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Este texto foi publicado no Diário de Notícias, no dia 30 de Julho de 2021. Habitualmente, o Agricultando é publicado no DN Madeira, no último domingo de cada mês. Acontece que este texto por ter sido mais extenso e devido ao planeamento das edições do matutino, só foi possível publicá-lo em duas páginas, a título excepcional, na data em apreço, em vez de domingo passado, 25 de Julho.

No pretérito dia 15, teve lugar no auditório da Reitoria da Universidade da Madeira, no Funchal, a apresentação do livro "A Agricultura Madeirense e Eu" da autoria do Engenheiro Técnico Agrário Duarte Caldeira. Nascido na freguesia do Seixal, concelho do Porto Moniz a 16 de Julho de 1942, Duarte do Carmo Caldeira Ferreira, concluiu o seu curso em 1962, na Escola Superior Agrária de Coimbra, tendo desempenhado funções no Instituto Geográfico e Cadastral entre 1964 e 2003, na Madeira. Foi deputado eleito pelo Partido Socialista na Assembleia Legislativa da Madeira durante 16 anos, sendo colaborador do Diário de Notícias da Madeira (DN Madeira) há mais de 50 anos. Em simultâneo, desenvolveu actividade privada na área da agricultura, na produção e na comercialização, de produtos para o apoio à horticultura e floricultura, tendo-se dedicado mais recentemente à produção de vinhos tranquilos e espumantes, sendo o primeiro produtor de espumante na Região. No final dos anos 70 do século passado realizou um estágio nas Ilhas Canárias sobre a aplicação dos plásticos na agricultura, nomeadamente na construção de estufas, tendo implementado o seu uso na Madeira. Apresentou alguns programas de rádio, na Estação Rádio da Madeira ("Charrua", com frequência semanal), na então Emissora Nacional e depois na RDP-Madeira, actual Antena 1 Madeira, tendo participado em debates e entrevistas na RTP-Madeira, SIC e TVI, para um canal de televisão alemão e nas rádios. Na nota de autor, é referido que esta obra surge de um conjunto de ideias soltas que foram escritas no decorrer de quase seis décadas de experiência a ocupar-se dos problemas da agricultura regional. A pequena dimensão da propriedade agrícola, a comercialização das produções, o fornecimento de água de rega e para consumo, a florestação, as jardinagens públicas, o regime de colonia, entre outros, sempre foram temas para os quais Duarte Caldeira procurou mostrar soluções. A publicação com 384 páginas e uma tiragem de 1.000 exemplares contém cerca de 80 fotografias do autor e de Roberto Ramos, numa edição da Arteleia, Produção de Conteúdos Literários coordenada pela Jornalista Sónia Silva Franco, que contou com o apoio da Ordem dos Engenheiros Técnicos. Dedicada aos pais, mulher, filhos e netos, irmãos, colegas e amigos, bem como ao seu Seixal, está dividida em 12 capítulos: "Notas introdutórias", "Ciclos de culturas e a nossa economia", "As águas", "Outras culturas", "A colonia", "Particularidades", "Soluções", "Outras medidas a tomar", "Pecuária", "Porto Santo", "Jardinagem" e "Vontade política".

a_agricultura_madeirense_e_eu_capa_duarte_caldeira(Direitos Reservados)

No prólogo, é transcrita uma entrevista a Duarte Caldeira publicada no DN Madeira de 6 de Janeiro de 1971, a propósito de uma deslocação às ilhas de Gran Canária e Tenerife para se inteirar das técnicas de aplicação de plásticos na agricultura, mormente a instalação de estufas, onde se percebe a sua linha de pensamento e sobre aquilo que pensava e pensa sobre a agricultura madeirense, nas suas limitações e oportunidades. Nas "Notas introdutórias", o autor recorda o trabalho hercúleo levado a cabo pelos nossos antepassados quando aqui chegaram há seis centúrias. A orografia difícil e acidentada, a abundância de pedra nos terrenos, levou a que o ilhéu metesse mãos à obra e erigisse os degraus de gigante, os poios [regionalismo para socalcos], verdadeiros tabuleiros férteis de produções agrícolas, quando alimentados pela água vinda das levadas. Relata a dificuldade acrescida do trabalho agrícola em terrenos de áreas reduzidas, dispersos, onde mesmo nos dias de hoje, a mecanização apesar de ser possível, é difícil na deslocação daqueles equipamentos de poio em poio. Regista as suas recordações de infância e de juventude passadas no Seixal, designadamente as tradições da Festa, o panelo no sítio do Chão da Ribeira, as vindimas, entre outras. No segundo capítulo, dá conta das culturas mais importantes ao longo do tempo para o Arquipélago da Madeira (cereais, aquando do povoamento, cana sacarina, vinho e banana) e explana a sua evolução, com dificuldades e ensejos, em especial, no período antes e depois do 25 de Abril de 1974, ou seja, no tempo do Estado Novo e da democracia instaurada, com apontamentos da sua própria vivência rural. Sugere, por exemplo, que o preço corrente de um quilo de cana-de-açúcar pago ao produtor, 28 cêntimos, deveria ser aumentado para 35 cêntimos, atendendo aos custos dos fertilizantes, da mão-de-obra e dos transportes e que apesar disso trazer igual custo num litro de aguardente, seria um valor aceite pelo sector. A título de curiosidade, e contrariando uma ideia de que são os comerciantes ingleses que dominam a comercialização do Vinho Madeira, refere que actualmente 70 por cento daquele vinho generoso é transaccionado por uma casa de origem francesa. Critica (e bem) que o madeirense, por não ter o hábito de consumir Vinho Madeira, tal como acontece com o Continental que consome o Vinho do Porto, dificulta o seu escoamento, quando no presente a produção é quase seis vezes menos que no passado. Menciona como é que constituiu a Duarte Caldeira & Filhos – Seixal Wines, Lda., o motivo da escolha do nome Terras do Avô para os vinhos de mesa produzidos e o desafio e as várias atribulações de ter sido o primeiro produtor madeirense de espumante. Na cultura da bananeira, foi Presidente da Cooperativa Agrícola de Produtores de Fruta da Madeira na segunda metade da década de 70 do século passado, lembrando a sua intervenção no sentido de mudar o modo de operação daquela cooperativa, passando de ‘cortadora’ de banana para também exportadora, com ganhos para os sócios, pois antes entregavam as produções a exportadores. Depois, nos capítulos seguintes, "Águas", indica problemas do abastecimento de água de rega no Verão e propõe respostas. Em ‘Outras culturas’, destaca as hortícolas e suas variedades como a alface, a semilha [regionalismo para batata], a batata-doce, o feijão, o milho, a cebola, a cenoura, os nabos, a couve, a salsa, o alho francês, o tomate, entre outras. Sobre a fruticultura, recorda os tempos em que qualquer casa na Madeira tinha árvores de fruto como anoneiras, abacateiros, mangueiros, goiabeiras, pitangueiras, araçazeiros, laranjeiras, tangerineiras, limoeiros, macieiras, pereiras, pessegueiros, ameixeiras, nespereiras, figueiras, consoante a altitude em que a residência se encontrava. Enaltece o trabalho encetado por dois Técnicos que muito deram à pecuária e à agricultura regionais, o Dr. Carlos França Dória e o Engenheiro Agrónomo Rui Vieira, respectivamente, com quem muito aprendeu e estabeleceu relações de amizade. Defende a ideia de que se devem aproveitar os antigos funcionários já aposentados dos postos zootécnicos e agrários da Secretaria Regional de Agricultura e Desenvolvimento Rural (SRA), para complementar a formação aos novos funcionários, pois a experiência e o conhecimento acumulados no decorrer da sua actividade profissiobal devem ser aproveitados. No capítulo "A colonia", uma nota de registo para a redacção de um texto em meados dos anos 70 do século XX como provável lei de Extinção da Colonia na Madeira com a colaboração do Engenheiro Rui Vieira. Apesar das desigualdades patentes no regime de colonia, Duarte Caldeira está convencido que sem a sua existência nunca se teria aproveitado tanta terra para fins agrícolas, na Madeira. Nas "Particularidades", caracteriza a agricultura da Região Autónoma da Madeira da seguinte maneira: agricultura de montanha, dimensão da propriedade agrícola, falta de acessos, o nosso clima, falta de adaptação das culturas ao solo e/ou clima, falta de conhecimentos técnicos, dificuldades na comercialização, a mentalidade fechada, a criação controlada de gado ao ar livre, entre outros. No capítulo das "Soluções" reivindica um programa de apoio ao emparcelamento voluntário com um gabinete de apoio jurídico, financeiro e técnico, que também poderia gerir o Banco de Terrenos. Sobre as licenças camarárias sustenta que se deveriam utilizar as mesmas regras nos 11 municípios no que diz respeito ao licenciamento da construção de muros de suporte, tanques de rega, armazéns agrícolas, estufas e escavações, com o objectivo de simplificar os processos de aprovação, reduzindo o tempo de decisão e dos custos inerentes. Recomenda o surgimento de um Conselho Regional de Agricultura próximo do Gabinete do Secretário Regional da tutela e que seria composto pelo Director Regional, Directores de Serviços, representantes das Associações de Agricultores, de Cooperativas Agrícolas, elementos da Ordem dos Engenheiros e da Ordem dos Engenheiros Técnicos com formação na área das Ciências Agrárias, por um agricultor de cada freguesia indicado pela respectiva Junta de Freguesia e pelos Técnicos Concelhios. Seria um órgão de consulta do Secretário Regional que reuniria pelo menos duas vezes por ano, consoante o seu entendimento e a convocação de pelo menos 25 por cento dos membros efectivos, dando pareceres não vinculativos sobre o Orçamento e Plano anual da SRA e outros documentos de grande relevância para a Região.

Dada a extensão do livro e deste escrito, faço questão de mencionar que muito mais há para ler (merece especial atenção o capítulo dedicado à Ilha do Porto Santo), com sentido crítico, mas sobretudo com uma abertura de mentalidade que é saudável, pois é pela discussão de ideias que nascem decisões mais ou menos duradouras, com o intuito de melhorar.

Está pois, de parabéns, o Engenheiro Técnico Agrário Duarte Caldeira por este seu contributo a um sector que é primordial ao Arquipélago da Madeira, a Agricultura!

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publicado às 12:38

Este texto foi publicado no Diário de Notícias, no dia 27 de Junho de 2021.

O livro "As Plantas e a Alimentação Mundial: Contributos sobre plantas e novos alimentos" da autoria do Professor Doutor José Eduardo Mendes Ferrão com a colaboração do Professor Doutor Luís Mendonça de Carvalho, foi editado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, em Outubro de 2020. O primeiro é Professor Catedrático jubilado de Agronomia Tropical do Instituto Superior de Agronomia da Universidade Técnica de Lisboa e da docência de pós-graduação da Universidade Católica Portuguesa. Foi Secretário de Estado de Agricultura, Presidente da Comissão Nacional da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), colaborador do Instituto de Investigação Científica Tropical como Director do Departamento de Ciências Agrárias e do Centro de Estudos de Produção e Tecnologia Alimentar. É autor de inúmeros trabalhos de investigação, técnicos e de divulgação, publicados em Portugal e no estrangeiro, mormente na área das ciências agrárias tropicais. O segundo, Biólogo, é doutorado em Sistemática e Morfologia de Plantas (Etnobotânica) pela Universidade de Coimbra, Professor Coordenador no Instituto Politécnico de Beja, onde fundou e dirige o Museu Botânico. Exerce ainda as funções de Investigador no Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa/Universidade de Évora. Na introdução desta obra com 180 páginas realça-se a importância da alimentação no decorrer dos tempos e da preocupação da humanidade em assegurá-la para todas as pessoas, tendo em vista a sua sobrevivência e bem-estar. Desde data remota que as plantas foram incluídas na alimentação humana e hoje isso é indiscutível. A produção, o consumo e a gestão dos alimentos são uma inquietação mundial, por motivos diferentes, quer pelos países que os têm em abundância, quer por aqueles que os possuem em escassez. Desse modo, esta temática das plantas e da alimentação é tão vasta que se elegeram três áreas, que redundaram em outros tantos capítulos nesta publicação: "Alimentação, Um Direito Mundial", "Para uma Dieta Equilibrada" e "As Plantas e os Descobrimentos Portugueses". O Professor Mendes Ferrão confessa no final do seu texto introdutório que ficará «[…] satisfeito se alguns dos meus possíveis leitores ficarem a saber, se o não souberem já, que o mundo é uma mescla de seres humanos de existências muito desiguais, particularmente na disponibilidade de alimentos para a sua sobrevivência».

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Segundo a Declaração Universal dos Direitos do Homem, a alimentação devia ser um dado adquirido, mas a realidade demonstra que infelizmente há muitos seres humanos que não têm uma refeição condigna. Contudo, a disponibilidade de alimentos no mundo é bastante para suprir as necessidades nutricionais de toda a população global, pese embora as sérias circunstâncias de disparidade no uso desses bens. O crescimento da população mundial, a produção de alimentos e a diversidade de países excendentários e deficitários nessa vertente, os novos hábitos alimentares e a sua relevância nos alimentos disponíveis, as várias preocupações como os aumentos da área agrícola e cultivada, das produções unitárias, da área regada, de utilização de plantas melhoradas, da protecção dos terrenos contra a erosão, entre outros, da gestão das plantas na agricultura e um certo regresso à alimentação do passado, são factores que condicionam o tão desejado acesso universal a uma alimentação que cada pessoa devia ter direito. No segundo capítulo dedicado ao valor de uma dieta equilibrada e que é o mais extenso deste livro, recorda-se a composição ideal da dieta, a dieta mediterrânica e a dieta portuguesa. Em 1977, no âmbito da campanha "Saber comer, saber viver" foi apresentada a roda dos alimentos, que foi revista em 2003 pelo projecto Saúde XXI, resultante de um protocolo entre a Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto e o Instituto de Defesa do Consumidor, onde se introduziu no centro dessa roda, a água, atendendo a que o corpo humano tem em média cerca de 60% de água. São listadas as frutas, gorduras e óleos, cereais, leguminosas e plantas hortícolas mais consumidas na alimentação portuguesa, de produção nacional ou importadas, com breves apontamentos sobre a sua origem, história, regiões de produção, botânica, composição química e nutricional, assim como formas de consumo. A título de curiosidade, menciona-se a anona da Madeira e outros frutos aqui produzidos como a banana, o mango, o maracujá, a papaia e o tomate arbóreo. Quanto ao terceiro e último capítulo, assinalam-se os produtos agrícolas que se utilizavam na Península Ibérica antes dos Descobrimentos. A bolota, fruto da azinheira, sobreiro e carvalho, era usada na alimentação animal, em especial, dos suínos, sendo igualmente consumida pelas populações quando transformada em farinha. São indicadas algumas plantas com origem no Velho Mundo e que foram introduzidas em Portugal pelos Iberos (grão-de-bico e o feijão-frade), Celtas (muitas das hortícolas e frutícolas), Fenícios (provavelmente a videira e a oliveira) e Gregos (amendoeira, marmeleiro e loureiro), Cartagineses (tamareira, romãzeira, alho, cebola e o aipo). Os Romanos trouxeram o castanheiro, o meloeiro (vindo do Irão), pepino e várias cucurbitáceas, alface, chicória, cenoura, salsa, coentro, segurelha, cominho, ameixeira, cerejeira, ginjeira, pessegueiro, damasqueiro e talvez os citrinos, enquanto que os Árabes foram portadores do trigo-duro, sorgo, entre outras culturas. Sobre a cana sacarina, O Professor José Eduardo Mendes Ferrão dá conta que de acordo com os cronistas da Época dos Descobrimentos, os Portugueses introduziram cana-de-açúcar do Algarve, da Sicília e possivelmente de outros lugares, na Ilha da Madeira, em São Tomé e no Brasil, considerando o seu peso económico. As mudanças na agricultura europeia em função da introdução de algumas plantas provenientes do Novo Mundo como a anoneira, o ananaseiro, a batata-doce, a batateira, o feijoeiro, o girassol, a goiaba, o maracujazeiro, o milho-americano, os pimenteiros, o tomateiro e a papaieira, algumas mais facilmente aceites que outras, levaram por exemplo, à substituição das bolotas e castanhas pelas semilhas [regionalismo para batatas] na alimentação do Velho Continente. Mesmo assim, a expansão e o consumo de semilha em Portugal só teve lugar no século XIX. No final, o autor faz questão de referir o grande valor dos Portugueses aquando dos Descobrimentos sobre a introdução de plantas noutras partes do mundo, com repercussões positivas no seu desenvolvimento, na agricultura e na alteração dos hábitos alimentares. Foi o caso das plantas "europeias" levadas paras as Ilhas Atlânticas, Costa africana e o Brasil, da introdução de plantas americanas como o cajueiro, muitas fruteiras e o tabaco, no Oriente, bem como das especiarias orientais no Brasil.

Uma nota de apreço para as belíssimas ilustrações e fotografias do livro, das quais realçamos as da "Revue Horticole", de "Ökonomischen Pflanzen (vários volumes)", da Colecção de Aguarelas do Departamento de Agricultura dos EUA e as de Artur Pastor, tiradas em Portugal, nas décadas de 50 e 60 do século passado.

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publicado às 17:02

Este texto foi publicado no Diário de Notícias, no dia 30 de Maio de 2021.

No dia 23 de Abril, em que se comemorou o Dia Mundial do Livro instituído em 1996 pela UNESCO, a Secretaria Regional de Agricultura e Desenvolvimento Rural (SRA) através da Direcção Regional de Agricultura e Desenvolvimento Rural (DRA) deu início à iniciativa "Conversas à Tarde…". Naquele dia, no Auditório da SRA, "A agricultura na literatura madeirense" foi o mote para que se falasse de algumas obras sobre a agricultura madeirense, a par do lançamento do almanaque "A Corriola". É sobre esta nova publicação que queremos dedicar as próximas linhas. Primeiro, surgiu em formato mensal por proposta da Engenheira Agrícola Ana Ghira, no boletim semanal digital da Secretaria Regional de Agricultura e Desenvolvimento Rural, DICAs – Informações de Agricultura e Desenvolvimento Rural (https://dica.madeira.gov.pt/), no último número de Junho de 2020, o primeiro número relativo ao mês de Julho de 2020, sendo que "A Corriola" de Junho deste ano foi publicada na pretérita quinta-feira. Entretanto, levados a efeito os primeiros seis números do segundo semestre do ano passado, resolveu-se elaborar "A Corriola" para 2021, em suporte de papel. A referência ao conhecidíssimo nonagenário "Borda d’ Água" é inevitável e certamente inspirou a coordenadora de "A Corriola" que, por influência do seu pai, João Faustino de Jesus que era um leitor assíduo do "Borda d’ Água", lhe transmitia o gosto pelas coisas da terra e as recomendações daquele anuário, tendo-a persuadido de tal maneira que terá decidido licenciar-se em Engenharia Agrícola pelo Departamento de Ciências Agrárias da Universidade dos Açores. No prefácio assinado pelo Engenheiro António Paulo Santos, Director Regional de Agricultura e Desenvolvimento Rural, fica-se a saber que a escolha do título "A Corriola" foi sugerida pelo conhecido João Egídio que se lembrava de os mais velhos lhe contarem, que outrora, quando o analfabetismo predominava, havia pessoas que no campo davam conta das últimas notícias, falavam do tempo e recomendavam os melhores amanhos culturais, sendo chamados por "corriola". Ora, além daquela definição popular, a corriola é uma trepadeira endémica da Madeira e de acordo com o prefaciador «em certos ângulos, se fizermos um pequeno esforço, aquelas flores [referindo-se às da corriola] lembram trombetas miniatura, que numa das suas funções, toam aviso de que uma coisa mais ou menos importante vai ser dita».

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"A Corriola" de 2021 contém 30 páginas e tem uma tiragem de 2.500 exemplares, dos quais restam algumas dezenas, podendo ser pedida gratuitamente através do email dra@madeira.gov.pt ou pelo telefone 291145400. Nesta pequena publicação podemos encontrar provérbios agrícolas, curiosidades, adivinhas, as fases da lua, os conselhos agronómicos, nomeadamente as épocas de sementeira, colheita, práticas culturais como a poda e a enxertia, tarefas agrícolas, conselhos práticos sobre agricultura e um espaço para a toma de notas que podem ser apontadas com o lápis que a acompanha. Na nota de abertura, há um provérbio que percorre os 12 meses do ano e resume de certo modo, o sentido deste almanaque: «Em Janeiro, gear/ Em Fevereiro, chover/ Em Março, encanar/ Em Abril, espigar/ Em Maio, engrandecer/ Em Junho, ceifar/ Em Julho, debulhar/ Em Agosto, engavelar/ Em Setembro, vindimar/ Em Outubro, revolver/ Em Novembro, semear/ Em Dezembro, nascer». O "saber de experiência feito" ao longo do tempo e transmitido na maioria das vezes oralmente de geração em geração, é um património cultural que merece ser registado para memória futura e à luz do conhecimento agronómico actual. Decorrido um mês depois do lançamento de "A Corriola" em papel, a aceitação tem sido enorme, por parte dos agricultores, técnicos do sector, escolas, curiosos, entre outros. Existem mesmo leitores de "A Corriola" na página do boletim DICAs, que já guardavam o destacável e imprimiam-no, ficando muito satisfeitos por saber deste anuário num formato prático para consulta frequente. Uma palavra de apreço para a Colega Ana Ghira pela sua criatividade e espírito de concretização e para os Técnicos que colaboraram na elaboração de "A Corriola": Alexandra Azevedo, Dalila Gomes, Daniel Mata, Luís Dantas, Maria João Dragovic, Miguel Rodrigues, Regina Santos, Ricardo Costa, Virgílio Gouveia e Zilma Galvão. O grafismo apelativo é da autoria de Sara Fernandes e a impressão esteve a cargo da Tipografia Natividade.

E dado o sucesso desta primeira edição anual, está já a ser preparada "A Corriola" de 2022 para ser apresentada no final do presente ano, com uma tiragem seguramente maior atendendo à elevada procura.

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publicado às 15:11


Dar mais vida às dunas do Porto Santo

por Agricultando, em 25.04.21

Este texto foi publicado no Diário de Notícias, no dia 25 de Abril de 2021.

No âmbito da acção climática, o projecto "Life Dunas" em curso na Ilha do Porto Santo, no sítio da Ponta, desde meados de Outubro de 2020 e com uma duração de cinco anos, é financiado pela União Europeia por meio do programa "Life", tratando-se do primeiro "Life Clima", no Arquipélago da Madeira. Os objectivos gerais passam pelo aumento da resiliência dos ecossistemas dunares e da praia da Ilha Dourada, para contrariar as ameaças a que estes estão sujeitos por via dos eventos meteorológicos extremos como as tempestades e a subida do nível do mar, nas zonas costeiras. A entidade coordenadora do "Life Dunas" é a Secretaria Regional do Ambiente, Recursos Naturais e Alterações Climáticas, tendo como parceiros a Secretaria Regional de Agricultura e Desenvolvimento Rural através da Direcção Regional de Agricultura e Desenvolvimento Rural, o Instituto das Florestas e Conservação da Natureza, a Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, o Município do Porto Santo e o Gabinete do Vice-Presidente no Porto Santo. Como é do conhecimento geral, as dunas são barreiras naturais dinâmicas que impossibilitam o avanço do mar sobre a costa, abrigando da erosão o interior do território. Contudo, o efeito nefasto dos ventos e a actividade humana no decorrer dos tempos, originaram uma degradação que importa ser recuperada. A nível mundial, verifica-se a progressão do mar sobre o litoral que coloca em risco populações e construções, pelo que se deve abrandar esses processos erosivos. A par da restituição dunar, pretende-se controlar as espécies exóticas invasoras e substituí-las por outras nativas mais adaptadas às condições climáticas e de solo locais, que são essenciais para a fixação da areia. A instalação de um passadiço e a participação activa da comunidade local são outros dos propósitos que complementam a concretização plena deste projecto.

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A nível agrícola, a montante das dunas, o reactivar do cultivo da vinha da casta "Caracol" no modo de condução tradicional porto-santense e a preservação dos muros de pedra solta, mais conhecidos por muros de croché ou muros de renda, revelam-se cruciais para a protecção dunar. De acordo com informações que me foram prestadas há uns anos pelos Senhores António José Rodrigues e Carlos Mendonça, a casta "Caracol" foi trazida na década de 30 do século passado por um emigrante na África do Sul, mais concretamente da cidade do Cabo. Ofereceu alguns exemplares desta casta também chamada "Olho de Pargo" para o seu amigo, João da Silva, agricultor porto-santense que os plantou no sítio das Eiras. Como a alcunha deste lavrador era "o Caracol", rebaptizaram-na em sua homenagem. A uva "Caracol" é igualmente designada localmente por "Uva das Eiras", por ter sido o primeiro lugar, onde foi cultivada. A expansão desta casta prolongou-se durante algum tempo e só a partir de 1958, é que a mesma foi instalada um pouco por toda a Ilha, nos sítios das Alagoas, Farrobo, zonas junto à praia, Lombas, Pedras Vermelhas, Ponta e Campo de Cima. A colheita desta uva decorre habitualmente de meados de Julho até finais de Agosto. Assim, as videiras desta casta plantadas e prostradas no chão, nas áreas contíguas à praia, além de produzirem uvas de mesa de elevada qualidade, têm uma outra importante função, a retenção das areias. Atente-se ainda, no início do Verão, ao pormenor do levante das vinhas a 40 a 50 centímetros do solo, com recurso a pequenas estacas de canavieira ou de tamargueira, para que a maturação das uvas aconteça nas melhores condições. Em consequência da acção constante dos ventos e para proteger a vinha, construíram-se os muros de pedra sobreposta e noutras ocasiões, recorreu-se a sebes vivas. Nos muros de croché assenta um saber ancestral, em que pedras sobre pedras e sem usar argamassa, são colocadas da seguinte maneira: as mais largas, na base, a servir de suporte às mais pequenas que se amontoam e ficam com alguns espaços propositadamente deixados. Com isso, procura-se dar o arejamento e a temperatura apropriadas para o plantio da vinha. Estes muros constituídos por pedras de basalto e de arenito são elementos característicos da paisagem do Porto Santo que urgem ser salvaguardados.

Que nos próximos anos, o "Life Dunas" seja um sucesso nas suas diversas vertentes e que a Ilha Dourada se torne mais agrícola com a uva "Caracol" tão saborosa, como Max tão bem a cantou em "Porto Santo".

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publicado às 14:48

Este texto foi publicado no Diário de Notícias, no dia 28 de Março de 2021.

No "Agricultando" do mês transacto recordaram-se os investimentos empreendidos pela Comissão Administrativa dos Aproveitamentos Hidráulicos da Madeira (CAAHM) realizados nas décadas de 40, 50 e 60 do século passado, que proporcionaram quase o dobro da área agrícola irrigada, sobretudo na costa sul da Ilha da Madeira. No decorrer do tempo, é natural que as levadas então construídas se tenham degradado parcial ou totalmente, como consequência de deslizamentos de terras, da ocorrência de incêndios, entre outros. A Levada do Norte, uma das obras mais importantes promovida pela CAAHM, que se inicia a 1.000 metros de altitude, na Ribeira do Portal da Burra, no cume da Ribeira do Seixal, na vertente norte, leva água do norte para o sul da Ilha, para as freguesias da Serra de Água, Ribeira Brava, Campanário, Quinta Grande, Estreito de Câmara de Lobos e Câmara de Lobos. Antes do aproveitamento agrícola, há o proveito hidroeléctrico através da Central Hidroeléctrica da Serra de Água (antiga Central Salazar), cuja água no presente reverte depois para o provimento de água potável às populações dos concelhos da Ribeira Brava, Câmara de Lobos e parte do Funchal, e de água de rega dos municípios ribeira-bravense e câmara-lobense. Contudo, as encostas da margem esquerda da Ribeira Brava, mais precisamente entre os sítios da Ameixieira e Espigão, pertencentes às freguesias da Serra de Água e Ribeira Brava, respectivamente, há algum tempo que apresentam instabilidade e pioraram devido às intempéries e aos incêndios, que ocorreram no final da primeira e começo da segunda décadas deste século. Os enormes estragos e obstruções frequentes do Canal e subsequentes perdas de água potável e de rega põem em risco pessoas, bens e o abastecimento público do precioso líquido.

Perante esta situação desfavorável, a Águas e Resíduos da Madeira (ARM) decidiu recuperar a Levada do Norte para que se reduzissem as perdas, tendo principiado em Novembro de 2019 a construção do Túnel do Pedregal, que terá uma extensão final de 5.400 metros e uma capacidade de armazenamento no seu interior de 40.000 metros cúbicos de água, ou seja, 40 milhões de litros. A conclusão da obra está prevista acontecer no último trimestre deste ano, podendo haver atrasos atendendo à sua grandeza e grau de dificuldade. Crê-se que, a partir de meados da Primavera de 2022, mais de 9.000 explorações agrícolas com uma área total à volta de 800 hectares, localizadas nos concelhos da Ribeira Brava e Câmara de Lobos, possam beneficiar desta importante intervenção, que resolverá a crónica falta de água de rega na época de Maio a Outubro. Será assegurada igualmente uma relevante reserva de água que permitirá à Região uma melhor adaptação às alterações climáticas, além de asseverar melhores condições de segurança aos funcionários da ARM, que ali trabalham. No âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) e no que à componente da gestão hídrica e do regadio agrícola diz respeito para o período 2021-2026, há a destacar o projecto de aproveitamento das águas do Seixal, a recuperação do lanço norte da Levada do Norte e da Levada das Rabaças, assim como os reforços dos caudais de adução das Levadas do Norte e dos Tornos. O Sistema Elevatório do Seixal irá possibilitar a utilização das águas emergentes do Túnel do Seixal, intensificando o seu fornecimento à Levada do Norte e garantindo o regadio no Verão. O recobro do canal e dos túneis do lanço norte da Levada do Norte irá aumentar a disponibilidade hídrica, a fiabilidade e a segurança da infra-estrutura. A Levada das Rabaças com uma extensão aproximada de nove quilómetros está em funcionamento há 60 anos. Por isso, carece de uma acção que possa dar mais força à produção eléctrica na Central Hidroeléctrica da Serra de Água e posteriormente à quantidade de água de rega no lanço sul da Levada do Norte, que abrange os municípios da Ribeira Brava e de Câmara de Lobos. O reforço da adução do lanço sul da Levada dos Tornos por meio da construção da Lagoa das Águas Mansas II, no sítio do Ribeiro Serrão, freguesia da Camacha, concelho de Santa Cruz irá melhorar o abastecimento de água potável e de rega do sudeste da Madeira. Estima-se que aquela lagoa tenha uma capacidade mínima de armazenamento de 400.000 metros cúbicos.

Assim, no conjunto da construção do Túnel do Pedregal e dos investimentos previstos no PRR serão gastos 90 milhões de euros, montante esse que terá um efeito multiplicador na economia e na agricultura regionais, pois poderá suscitar interesse para que se volte a cultivar terrenos com aptidão agrícola que hoje em dia estão incultos pela escassez ou ausência de água, elemento vital para que se obtenham boas e abundantes produções.

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publicado às 15:39


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