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Este texto foi publicado no dia 26 de Março de 2017, no Diário de Notícias.

No dia 20 de Março celebrou-se o Dia Mundial da Agricultura, tendo a Escola da APEL e a Secretaria Regional de Agricultura e Pescas organizado nessa data e naquela escola (onde regressei 30 anos depois de ter sido ali aluno), um ciclo de conferências designado "A Agricultura Madeirense: Motor da economia, arquitecta de paisagens e guardiã da natureza", que foi presidido pelo Secretário Regional de Agricultura e Pescas. O Professor Doutor Alberto Vieira, Investigador Coordenador do Centro de Estudos de História do Atlântico na comunicação "O poio madeirense na construção da agricultura" realçou a ligação íntima do poio à História da Agricultura madeirense e divulgou aspectos curiosos como a influência do poio no agricultor, mormente nos seus comportamentos. Aquela imagem do nosso folclore em que se dança curvado é entendida por aquele investigador como uma veneração à terra e não como um gesto de submissão. O açúcar madeirense tornou a Região como a única do Atlântico a produzir o "ouro branco", antes de este ter-se expandido para as Canárias, Cabo Verde e o Brasil, levando por isso à sua decadência na Madeira. A nota que o Vinho Madeira é uma criação da Ilha e dos madeirenses e não dos ingleses, que só a partir do século XVII o descobriram, dando então um contributo para que a comercialização além-mar fosse maior. A comparação que o agricultor madeirense é como um xamã, isto é, alguém que tem uma ligação espiritual com a terra e tudo o que a rodeia, tendo o Professor Doutor Alberto Vieira afirmado que “o ilhéu de segunda a sexta-feira é um xamã e no sábado e domingo, é católico”. Em vez de transformar a paisagem, o agricultor criou um novo espaço, uma nova realidade por oposição à de outras paragens, na qual houve transformação. A Madeira é a primeira no espaço atlântico onde os europeus fazem agricultura por volta de 1420, salientando no final que falta escrever a História da Agricultura madeirense, apesar de haver artigos, notas e apontamentos sobre a história dos produtos agrícolas na Região, em especial na segunda metade do século passado. O Doutor Engenheiro João Baptista Silva, Investigador do Centro GeoBiotec, FCT, Universidade de Aveiro e Representante da Progeo Portugal - Associação Europeia para a Conservação do Património Geológico trouxe o tema "A Natureza não perdoa: Como cuidar, proteger e valorizar a nossa casa comum", debruçando-se sobre os fenómenos de intempérie, incêndios, e algumas pragas e doenças que têm assolado a Madeira nos últimos dez anos. Considerou que ciência sem espiritualidade não é ciência e lembrou o livro do Papa Francisco "Proteger a Criação – Reflexões sobre o Estado do Mundo" que chama a atenção para a preservação da casa comum, a Terra. Recordou os sete incêndios ocorridos entre 2010 e 2016, no qual arderam e voltaram a arder 24.750 hectares, ou seja, o equivalente a quase 25.000 campos de futebol! A aluvião de 20 de Fevereiro de 2010, as enxurradas de 2012 no Seixal e no Porto Moniz e de 2013 em Santa Cruz, Machico, Porto da Cruz e Santana. A impermeabilização do solo e subsolo no Funchal levou a que as áreas inundadas aumentassem entre 1993 e 2010. A praga da vespa das galhas do castanheiro, as doenças mixomatose e hemorrágica viral dos coelhos do Porto Santo, a varroose, uma praga que em 2016 foi a responsável pela diminuição de 70 por cento do mel de abelha regional. Os poios agricultados e os não agricultados, e o maior risco de erosão destes últimos. Asseverou que nestes dez anos destruiu-se mais que nos 590 anos anteriores. Há que cuidar da nossa Região, responsáveis governamentais e autárquicos, bem como a sociedade civil, pois se a conservarmos, estamos a cooperar para o bem comum e por isso há que conhecer, proteger e valorizar os recursos naturais locais.

Na segunda parte deste evento, o produtor de maracujá Luís Manuel Sardinha do concelho da Calheta fez uma intervenção interactiva designada "A matemática de ser Agricultor", contando com a colaboração de três estudantes que assistiam à palestra. Foi colocado num quadro alguns cálculos básicos para três cultivos agrícolas: Bananeira, vinha e maracujazeiro. Disse que para ser rentável há que contar com pelo menos um hectare de superfície e para cada cultura, calculou a produção estimada e o preço de venda, obtendo-se valores de 22.000 euros para a banana e a vinha, e de 38.000 euros para o maracujá. A estes rendimentos brutos, acrescentou um montante médio de 3.000 euros referente a ajudas à agricultura e 30.000 euros como prémio de instalação para o jovem agricultor, demonstrando assim que a agricultura pode ser frutuosa, desde que tenhamos dimensão, conhecimentos técnicos e de gestão agrícola. O Prof. Luís Paixão, Escultor, com a "Dimensão Telúrica na Arte" fez uma viagem de 30.000 anos desde a arte rupestre, passando pelas artes egípcia, grega, romana, bizantina, românica (medieval), gótica, pré-renascentista, renascentista, barroca, romântica, realista, impressionista, expressionista, cubista, abstraccionista e arte nova. Em todas as épocas, a natureza em geral e a agricultura ou actividade agrícola em particular é temática constante nas diversas expressões artísticas. Mostrou projectos de escultura com figuras regionais do meio rural que retratam profissões de outrora e sugeriu que se instalasse um "Parque do Agricultor" ou um "Parque das Tradições" na Madeira, como forma de perpetuar essas “memórias de tempos idos” no presente e no futuro. A Prof.ª Graça Garcês da Escola da APEL na apresentação "Evidências de telurismo no hino da Região Autónoma da Madeira" analisou em pormenor o hino com letra de Ornelas Teixeira e composição de João Víctor Costa, em que destaco aqui a importância da natureza no verso inicial “Do vale à montanha e do mar à serra” secundada pelo valor do seu povo em “Teu povo humilde, estóico e valente/Entre a rocha dura te lavrou a terra/Para lançar, do pão, a semente”, que num meio agreste o tornou aprazível e fértil. Por fim, em jeito de desfecho, o Director Regional de Agricultura, Eng.º Paulo Santos indicou alguns números relativos ao sector e relevou a agricultura regional como um dos suportes da principal actividade económica que é o turismo, elogiando ainda as intervenções dos oradores que o precederam.

Foi sem dúvida uma manhã enriquecedora que assinalou da melhor forma o Dia Mundial da Agricultura. Um bem-haja à organização!

 

* — regionalismo para socalco

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