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Este texto foi publicado no dia 26 de Fevereiro de 2017, no Diário de Notícias.

Como foi dito no "Agricultando" anterior, inicia-se hoje a terceira série de textos deste espaço de opinião sobre a Agricultura madeirense. No presente ano, a Associação Comercial e Industrial do Funchal (ACIF) está a organizar um ciclo de seminários genericamente intitulado de "Negócios – Conceitos – Marcas", tendo o primeiro ocorrido no passado dia 31 de Janeiro no auditório do Museu da Electricidade – Casa da Luz com o tema "Estrelas Michelin com impacto na economia". Participaram nesta sessão, os Chefes de Cozinha Benoît Sinthon do restaurante Il Gallo D’ Oro no Hotel Cliff Bay, Luís Pestana do restaurante William no Hotel Belmond Reid’s Palace e Pedro Lemos do restaurante Pedro Lemos no Porto, assim como o Dr. Pedro Milheiro da Costa, Director Geral da Quinta do Furão, que foi o moderador. Na abertura desta iniciativa, o Secretário Regional da Economia, Turismo e Cultura, Dr. Eduardo Jesus, afirmou que “estes Chefes [galardoados com as estrelas Michelin] têm aprofundado a utilização dos produtos que são tipicamente regionais (…)”, potenciando e garantindo “(…) o escoamento da produção regional” com proveitos para a economia em termos turísticos, gastronómicos e de rendimentos. O Chefe de Cozinha Benoît Sinthon observou que a conquista de mais duas estrelas Michelin para a Região, põe em plano superior a cozinha madeirense ao nível do que melhor se faz no mundo, complementando desse modo a hotelaria de luxo pela qual se distingue o nosso Arquipélago. É pois notório que além dos nossos mil e um climas e paisagens aprazíveis, o visitante procura na gastronomia regional e nos produtos locais que dela fazem parte, algo que prolongue o prazer de estar num lugar diferente, dir-se-ia até, paradisíaco.

Na minha opinião, este raciocínio que as estrelas Michelin de restaurantes madeirenses valorizam a produção regional, será certamente mais abrangente se tivermos em conta a boa restauração da Madeira e do Porto Santo, que mesmo não tendo aquele distintivo reconhecido internacionalmente, dá sempre preferência aos nossos produtos da terra e do mar ao longo do ano, por serem frescos e de inquestionável qualidade. Alguns até têm cultivo próprio e outros fazem questão de adquiri-los localmente, pois têm consciência da importância socioeconómica desse acto e da satisfação do comensal. Há que intensificar a presença dos produtos agrícolas, pecuários e da pesca madeirenses nos restaurantes da Região no decorrer das estações, pois a genuinidade da nossa gastronomia só será assegurada se continuarmos a utilizar o que é nosso, conjugada com o saber-fazer dos cozinheiros e a arte de bem servir.

Até porque um dos filões que deve ser aproveitado sem qualquer hesitação, é o do uso do que é de cá nas cozinhas dos restaurantes e porque não dizê-lo de todas as casas, com ganhos económicos evidentes e uma paisagem cultural pujante (leia-se, de poios com gente)!

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publicado às 15:27

Registar para memória futura

por Agricultando, em 29.01.17

Este texto foi publicado no dia 29 de Janeiro de 2017, no Diário de Notícias.

Seis anos depois do primeiro texto da segunda série do "Agricultando" dedicada à agricultura e à gastronomia na vertente da hotelaria e restauração, é chegado o momento de fechar este ciclo. Ao fim de 72 artigos iniciados em Janeiro de 2011, quero continuar a escrever mensalmente neste espaço sobre agricultura, mas sem a obrigatoriedade de indicar sempre um restaurante da Região. Não quer dizer que tenha abrangido todas as casas que merecessem um destaque nesta página, pois ser-me-ia impossível fazê-lo. Contudo, entendo que é altura de encetar a terceira série de textos do "Agricultando", recordando que a primeira série tornou-se livro em Março de 2011, onde estão compilados 71 textos sobre Agricultura madeirense que foram publicados na então revista do Diário de Notícias da Madeira entre 9 de Setembro de 2007 e 30 de Maio de 2010. A defesa persistente pelos produtos da terra desde que tenham frescura e qualidade, a importância da nossa paisagem agrícola, a indústria agro-alimentar local, um estabelecimento comercial que dê primazia ao que é de cá, um livro técnico ou generalista sobre o "engenho e arte" do cultivo do solo estará sempre presente. Porque apesar da pequena dimensão da Madeira e do Porto Santo e das conhecidas limitações específicas da nossa agricultura, ainda há muito por registar para memória futura.

Assim, o escrito de hoje é de balanço dos 72 meses anteriores.

Ao longo do tempo caracterizei os concelhos de Câmara de Lobos, Machico, Ponta do Sol, Porto Moniz, Porto Santo, Santana, Santa Cruz e São Vicente. Sublinhei o interesse de comprarmos os produtos agrícolas locais para reduzir a "pegada ecológica" e contribuir para a economia rural. Os certames agrícolas e o seu valor na promoção dos hortofrutícolas e suas utilizações na gastronomia. O trabalho conjunto da Associação de Agricultores da Madeira e a Universidade da Madeira no âmbito do Germobanco Agrícola da Madeira, onde se tem recuperado, conservado e caracterizado espécies agrícolas como o trigo, a batata doce, o milho, o feijão, a fava, a ervilha, a cebola e as variedades regionais de pêros e maçãs, a cereja, o figo, entre outras. A frescura e a inegável qualidade dos produtos agrícolas de cá que tornam os pratos servidos na restauração mais genuínos e apetecíveis, quer para o residente, quer para o visitante. A necessidade que alguns restaurantes têm, de possuir produções próprias e de adquirir localmente aquilo que faz falta na cozinha. A escolha inteligente de utilizar os produtos da época, diversificando assim no decorrer dos meses a oferta de iguarias. A ruralidade que o Funchal ainda apresenta nos jardins das casas e nos terrenos cultivados com hortícolas, bananeiras ou pomares, nas hortas urbanas e o seu contributo para a subsistência de muitas famílias e o papel terapêutico que proporcionam aos seus utilizadores. O alerta que a manutenção da paisagem agrícola madeirense passa pelo consumo dos produtos agrícolas locais que se sucedem ciclicamente no curso das estações. A preferência pelo que é regional fixa as populações rurais e dinamiza a economia, criando riqueza entre nós, na agricultura e noutros sectores, como é o caso de alguns exemplos da hotelaria e restauração regionais. As referências para os Anos Internacionais da Agricultura Familiar em 2014, dos Solos em 2015 e das Leguminosas em 2016, promovidos pela FAO, a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação. A candidatura das "Levadas da Madeira" a Património Mundial e a pertinência de incluir os poios passando para algo mais abrangente e que fosse denominada de "Levadas e Poios da Madeira", pois as levadas não existiriam sem os poios e os poios não sobreviveriam sem a água das levadas. O Observatório da Paisagem da Madeira que deverá ser mais pluridisciplinar que as instituições fundadoras, devendo incluir outros parceiros como a Região da Madeira da Ordem dos Engenheiros, Associações representativas dos agricultores e jovens agricultores, Secretaria Regional de Agricultura e Pescas através da Direcção Regional de Agricultura. Os livros "O Natal na Madeira" do Pe. Manuel Juvenal Pita Ferreira, "Gastronomia Tradicional da Madeira e do Porto Santo" publicado pela então Direcção Regional dos Assuntos Culturais, "Memórias da Maria Castanha" e "Maria Castanha – Outras Memórias" de Jorge Lage, "Sabores – Receitas Tradicionais Madeirenses" e "Maravilhas da Gastronomia Madeirense" da Academia Madeirense das Carnes/Confraria Gastronómica da Madeira, "Provérbios Agrícolas Portugueses" de Paulo Patrício Brum Amaral e "Apontamentos de Etnografia Madeirense (São Jorge e Norte da Ilha)" de António Marques da Silva, que estão ligados à agricultura e à gastronomia e que merecem uma leitura cuidada.

Entre Janeiro de 2011 e Dezembro de 2016 trouxe a esta rubrica seis dezenas de restaurantes, sendo que um terço está situado no concelho do Funchal e que 15 encontram-se localizados na costa norte, sem esquecer os quatro estabelecimentos da Ilha Dourada. Alguns fecharam como consequência dos anos economicamente difíceis, quer por via do aumento dos impostos, quer pela diminuição do poder de compra dos clientes que deixaram de comer fora ou que o fizeram menos vezes. Em todas as casas, constatei a relevância que davam aos produtos frescos, por essa ser uma das características essenciais para a confecção de um bom prato e parte do segredo do sucesso comercial. Como curiosidade, refira-se que só abordava o proprietário ou o gerente no final do repasto para pedir a indispensável autorização de publicação e recolha de informações sobre o restaurante, evitando dessa forma que estes pudessem ficar condicionados se me apresentasse antes da refeição. Durante este tempo, apenas tive duas recusas de não publicação, o que confesso, me deixou estupefacto já que se tratava de uma excelente oportunidade de divulgação desses restaurantes.

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publicado às 16:40

Relembrar os saberes da castanha

por Agricultando, em 25.12.16

Este texto foi publicado no dia 25 de Dezembro de 2016, no Diário de Notícias.

O registo do saber, seja qual for a área, é fundamental para a compreensão do passado no presente e no porvir. Na agricultura, os conhecimentos empíricos eram transmitidos oralmente de pai para filho, até porque muitos eram analfabetos e desse modo perpetuavam no tempo o saber-fazer. Esses ensinamentos da arte de cultivar resultavam de várias gerações que tão bem conheciam as condições geográficas e climáticas locais, a exposição solar, as fases da lua e a sua influência nas plantas, as variedades mais produtivas e de maior qualidade, entre outros. Contudo, as memórias agrícolas de há 60, 70 ou mais anos que não estão anotadas em livro, perdem-se irremediavelmente pelo decurso do ciclo da vida. São os seniores que andam pela casa dos 70, 80, 90 anos ou de maior idade, que são autênticas bibliotecas ambulantes merecedoras de serem ouvidas por quem tenha curiosidade, gosto e interesse pelas coisas da terra. O Dr. Jorge Lage, distinto transmontano defensor e incansável entusiasta da castanha e do castanheiro tem sido ao longo dos mais de 16 anos um exemplo do que deve ser feito no âmbito da recolha etnográfica e etnolinguística daquela cultura. Em 2001, lançou "A Castanha – Saberes e Sabores" que foi editado três vezes e encontra-se esgotado, seguido de "Castanea – Uma dádiva dos deuses" de 2005 com duas edições, "Memórias da Maria Castanha" de 2013 e em Outubro de 2016, a sua última obra que encerra um ciclo sobre a memória imaterial castanhícola portuguesa, "Maria Castanha – Outras Memórias".

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Direitos Reservados

"Maria Castanha – Outras Memórias" é a continuação do estudo iniciado em "Memórias da Maria Castanha". Nas 315 páginas divididas por 15 capítulos, o autor analisa minuciosamente algumas memórias da castanha, variedades, conservação, a castanha na alimentação, transformação, comercialização, a castanha na literatura, jogos e brinquedos com o fruto, saberes, castanheiros monumentais, toponímia, heráldica e brasões autárquicos, provérbios e ditos populares, expressões e vocabulário da castanha e do castanheiro, percorrendo de lés a lés o Continente, Açores e Madeira. Para aguçar o apetite por este livro, aqui ficam algumas notas. A subsistência de muitos povos da Europa era obtida pelo consumo de castanha, cozidas ou assadas ou ainda pelo pão de castanha. Calcula-se que existam 234 variedades de castanha em Portugal, sendo que às 193 que foram inventariadas na publicação de 2013, adicionaram-se 41 novas cultivares. Na conservação que difere consoante a zona geográfica, na Madeira, as castanhas eram secadas ao ar livre, em caniços de canavieira ou em pequenas casas, colocadas a dois metros de altura, fazendo-se grandes braseiros e com lume mais moderado, respectivamente. Conhecida antigamente como o alimento dos pobres, a castanha seca era utilizada para a confecção de sopas, pratos e doces, ficando de molho de um dia para outro para facilitar a cozedura. Na transformação, menciona-se o Centro de Processamento da Castanha e a Curralpão da freguesia do Curral das Freiras, onde no primeiro se procede à calibragem e à esterilização e no segundo tem lugar a produção de pão, broa e bolo de castanha. Quanto à comercialização, 90 por cento da castanha portuguesa é exportada numa produção estimada na ordem das 45.000 toneladas, tendo as Feiras e Festas da Castanha que se realizam pelo país (a Festa da Castanha do Curral das Freiras é a mais antiga), contribuído para a valorização do fruto. No capítulo da literatura, entre lendas, contos e adivinhas, no que concerne ao cancioneiro popular, lá está a quadra de uma canção ("A Velha Gaiteira") do Rancho Folclórico da Casa do Povo do Curral das Freiras: “Freguesia do Curral/Rodeada de montanhas/Ela é muito bonita/É a terra das castanhas”. Dos jogos com o fruto indicam-se dez novos aos 20 referidos nas duas publicações precedentes. Nos saberes, um subcapítulo é dedicado ao Arquipélago da Madeira, onde é citado o insigne Agrónomo Joaquim Vieira Natividade e o seu "Plano de Cultura, Valorização, Defesa e Reconstituição dos Soutos Portugueses" de 1944, em que se previa o repovoamento de 50.000 hectares de castanheiros em todo o país e o recurso à enxertia, que até então era praticamente inexistente na Região. O Castanheiro do Campanário que se localizava no sítio da Achada daquela freguesia do concelho da Ribeira Brava, é um dos castanheiros monumentais mortos e referenciados, e que existiu até à primeira metade do século passado. Na toponímia, actualizou-se para mais de um milhar de topónimos em Portugal derivados das palavras "castanea" e "souto", comprovando-se assim o valor desta cultura. Complementa-se a informação heráldica e dos brasões de freguesias cujas designações são relativas à castanha e ao castanheiro. "A castanha em Agosto ferve e em Setembro bebe" que se encontra nos provérbios e ditos populares, demonstra que a sabedoria popular reconhece que em Agosto a castanha precisa de calor e em Setembro de chuva. Nas expressões e a título de curiosidade, o significado de "chuva das castanhas" que se atribui à chuva miudinha que cai no tempo das castanhas, terminando este "Maria Castanha – Outras Memórias" com o vocabulário associado ao fruto. Em suma, e como diz o escritor Barroso da Fonte no posfácio “… essas obras [aludindo aos quatro livros do Dr. Jorge Lage] servem de roteiro do continente e ilhas onde o castanheiro predomina”. Por isso, se é apreciador ou produtor de castanhas, recomendo vivamente a aquisição desta publicação devendo contactar para o efeito a Livraria Minho de Braga (telefone 253271152 ou pelo email lminho@livrariaminho.pt) ou a Livraria Académica (telefone 222005988) no Porto.

E porque hoje é Natal, caro leitor, endereço-lhe os votos de Boas Festas e um feliz 2017 sempre na companhia dos nossos produtos da terra!

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publicado às 16:23

Um olhar atento sobre a paisagem madeirense

por Agricultando, em 27.11.16

Este texto foi publicado no dia 27 de Novembro de 2016, no Diário de Notícias.

No início de Outubro foi divulgado pelas páginas do Diário de Notícias da Madeira, que a Madeira terá um Observatório da Paisagem, numa louvável iniciativa da Delegação da Madeira da Ordem dos Arquitectos, Universidade da Madeira (UMa) e a Associação Insular de Geografia (AIG). Avançou-se também que o Observatório de carácter consultivo perante o poder executivo seria lançado ainda este ano, com o intuito de analisar a paisagem cultural e a sua conservação. Por outro lado, este organismo procurará informar os responsáveis políticos para melhor decidirem acerca da paisagem insular que é relevante para a principal actividade económica da Região, o Turismo. É notório que nas últimas três décadas, resultante principalmente das obras públicas realizadas, em especial dos acessos rodoviários, a nossa paisagem modificou-se substancialmente. Por conseguinte, há que reflectir e agir sobre o que se quer para o tempo que há-de vir. A comissão instaladora do referido Observatório é composta por representantes da Delegação da Madeira da Ordem dos Arquitectos, UMa, AIG e da Secretaria Regional do Ambiente e dos Recursos Naturais, entidade governamental que tem dado apoio para a sua criação.

Ora, é sabido que a paisagem cultural madeirense caracteriza-se sobretudo pelos poios [regionalismo para socalcos] agricultados, quer na costa sul, quer na costa norte da Madeira, e bem assim pelos muros de pedra sobrepostos do Porto Santo. Como exemplos, temos a Madalena do Mar e os seus bananais que escalam a encosta, as vinhas do Estreito de Câmara de Lobos, as hortas que predominam em Santana, o Seixal e os seus vinhedos, as vinhas "Caracol" e "Listrão" da Ilha Dourada. É evidente que a nossa terra tem mais lugares que são igualmente dignos da nossa contemplação, mas procurei relembrar aqui algumas das paisagens consideradas singulares em Portugal e no mundo. Por isso, seria de todo em todo oportuno que outras instituições como a Região da Madeira da Ordem dos Engenheiros (nomeadamente os Colégios Regionais Agronómica e Civil), as Associações representativas locais dos agricultores e jovens agricultores e a Secretaria Regional de Agricultura e Pescas através da Direcção Regional de Agricultura fossem parceiros do Observatório da Paisagem da Madeira. A concretizar-se este alargamento, o órgão consultivo seria certamente mais multidisciplinar, com o contributo de quem conhece o campo, isto é, o meio rural, na sua vertente genética (o vasto património de culturas hortofrutícolas e flores de climas tropical, subtropical e temperado), edificada (os poios, as levadas e os palheiros), social, entre outras.

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publicado às 16:14

Notas sobre o viver madeirense de outrora

por Agricultando, em 30.10.16

Este texto foi publicado no dia 30 de Outubro de 2016, no Diário de Notícias. Ao contrário do que sucedia antes, o Agricultando surge agora incluído na edição de domingo do DN, já que desde 16 de Outubro a revista Mais deixou de existir.

Lançado no dia 22 de Setembro no auditório da Casa-Museu Frederico de Freitas, no Funchal, "Apontamentos de Etnografia Madeirense (São Jorge e Norte da Ilha)" de António Marques da Silva resulta de uma compilação de textos que foram publicados primeiramente no Mensário das Casas do Povo e do Jornal da Madeira entre 1950 e 1963, e que agora foram reeditados pelo Serviço de Publicações da Direcção Regional da Cultura da Secretaria Regional de Economia, Turismo e Cultura. O autor apesar de ter nascido em Benquerença (Beira Baixa), em 1900, cresceu em Vila de Sarzedas pertencente ao concelho de Castelo Branco, tendo frequentado o Liceu albicastrense onde concluiu o Curso da Escola Normal com 17 valores. Iniciou a sua carreira na Escola Central de Castelo Branco e depois para ficar como efectivo, concorreu para a Madeira, tendo sido colocado em São Jorge, onde leccionou o ensino primário entre 1921 e 1933. As 174 páginas desta obra incluída na colecção "Cadernos Madeirenses" percorrem as vivências e expressões populares, os usos e costumes, a arquitectura das casas rurais, as indústrias caseiras como o bordado e a obra de verga (vime), a agricultura e os seus principais produtos utilizados para o sustento e até os comportamentos principalmente da população da freguesia de São Jorge nas décadas de 20 e 30 do século passado. Estes apontamentos com ilustrações e fotografias dos filhos Jorge Marques da Silva e António Ribeiro Marques da Silva, respectivamente, bem como do acervo da Photographia Museu "Vicentes" revelam o que era a vida no campo há quase cem anos, neles podendo entender-se o quão difícil eram aqueles dias de "luta heróica" como António Marques da Silva chega a intitular num dos seus escritos.

Ao folhearmos o livro, verificamos que o autor descreve a paisagem madeirense de uma forma realista ao dizer que “(...) nem sempre [se] vê o que fica por trás da nota de frescura e beleza que [se] saboreia: o trabalho do agricultor, penoso e aturado, como o dos escravos, nos tempos longínquos da colonização”. Sobre os poios [regionalismo para socalcos] acrescenta que “(...) Só quem conhece a topografia da ilha pode fazer uma ideia exacta do perigo a que está exposto este incansável lutador, apropriando para a cultura escarpas vertiginosas onde finca os referidos poios, sobranceiros, muitas vezes, a alcantis que metem pavor”, fazendo lembrar as também sábias palavras de Joaquim Vieira Natividade na obra "Madeira – A Epopeia Rural" de 1953. No VI capítulo, "Mesa de Pobres", mencionam-se os produtos agrícolas que todos consumiam. São o caso do milho, a semilha [regionalismo para batata] e a batata (doce), o pão (amassado na "Festa" [regionalismo para Natal] e noutras festas religiosas ou familiares), o inhame e a norça. Se bem que a alimentação das gentes rurais de outrora fosse limitada, havia momentos em que se tinha mais variedade. A apanha de lapas e caramujos, a matança do porco pelo Natal, a "sopa de panela" com couve cozida com gordura ou nacos de toucinho, derramando-se de seguida em cima de uma pratada com pão, as sopas de tomate e cebola, de abóbora, de "boganga" [regionalismo para chila], de castanha, a açorda madeirense, a espetada acompanhada de vinho seco. E porque as "gulodices" têm sempre lugar em dias de festejo, alude-se aos bolos de família ou preto, de "Sabóia" amarelo e fofo como o pão-de-ló, as broas e as rosquilhas, o bolo de mel que combinam bem com um copo de vinho, de licor ou de Madeira. Numa frase, não obstante a escassez de alimentos ao longo do ano, existiam épocas festivas que por mais que a mesa fosse humilde, transformava-se em algo mais substancial e mais apetecível.

Os "Apontamentos de Etnografia Madeirense (São Jorge e Norte da Ilha)" terminam com um artigo "Prelúdios do Natal" por ser a festividade “(...) que mais sensibiliza a alma religiosa do madeirense (...)”, e que por estar a aproximar-se, quem deste "Agricultando" se recordar, poderá ser uma excelente sugestão para um presente!

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