Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]




E vão 11 anos!

por Agricultando, em 09.09.18

A 9 de Setembro de 2007 surgia esta rubrica de opinião sobre Agricultura madeirense na revista do Diário de Notícias da Madeira.

Captura de ecrã 2015-09-9, às 22.06.57.png

O "Pêro da Ponta do Pargo em festa" foi o primeiro artigo de um conjunto de 162 textos publicados até à presente data (71 textos da 1.ª série - 9.9.2007 a 13.6.2010, 72 textos da 2.ª série - 30.1.2011 a 29.1.2017 mais 19 textos da 3.ª série iniciada a 26.2.2017, e que se encontra em curso). A estes cento e sessenta e dois escritos há que acrescentar dois artigos-resumo das 1.ª e 2.ª séries que foram publicados no Diário de Notícias da Madeira a 13.6.2010 e 29.1.2017, respectivamente.

Depois, publicaram-se os 71 textos da 1.ª série em livro a 21 de Março de 2011 com a respectiva versão inglesa, a 16 de Dezembro de 2013.

Decorridos 11 anos nunca pensei estar ainda a escrever. O facto de saber que o Agricultando é lido por muitos leitores no Diário de Notícias da Madeira, aqui no blogue e na página de facebook, faz-me querer continuar, fazendo aquilo que mais gosto: escrever sobre o que de bom a Madeira e o Porto Santo tiveram ou têm a nível agrícola e gastronómico.

Enquanto houver leitores, haverá Agricultando!

Muito obrigado a quem me lê!

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 17:11


O uso da giesta e da carqueja na Agricultura

por Agricultando, em 26.08.18

Este texto foi publicado no dia 26 de Agosto de 2018, no Diário de Notícias.

Em Abril, trouxe a esta página algumas notas sobre o boletim mensal "Frutas da Madeira", editado pelo Grémio dos Exportadores de Frutas e Produtos Hortícolas da Ilha da Madeira. Este periódico dedicado à agricultura madeirense surgiu em Abril de 1941 e perdurou pelo menos até Janeiro de 1958, tendo como fundador e primeiro director, o Engenheiro Agrónomo António Teixeira de Sousa, na altura Delegado Regional da Junta Nacional de Frutas. No número 4 de Julho de 1942 foi publicado um interessante artigo intitulado "Matos – Giesta e carqueja", baseado em dois folhetos de divulgação da autoria do Engenheiro Agrónomo Artur Castilho no âmbito da "Campanha de Produção Agrícola – Ministério da Economia", editados naquele ano. Em pleno Verão, julgo ser oportuno reavivar algo que o Agricultor madeirense poderá novamente fazer uso, com benefícios evidentes para a melhoria nutritiva e de estrutura do solo, e consequentes acréscimos das produções agrícolas. Recuando 76 anos, a Madeira em particular e Portugal em geral, apesar da neutralidade na II Guerra Mundial, sentiam também os efeitos económicos adversos resultantes daquele conflito. Havia, por isso, escassez de alimentos e de outros bens que vinham de fora, como os adubos azotados ou como são vulgarmente conhecidos, os "guanos". Ora, uma forma de compensar a ausência dos fertilizantes era proceder-se à incorporação de matos no terreno, em substituição do estrume, que seria o ideal para fornecer matéria orgânica, mas que não existiria em quantidade suficiente na Região. A giesta e a carqueja já eram abundantes nas serras madeirenses, e desempenhavam um papel importante na exploração agrícola. Eram usadas como "camas de gado", quando devidamente preparadas, sendo que o estrume entretanto obtido era aproveitado como fertilizante. Ao serem trituradas e sujeitas a fermentação pelos processos normais, davam origem ao estrume "artificial". Por outro lado, podiam ser empregues como adubo verde, depois de cortadas e enterradas no solo, com o intuito de prover matéria orgânica e assim melhorar as condições de fertilidade. Cabe aqui recordar que a giesta e a carqueja são plantas leguminosas, ou seja, a percentagem de azoto é elevada, pelo que o benefício que daí advém para os cultivos agrícolas, é significativo. Além destas, a feiteira era e é igualmente utilizada como adubo verde, com destaque para as plantações de rama de batata-doce. Para proporcionar a decomposição, nitrificação e aumentar o seu efeito como fertilizante, recomendava-se a adição de calcário moído em quantidades variáveis entre 30 quilos a 100 quilos por 100 metros quadrados, consoante a natureza físico-química do terreno, espalhando-o antes da cava ou polvilhando-o nos regos sobre o mato.

Estes matos quando estavam sobretudo na fase de rebentação eram indicados como pasto, podendo ser posteriormente preparados. No caso da carqueja, recorriam-se a moinhos especiais para a sua trituração, deixando-a em condições de ser fornecida aos animais, constituindo assim um excelente alimento. As giestas eram aproveitadas para a manufactura de vassouras e o seu mato servia para a queima nos fornos de pão. O artigo realçava que «das giestas e carquejas mais desenvolvidas, tiram-se varas para feijão». Como curiosidade, em algumas zonas altas, mormente do concelho da Calheta, a giesta até entrava numa rotação de culturas, ficando a terra ocupada com esta planta cerca de quatro anos, e no ano de corte era semeado o trigo. Aquela espécie e a carqueja, como leguminosas, são plantas melhoradoras, isto é, enriquecem o solo, dando ensejo a que as culturas que se seguem sejam mais produtivas. Ao contrário do que queremos no presente, o texto escrito há quase 80 anos defendia inclusive que a expansão daquelas plantas agrestes seria desejável, podendo assim ocupar uma grande parte das regiões altas (com menção ao Paul da Serra a 1.500 metros de altitude), que apresentavam então uma «relva raquítica», desde que a sua exploração fosse convenientemente ordenada, originando colheitas abundantes, com benefício geral da economia agrícola. No planeamento de um povoamento florestal, a influência destes matos era notável, quer na conservação dos solos e respectivo melhoramento, quer como abrigos para as plantações novas. Aludia-se do mesmo modo ao aspecto paisagístico, pois em áreas incultas, aquele manto verde que na época da floração transformava-se em belíssimas manchas amarelas, não só era agradável à vista, como ainda servia de pasto farto para as abelhas. Aconselhava-se, por essa razão, que nas margens das estradas serranas fossem plantadas giestas, tirando proveito das variedades mais convenientes como ornamento. Concluía-se de facto que «estes arbustos, revestindo o terreno, evitando ou atenuando a erosão, segurando as terras, impedindo o desnudamento das rochas, facilitando a infiltração das águas e influindo beneficamente no clima, promovem uma acção muito importante, que só por si justificaria o cuidado e atenção que lhe devem ser dispensadas».

Nos dias de hoje, a giesta, a carqueja e a feiteira são plantas invasoras. Saibamos tirar partido das mesmas, voltando a disponibilizá-las de uma forma regulada ao Agricultor em prol da nossa Agricultura. E sempre numa perspectiva de desenvolvimento equilibrado, resolvendo-se a breve trecho duas situações prementes: o excesso de mato nas montanhas e a falta de matéria orgânica nas explorações agrícolas!

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 16:48

Este texto foi publicado no dia 29 de Julho de 2018, no Diário de Notícias.

Nos dias de hoje, os resíduos, ou seja, aquilo que sobra depois de utilizarmos um determinado produto e que é colocado no contentor do lixo geral ou específico lá de casa, são encaminhados geralmente para um aterro sanitário, para incineração ou reciclagem. No que diz respeito à actividade agrícola um dos resíduos que merece especial atenção são as embalagens vazias de Produtos Fitofarmacêuticos (PF) de uso profissional, que só podem ser adquiridos e aplicados por agricultores e/ou utilizadores devidamente habilitados, isto é, com frequência e aproveitamento numa formação de "Aplicador de Produtos Fitofarmacêuticos". Os PF ou pesticidas de uso agrícola (também conhecidos vulgarmente por "remédios" para a agricultura) são utilizados para controlar as pragas e doenças que afectam as culturas, pondo em risco o potencial das produções e consequente prejuízo económico para o agricultor. Quando uma embalagem de PF chega ao fim, ao contrário das embalagens usadas no dia-a-dia doméstico, não pode ser depositada no ecoponto ou no contentor que temos em casa para o papel/cartão, o plástico/metal e o de vidro. As embalagens vazias de PF seguem outro circuito que foi oportunamente divulgado em duas sessões de esclarecimento sobre "Gestão de embalagens e outros resíduos em Agricultura" realizadas nos passados dias 3 e 4 deste mês, no Auditório do Edifício do Governo Regional, no Campo da Barca, no Funchal e na Escola Agrícola da Madeira, em São Vicente. A Sociedade Gestora do Sistema Integrado de Embalagens e Resíduos em Agricultura (SIGERU) implementou o sistema Valorfito no nosso país, sendo responsável pela recolha, tratamento e valorização das embalagens vazias de PF. Nas referidas acções de esclarecimento o Director Geral do Valorfito, Engenheiro António Lopes Dias apresentou alguns números de recolha daquele tipo de embalagens vazias. Em 2013, a taxa de recolha daqueles resíduos em Portugal (Continente e Açores) foi de 36 por cento, em 2016, de 52 por cento e em 2017, de 50,1 por cento. No seguimento da atribuição da licença pelo Governo Regional ao sistema Valorfito para a Região Autónoma da Madeira no triénio 2018-2021, o que acontece pela primeira vez nesta Região, prevê-se que essa taxa de recolha aumente no todo nacional, havendo uma meta de 60 por cento a atingir em 2021. Além das embalagens vazias de PF de capacidades inferiores a 250 litros ou quilos, as sementes tratadas com PF, os biocidas como os produtos de desratização e desparasitação, e as embalagens vazias de PF com capacidades superiores a 250 litros ou quilos passam agora a ser abrangidas por este sistema de gestão. E porque há regras a cumprir antes de colocar as embalagens vazias de PF no saco Valorfito que é adquirido uma única vez, e depois mediante a entrega recebe gratuitamente um novo saco, João Cardoso da Associação Nacional da Indústria para a Protecção das Plantas (ANIPLA) fez uma comunicação sobre "Lavar é valorizar". Apelou para a importância da tripla lavagem (para saber mais pode aceder ao vídeo https://www.youtube.com/watch?v=NLTWKmrYwDE&feature=youtu.be) das embalagens rígidas vazias de PF com capacidade inferior a 25 litros e cujo conteúdo serviu para aplicar em forma de calda. Acrescentou que quanto menor for o tempo entre o esvaziamento da embalagem de PF e a sua lavagem, melhor será a operação. Existem estudos que confirmam que uma embalagem não lavada pode conter 2 por cento de PF, originando custos adicionais para o agricultor se a prática de não lavagem for comum a outras embalagens no momento e ao longo dos tempos. Por outro lado, em termos ambientais, uma embalagem lavada contém apenas menos de 0,1 por cento de PF. As embalagens não rígidas de qualquer capacidade (saquetas ou sacos de PF) e rígidas de 25 litros ou quilos até 1.000 litros ou quilos devem ser devidamente esgotadas do seu conteúdo, sem lavagem.

Apesar das sessões de esclarecimento terem tido outras apresentações sobre a legislação vigente sobre a gestão de resíduos em Portugal, os desafios da economia circular na Madeira e no Porto Santo, os resíduos de PF em produtos de origem vegetal e os precursores de explosivos, entendi trazer apenas a este "Agricultando" as duas primeiras comunicações por serem aquelas que diziam mais respeito ao tema apresentado, a implementação do sistema Valorfito na Região. No período dedicado aos esclarecimentos, surgiram algumas questões da assistência, das quais destacamos a situação dos PF obsoletos (PF cujos períodos de comercialização e de aplicação caducaram, não podendo ser usados), sobre o destino a dar aos mesmos, bem como quando é que os Agricultores madeirenses poderão entregar as embalagens vazias de PF nos pontos de retoma, que são os pontos de venda de PF. Sobre a primeira pergunta, foi esclarecido que a responsabilidade das embalagens de PF obsoletos é do Agricultor, não havendo no presente, nenhuma entidade responsável pela sua recolha e/ou encaminhamento para tratamento adequado. Sobre a segunda questão, foi dito que os estabelecimentos de venda na Madeira estão preparados para receber as embalagens vazias de PF dos Agricultores desde «ontem», sendo que aqui a palavra «ontem», serviu apenas para elucidar que está em vigor desde 1 de Janeiro de 2018. Porém, entre alguns responsáveis de estabelecimentos de venda de PF presentes, chegou-se à conclusão que apesar de se terem inscrito na página de internet do Valorfito para tal propósito, ainda não receberam os sacos preparados para o efeito, e como tal, não podem retomar as embalagens vazias de PF.

Certamente, esta situação terá de ser ultrapassada tão breve quanto possível, já que muitos Agricultores têm guardado as embalagens vazias de PF durante anos, e desejam encaminhar esses resíduos a quem de direito. Será bom que isso aconteça para o sector agrícola e quem nele trabalha, bem como para toda a população e os visitantes, pois é menos um resíduo poluente e de risco que teima em permanecer um pouco por todo o lado.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 15:57


Sidra, uma bebida com história na Madeira

por Agricultando, em 24.06.18

Este texto foi publicado no dia 24 de Junho de 2018, no Diário de Notícias.

No passado dia 14 e integrada na 4.ª Semana das Sidras da Madeira, realizou-se a conferência "Das Maçãs às Sidras", na Escola Agrícola da Madeira, em São Vicente. Esta iniciativa organizada pela Quinta Pedagógica dos Prazeres (QPP) com o apoio da Secretaria Regional de Agricultura e Pescas/Direcção Regional de Agricultura (DRA) e a Câmara Municipal da Calheta, procura divulgar a história e a diversidade dessa bebida fermentada a partir do sumo de maçã/pêro, que é produzida um pouco por toda a Madeira. A conferência contou com três oradores: o Prof. Manuel Gonçalves, Responsável pelo CDISA – Quinta Leonor, no Jardim da Serra, a Engenheira Regina Pereira da DRA, que desde 2006 tem dado apoio técnico para a produção de sidra e seus derivados à QPP e Jesús Gómez Solórzano, produtor de sidra da região de Cantabria, Espanha. O Prof. Manuel Gonçalves apresentou "A Macieira: Preservação e valorização das variedades regionais", tendo dito no início, que apesar de não ter formação em ciências agrárias, queria deixar o seu testemunho baseado na experiência pessoal. Fez o enquadramento histórico da cultura da macieira na Região, que já era referida na obra do Pe. Gaspar Frutuoso "Saudades da Terra" de finais do século XVI e no livro "Fomento da Fruticultura na Madeira" (1947) de Joaquim Vieira Natividade, onde este ilustre Agrónomo elogiava a diversidade genética de macieiras na ordem de uma centena de variedades regionais ou «tidas como tais». Actualmente, é preocupante o envelhecimento dos pomares de macieira e o maneio insuficiente ou mesmo inexistente, tendo como consequência a redução do número de exemplares por variedade de macieira. Para contrariar ou inverter essa tendência de desaparecimento varietal, deu os exemplos do CDISA – Quinta Leonor que tem cerca de meia centena de variedades regionais, algumas com nomes vulgares que diferem de localidade para localidade, mas que são a mesma variedade, a realização de certames agrícolas alusivos ao fruto e à sidra um pouco por toda a Região e o trabalho encetado pela DRA, Associação de Agricultores da Madeira, Universidade da Madeira, QPP, Associação de Produtores de Sidra da RAM, entre outros. O conhecimento científico é fundamental para a preservação, pelo que têm sido realizados trabalhos técnicos sobre a cultura da macieira e seus derivados, bem como a inclusão oportuna de dez variedades regionais no Catálogo Nacional de Variedades. Falta (re)introduzir as variedades regionais de macieira e os transformados no mercado regional, pois estes desapareceram ao longo do tempo. Há que defender este legado histórico e respeitar o trabalho notável dos nossos antepassados, transmitindo-o às gerações vindouras. A Engenheira Regina Pereira na comunicação "Sidras da Madeira" mencionou igualmente o Historiador Gaspar Frutuoso e o Professor Engenheiro Joaquim Vieira Natividade que na obra "Fomento da Fruticultura na Madeira" questionava «Porque persistimos em menosprezar a árvore de fruto? Porque razão nós, tão pobres de bens, desdenhamos tal riqueza?». Esta frase com mais de 70 anos continua surpreendentemente actual, pois apesar de um ou outro esforço em recuperar as variedades regionais de macieira, aliás reflectido no registo de dez variedades de macieira no Catálogo Nacional de Variedades, muito ainda há por fazer. Esclareceu que a palavra sidra com "s" deriva do latim sicera, e como tal, é preciso não confundir com a palavra cidra com "c" que se trata de um citrino, cuja casca cristalizada é usada na confecção do bolo de mel de cana-de-açúcar. Na Madeira, a sidra é uma bebida com história intimamente ligada ao meio rural, onde se concentra a produção e o consumo associado às gerações mais antigas. Porém, esta bebida está na moda e há multinacionais a produzi-la. No presente, é comum misturar a sidra com outros frutos, como por exemplo o limão, tornando-a mais apetecível para os jovens. Na QPP, à sidra adicionam-se frutos como o tomate inglês, a goiaba, a uveira da serra, o maracujá ou a pitanga. Há que tirar partido do interesse e da procura dos turistas ingleses, franceses, alemães e espanhóis que visitam a Madeira, e que são conhecedores e apreciadores de sidra, havendo por isso um grande potencial económico. Os vinagres de sidra, pelas suas conhecidas propriedades medicinais, são outros produtos a ter em conta e que enriquecem a gastronomia regional.

O produtor espanhol de sidra Jesús Gómez Solórzano deu conta da sua actividade na região de Cantabria, localizada entre o País Basco e as Astúrias, no norte de Espanha. Nesta região, a produção e consumo de sidra tem lugar há muito tempo, mas apenas para autoconsumo. Só em 2010 é que Jesús apostou na vertente comercial, tendo lançado a marca Somarroza e engarrafado cerca de 200.000 garrafas, em 2017. Trata-se de uma empresa familiar (o casal mais dois filhos) que tem produção própria e adquire maçã a outros produtores, comercializando sete tipos de sidra, desde a sidra natural (seca) à doce, com gás e sem gás, sendo que a sidra natural é a mais vendida. O principal canal de escoamento é a restauração, tendo já recebido prémios pela excelente qualidade das sidras. Este produtor recordou que a higiene dos locais de produção de sidra e a uniformidade da sidra no decorrer dos anos, é crucial para a fidelização do consumidor. Chegou mesmo a dizer que é preferível não vender sidra num determinado ano se esta não atingir a qualidade esperada, podendo comercializar essa sidra em vinagre depois de ocorrer a acetificação. Dada a produção relativamente pequena, podemos dizer que os passos dados por Jesús Gómez Solórzano poderão ser semelhantes aos dos produtores de sidra madeirenses. Em suma, há que insistir nas actuais boas práticas de produção de sidra em termos de higiene e segurança alimentar, nas nossas variedades regionais de macieira e no saber-fazer madeirense. A Madeira ficará mais rica se criar num futuro próximo um conjunto de sidras que são diferentes das demais, originando desejavelmente um roteiro pelas freguesias produtoras de sidra como a Camacha, Fajã da Ovelha, Jardim da Serra, Ponta do Pargo, Prazeres, Santo da Serra, São Roque do Faial, São Vicente, entre outras. Certamente, essa "Rota das Sidras da Madeira" ocuparia o interessado durante dois a três dias, visitando aquelas localidades, não só para apreciar as sidras, mas também a gastronomia local e outros pontos de interesse cultural, com evidentes ganhos socioeconómicos.

É, pois, tempo de cuidar de uma das nossas riquezas: as maçãs e os pêros da Madeira e a sua transformação em sidra!

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 16:10

Este texto foi publicado no dia 27 de Maio de 2018, no Diário de Notícias.

A Ordem dos Engenheiros (OE) instituiu 2018 como o "Ano OE das Alterações Climáticas", tendo em conta que nas últimas décadas tem ocorrido a nível mundial o agravamento dos desequilíbrios e consequentes mudanças climáticas causadas sobretudo pelo Homem, mas de modo igual por motivos naturais. Perante a importância que alguns destes fenómenos como os incêndios, as secas e o recuo do litoral do continente têm tido recentemente em Portugal, a OE ciente do papel da Engenharia e dos Engenheiros no acompanhamento, mitigação e adaptações necessárias aos efeitos das alterações climáticas, resolveu abordar ao longo do ano e de uma forma transversal, a função das soluções tecnológicas para assegurar um futuro mais equilibrado, contando para isso com a participação activa dos órgãos nacionais e regionais daquela Ordem. Nesse âmbito, realizou-se no passado dia 4 deste mês no auditório da Sede da Região da Madeira da OE e por iniciativa do Colégio de Engenharia Agronómica local, uma "Tarde de Engenharia" sobre "Agricultura e alterações climáticas – o papel da engenharia agronómica no acompanhamento, mitigação e adaptação da agricultura às condições climáticas na Madeira". Os oradores foram o Engenheiro Miguel Castro Neto, Presidente do Conselho Nacional do Colégio de Engenharia Agronómica da OE, o Engenheiro Bernardo Melvill Araújo, Coordenador do Colégio de Engenharia Agronómica da Região da Madeira da OE e o Engenheiro Marco Gonçalves, Gestor do PRODERAM, com debate moderado pelo Engenheiro Paulo Santos, Director Regional de Agricultura. O Engenheiro Miguel Castro Neto na comunicação "O papel da engenharia agronómica no acompanhamento, mitigação e adaptação da agricultura às alterações climáticas/Que papel para a agricultura de precisão?" recordou que o aumento da população mundial irá pressionar a necessidade de produzir mais alimentos. Por outro lado, as alterações climáticas estão a mudar as zonas climáticas e agrícolas em direcção aos pólos, bem como os padrões de precipitação, sendo que ocorrerão influências positivas ou negativas nas produções agrícolas, conforme as áreas geográficas do mundo. A agricultura de precisão que já foi tema de um "Agricultando" publicado no Diário de Notícias da Madeira de 28 de Maio de 2017, é um conceito com 20 anos e nele se encontram exemplos como a gestão remota de rega por meio de aplicações móveis, salas de ordenha automatizadas, um sistema de identificação animal (brinco) que acede em tempo real à informação relativa à alimentação dos animais, a robotização de trabalhos agrícolas, os tractores autónomos (sem condutor), o agricultor biónico, entre outros. Este tipo de agricultura poderá eventualmente atenuar os efeitos das alterações climáticas, proporcionando uma melhor adaptação.

logo_2018_ano_oe_alt_climaticas_1_DR.jpg

O Engenheiro Bernardo Melvill Araújo na apresentação "Efeitos das alterações climáticas na agricultura da Madeira/Previsões para 2070-2099" deu conta de previsões que podem ser consultadas na página da internet do Observatório CLIMA-Madeira (http://clima-madeira.pt/pt). Dos vários cenários futuros ali propostos para aquele intervalo de tempo, escolheu-se o cenário A2 que se baseia num hipotético aumento da concentração atmosférica de dióxido de carbono para 800 ppmv (partes por milhão em volume), ou seja, o dobro da concentração registada em 2015, cuja consequência em comparação com o período de referência (1970-1990) seria a variação da temperatura média até mais 3ºC, e uma diminuição da precipitação até 48 por cento. O acréscimo da temperatura, por si só, poderia expandir em altitude as áreas potenciais de produção de banana, vinha, frutos subtropicais e hortícolas, nas costas sul e norte da Madeira, mas também o provável incremento de pragas, doenças e infestantes. Todavia, neste cenário, a forte redução da disponibilidade de água de rega seria bastante limitante para a expansão das culturas em causa, sendo indispensável continuar a substituição da rega tradicional por alagamento por sistemas de rega localizada (gota-a-gota, microaspersão e aspersão). O Engenheiro Marco Gonçalves na palestra sobre "A intervenção do Programa de Desenvolvimento Rural da Região Autónoma da Madeira (PRODERAM) no contexto das alterações climáticas/Perspectivas para o futuro" divulgou os apoios existentes para a modernização da agricultura madeirense, com recurso ao uso das energias renováveis, a sistemas de armazenamento de água e de rega mais eficientes, e à recuperação dos canais de rega principais e secundários, esperando ainda que os apoios comunitários para o próximo quadro financeiro de 2021 a 2027 se possam manter ou mesmo acentuar, apesar da saída do Reino Unido da União Europeia.

No final do debate, ficou a ideia que independentemente do que venha a acontecer no final deste século no Arquipélago da Madeira, importa "acelerar" a instalação de sistemas de rega nas explorações agrícolas que possibilitem a poupança de água o quanto antes, pois esse precioso líquido será cada vez mais raro, e sem água, não há agricultura, não há vida!

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 16:56


Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Pesquisar

  Pesquisar no Blog

Calendário

Setembro 2018

D S T Q Q S S
1
2345678
9101112131415
16171819202122
23242526272829
30


Posts mais comentados


Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2007
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D

Número de visitas | Desde 14 de Outubro de 2007

80.000 visitas alcançadas a 9.4.2015!