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Uma herança com 600 anos de história

por Agricultando, em 28.01.18

Este texto foi publicado no dia 28 de Janeiro de 2018, no Diário de Notícias.

A Comissão Europeia escolheu 2018 como o Ano Europeu do Património Cultural (AEPC) a fim de promover a diversidade e o diálogo interculturais e da coesão social, bem como despertar o interesse para a importância do património no desenvolvimento social e económico e nas relações externas da União Europeia, motivando os cidadãos para os valores comuns europeus. Ao longo do ano terão lugar diversas iniciativas de índole europeia, nacional, regional e local, no sentido de envolver as populações, as organizações, as entidades públicas e privadas, para uma maior visibilidade da cultura e do património, a sua importância e o seu carácter transversal em todos sectores da sociedade. Até porque o património cultural está nas cidades, nas vilas, nas freguesias, nos sítios, nas paisagens, mas também na literatura, nas artes, nos objectos, nas profissões tradicionais, na gastronomia, entre outros. Dos vários objectivos específicos do AEPC disponíveis na página de internet institucional elaborada pela Direcção Geral do Património Cultural, destaco os seguintes: realçar o contributo positivo do património cultural para a sociedade e para economia, promover estratégias de desenvolvimento local na perspectiva da exploração do potencial do património cultural através da promoção do turismo cultural sustentável e sensibilizar para a importância do património cultural europeu através da educação, visando em especial os jovens e as comunidades locais.

No que respeita ao património cultural regional associado à agricultura e ao meio rural, nunca é demais recordar os poios [regionalismo para socalcos agrícolas], verdadeira obra de "engenho e arte" criada pelos nossos antepassados com o propósito maior de ter terra para dali tirar o seu sustento. As culturas agrícolas de clima tropical, subtropical e temperado que foram introduzidas no decorrer dos tempos e que se distinguem por serem consideradas variedades regionais ou tidas como tais, os usos e costumes, os certames de promoção dos produtos agrícolas regionais são do mesmo modo parte desse todo que se designa de património cultural. Em tudo isto assenta muito do nosso passado, do nosso conhecimento oral e escrito, do saber de experiência feito, em suma, da nossa identidade como madeirenses. Num tempo em que se começa a celebrar os seis séculos da descoberta das Ilhas do Porto Santo e da Madeira, o AEPC surge no momento certo, pois parece-me que este riquíssimo património agrícola e rural, embora omnipresente, acaba por ser ignorado algumas vezes na promoção da Madeira como região turística. Costumo dizer que a Região não tem só a Laurissilva e o mar, pois entre um e outro, há poios com gente dentro, uma herança com 600 anos de história, que merece ser melhor (re)conhecida por nós, que aqui vivemos e por quem nos visita. É igualmente indispensável insistir na ideia que as levadas tão bem divulgadas por esse mundo fora, surgiram, não com o mero intuito de o homem percorrê-las e admirar as paisagens, mas para que a água abundante na costa norte da Madeira chegasse aos poios da costa sul, onde aquele precioso líquido escasseava, tornando-os assim produtivos e com um verde agrícola tão apreciado. É por estas razões que as levadas e os poios são e serão sempre indissociáveis.

Além disso, os principais produtos espicaçam a curiosidade dos forasteiros, pois a maioria praticamente só conhece-os das prateleiras dos supermercados. A banana, a cana-de-açúcar, a anona, o maracujá, o abacate, a batata-doce, o inhame, e os amanhos culturais inerentes são alguns exemplos elucidativos do nosso património cultural agrícola. Saibamos preservá-lo para os vindouros e mostrá-lo aos visitantes, o quanto é valioso, diverso e singular.

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publicado às 16:37


Uma resolução para 2018

por Agricultando, em 01.01.18

Este texto foi excepcionalmente publicado no dia 1 de Janeiro de 2018, no Diário de Notícias. O artigo era para ter sido publicado a 31 de Dezembro de 2017, mas por decisão da Direcção do DN Madeira, a edição daquele dia foi dedicada ao balanço do ano, não tendo havido espaço para incluir o Agricultando.

 

No primeiro dia deste ‘bebé’ 2018 é tempo de olhar para o futuro. É usual nesta altura do ano termos resoluções de ano novo, traçando um ou mais objectivos, um rumo para os 12 novos meses que se avizinham, sempre na perspectiva de melhorarmos algo. Pois bem, o "Agricultando" de hoje sugere uma resolução em prol da Agricultura madeirense que está ao alcance de si, caro leitor, da hotelaria e restauração e das instituições públicas e privadas como creches, jardins-de-infância, escolas, lares, hospitais, entre outras, que precisam de comprar hortofrutícolas para as refeições do dia-a-dia. De acordo com o "Inquérito à Estrutura das Explorações Agrícolas de 2016" (IEEA 2016) da Direcção Regional de Estatística da Madeira (DREM) publicado na sua página de internet em finais de Novembro, onde se inquiriu uma amostra das explorações agrícolas, a Região possui 4.893 hectares de Superfície Agrícola Utilizada (SAU) e 11.628 explorações, o que comparativamente ao IEEA 2013 representa uma diminuição de 369,2 hectares (5.262,2 hectares de SAU naquele ano) e de 440 explorações (12.068 explorações no total). Por outro lado, a área média por exploração agrícola é de 4.212 metros quadrados, valor um pouco abaixo do apurado em 2013, que foi de 4.365 metros quadrados. Como curiosidade, as explorações agrícolas contribuem com 9,3 por cento da área total do Arquipélago da Madeira. Quanto à utilização da terra arável, as culturas permanentes como as árvores de fruto e a vinha constituem 48,4 por cento (mais 3 por cento que 2013), seguida pelos 38,6 por cento (menos 3,3 por cento que 2013) ocupados pelas culturas temporárias como as hortícolas, a semilha [regionalismo para batata] e as flores e por 10,7 por cento (mais 0,8 por cento que 2009) de pastagens permanentes, sendo que a horta familiar "pesa" apenas 2,3 por cento da área da SAU. Se pretende saber mais sobre estes indicadores, pode ler e descarregar gratuitamente o IEEA 2016 na página de internet da DREM. Por agora, importa reter que a evolução destes números e percentagens deve-se a vários factores: construção de acessos rodoviários, habitações, edifícios, envelhecimento da população agrícola familiar, emigração, incidência de pragas e doenças de introdução recente e consequente abandono das culturas, dificuldade de escoamento das produções agrícolas regionais em detrimento das que são importadas.

Então, o que pode ser feito? O que é que está ao alcance de mim e do leitor para inverter-se a tendência negativa ou pelo menos, estacá-la? Pois bem, terá que ler a outra metade deste texto.

Já o disse noutras ocasiões, mas é preciso recordar e insistir nesta ideia. O território onde vivemos, embora belo e único, é pequeno, de orografia agreste, pese embora a actual rede de excelentes estradas atenue essa limitação. Ora, a resolução de ano novo que proponho é tão só comprarmos o dobro dos produtos agrícolas regionais em relação a 2017. Como é que faremos isso sem acrescentarmos quilos ao corpo e não gastarmos muito mais? Fácil, comprando muito menos produtos agrícolas importados. E quando digo importados, são todos os que provem de fora de Portugal. Quando vai ao supermercado, já reparou bem na origem das frutas e dos hortícolas? A maioria vem de Espanha, França, Argentina, Brasil, Chile, Costa Rica, Nova Zelândia, China, África do Sul, entre outros. Nada tenho contra o que vem de fora, mas o que discordo em absoluto, é darmos primazia aos produtos importados, muitas vezes com aparente bom aspecto, mas de qualidade e frescura inferiores, pois foram colhidos cedo demais para que pudessem ser transportados por centenas a milhares de quilómetros até ao destino final. Quantas vezes, atraídos pelo preço baixo tão apregoado pelas redes de supermercados, acaba por sair caro ao consumidor, pois metade vai para o caixote do lixo, e os produtos agrícolas regionais ficam por comercializar, desmotivando quem os cultivou. Ao darmos preferência aos hortofrutícolas de origem local, estamos a escoar a nossa produção, a incentivar o seu cultivo e a diversificação cultural, a fixar pessoas nos poios* (leia-se no campo), a criar riqueza por cá, que se reflectirá nos outros sectores de actividade económica. E um desses sectores é o turismo. Os hotéis e os restaurantes (felizmente há muitos bons exemplos) e os serviços públicos que fornecem refeições deveriam também adoptar esta resolução de ano novo pelas razões atrás apontadas. Pensará o leitor mais céptico que isto que escrevi é utópico e inexequível. Será mesmo assim? É claro que uma pessoa não mudará nada, mas centenas e porque não, milhares, farão toda a diferença. Vamos a isso!

Bom, resta-me desejar a continuação de Boas Festas e um excelente 2018 com os produtos da terra madeirenses à nossa mesa!

 

* - Regionalismo para socalco agrícola

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publicado às 16:21


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