a erosão. A fertilidade das terras baixas mantém-se à custa da terra da montanha, arrastada pelas águas, e que renova incessantemente o solo agrícola. A ilha devora-se a si própria. A chuva traz, partícula a partícula, o monte para o vale, espalha-o pelas alagoas ou lança-o no mar […]». Por último, uma nota de apreço pela actividade "(Re)descobrir Porto Santo" desenvolvida na manhã e início de tarde do dia 30 de Novembro, no cais e centro da Vila Baleira, passando por terrenos agrícolas com muros de pedra solta (também conhecidos por muros de renda ou muros de croché), por um antigo forno da cal, por um povoamento florestal com a oliveira brava no Pico Castelo, por uma antiga casa de salão, terminando com uma deliciosa sopa de chícharo (leguminosa que já foi bastante cultivada no Porto Santo, tal como a lentilha) com carne de porco servida na Casa da Serra, no sítio da Serra de Fora. É este Porto Santo que importa preservar, mostrando que, apesar da escassez de água, é possível cultivar produtos que darão origem a iguarias que jamais serão esquecidas.

E como é "Festa" [regionalismo para Natal], caro leitor, resta-me desejar a continuação de Boas Festas e um 2019 pleno de produtos agrícolas regionais à sua mesa!

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publicado às 15:20

Este texto foi publicado no dia 25 de Novembro de 2018, no Diário de Notícias.

No passado dia 22 deste mês, no auditório da Casa-Museu Frederico de Freitas, no Funchal, foi lançada a reimpressão da 1.ª edição de "Fomento da Fruticultura na Madeira" de Joaquim Vieira Natividade. Esta notável obra de 1947 há muito que se encontrava esgotada, e como tal havia todo o interesse em reeditá-la. Por minha sugestão ao Coordenador do Serviço de Publicações da Direcção Regional da Cultura (DRC), Dr. Marcelino de Castro, aquele feliz desiderato aconteceu e acabei por ser convidado para prefaciar a reedição. Por não conhecer pessoalmente então o Dr. Marcelino de Castro, o primeiro contacto aconteceu por intermédio de um Amigo comum, Carlos Pereira (também conhecido por "Nené"), um excelente facilitador. Antes de abordar o livro, importa saber quem foi Joaquim Vieira Natividade. Nascido a 22 de Novembro de 1899, em Alcobaça, Vieira Natividade fez o ensino primário na sua terra natal e completou o liceu, em Coimbra. No ano lectivo 1916/1917 matriculou-se no Instituto Superior de Agronomia (ISA), em Lisboa, onde concluiu o Curso de Engenharia Agronómica em 1922, tendo realizado também naquela Faculdade, o curso de Engenheiro Silvicultor, em 1929. Em 1933, tornou-se Professor Catedrático no ISA, aprovado com mérito absoluto, embora não chegasse a leccionar, por ter sido escolhido outro candidato para a ocupação de uma vaga de docente. Depois desse episódio que o deixou desanimado, dedicou-se à investigação científica e técnica nas áreas da fruticultura, subericultura e silvicultura, desenvolvendo a sua actividade, em Alcobaça, na Estação de Experimentação Florestal do Sobreiro e no Departamento de Pomologia da Estação Agronómica Nacional, que chefiou entre Outubro de 1937 até à data da sua morte, 19 de Novembro de 1968. Dos 320 trabalhos que publicou ao longo da vida, merecem especial atenção três sobre o Arquipélago da Madeira: "Fomento da Fruticultura na Madeira" de 1947, com reimpressão desta edição no presente ano (2018), e que estreou a nova colecção do catálogo da DRC – Serviço de Publicações, denominada "Arquipélago Madeira", "A Técnica ao Serviço do Agricultor Madeirense" de 1952 e "Madeira – A Epopeia Rural" de 1953, o que demonstra amor e carinho que tinha por esta Região e pelas suas gentes. Ao folhearmos a publicação, percebe-se bem esses sentimentos.

CapaFomentoFruti2018_blogue.jpg

A 1.ª edição deste livro surge na sequência de um convite em 1945 da Direcção-Geral dos Serviços Agrícolas e da Junta Nacional das Frutas (JNF) a Joaquim Vieira Natividade para que estudasse as bases para o fomento da fruticultura no Arquipélago da Madeira, tendo sido publicado em 1947 pela JNF e pelo Grémio dos Exportadores de Frutos e Produtos Hortícolas da Ilha da Madeira. A obra que conhece agora uma "segunda vida" está dividida em duas partes: "Madeira" e "Porto Santo". Na parte da Madeira, esta subdivide-se em seis capítulos: "Introdução", "As Frutas da Madeira", "Zonas Frutícolas", "A Flora Frutícola e a Técnica Cultural", "Os Factores Adversos à Fruticultura" e "Bases Técnicas do Fomento Frutícola". As 219 páginas desta reimpressão contêm informação agronómica de grande valor na área da fruticultura de clima temperado, subtropical e tropical da Madeira e do Porto Santo, muito bem complementada com fotografias, figuras e gráficos elucidativos, que retratam uma realidade com mais de 70 anos. Porém, em muitos aspectos, mantém-se surpreendentemente actual. Ao verem as 88 fotografias da autoria de Vieira Natividade de várias localidades da Madeira e do Porto Santo, alguns leitores irão certamente lembrar-se com saudade dos tempos de outrora e outros com grande admiração por verificarem tão grandes diferenças do que era a paisagem rural madeirense há sete décadas. Para quem lê estas estas linhas e para despertar o interesse pelo "Fomento da Fruticultura na Madeira", cito algumas frases. «Rochas, água, mil climas num só clima. Escarpas, despenhadeiros, abismos nascidos de um delírio geocinético, entre brumas, na imensidade do mar; […] Paisagem agreste, grandiosa, selvagem, onde as torrentes, no Inverno, tumultuosamente cavam o leito em gigantescos barrancos, disputando à rocha o seu caminho com temeroso ímpeto» (página 18). Sobre o esforço excepcional do ilhéu em criar espaços de cultivo num território pequeno e de relevo muito acidentado diz que «ergueu [referindo-se ao Agricultor madeirense] poios sobre poios para segurar esses punhados de terra, e fertilizou-a por fim, conquistando e dominando o fio de água misteriosamente nascido nas alturas e que, transformado em levada, encaminhou com infinito labor através dos caprichosos e acidentadíssimos percursos» (página 19). Ciente da realidade agrícola insular em meados do século XX enumera que «os problemas agrícolas da Madeira têm que ser apreciados em face das realidades agrícolas madeirenses: as condições particulares de ambiente, as características da propriedade rústica, a sua fragmentação e forma de exploração, as condições económicas do agricultor, o valor da terra e da água e até a psicologia do colono e do senhorio. A solução dos problemas agrícolas tem que se ajustar a estas realidades e serão sempre soluções especiais para casos especiais» (página 24). No capítulo "As Frutas da Madeira", no ponto "Horizontes da Fruticultura Madeirense", Vieira Natividade realça a oportunidade de se apostar no abastecimento dos navios, dizendo que «[…] constitui uma das modalidades de escoamento das frutas madeirenses que se não deve perder de vista, porque em épocas normais virá a ser recurso preciosíssimo» (página 41). Esta sábia afirmação continua actual, restando saber qual é nos dias de hoje, a quantidade de hortofrutícolas de produção regional que são fornecidas aos navios de cruzeiro no Porto do Funchal, e se haverá margem para diminuir a quantidade de produtos agrícolas importados a favor do aumento do quantitativo dos nossos produtos. A resposta a esta questão terá de ser forçosamente afirmativa para acrescentar valor à economia agrícola madeirense. No final do livro, a propósito da sugestão de criação da Estação de Fruticultura da Madeira (páginas 200 e 201), escreve: «insistimos todavia neste ponto: a valorização integral dos recursos frutícolas da Madeira não pode conseguir-se sem directrizes, sem o concurso da experimentação, sem uma actuação superior, firme, persistente e consciente, integrada num plano de conjunto. Os esforços isolados, se bem que meritórios, as soluções parciais por muito razoáveis que sejam, a propaganda exuberante de retórica, por muito convincente que pareça, serão na realidade estéreis ou bem pouco frutuosos».

Bem, caro leitor, estou convicto que já agucei o apetite para ler ou reler este extraordinário trabalho, que integrado nas Comemorações dos 600 Anos da Descoberta da Madeira e do Porto Santo, merece ser lido e divulgado, não só pelos que se interessam pela Agricultura madeirense, mas por todos os cidadãos residentes na Região, os do presente e os do porvir.

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