Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Relembrar os saberes da castanha

por Agricultando, em 25.12.16

Este texto foi publicado no dia 25 de Dezembro de 2016, no Diário de Notícias.

O registo do saber, seja qual for a área, é fundamental para a compreensão do passado no presente e no porvir. Na agricultura, os conhecimentos empíricos eram transmitidos oralmente de pai para filho, até porque muitos eram analfabetos e desse modo perpetuavam no tempo o saber-fazer. Esses ensinamentos da arte de cultivar resultavam de várias gerações que tão bem conheciam as condições geográficas e climáticas locais, a exposição solar, as fases da lua e a sua influência nas plantas, as variedades mais produtivas e de maior qualidade, entre outros. Contudo, as memórias agrícolas de há 60, 70 ou mais anos que não estão anotadas em livro, perdem-se irremediavelmente pelo decurso do ciclo da vida. São os seniores que andam pela casa dos 70, 80, 90 anos ou de maior idade, que são autênticas bibliotecas ambulantes merecedoras de serem ouvidas por quem tenha curiosidade, gosto e interesse pelas coisas da terra. O Dr. Jorge Lage, distinto transmontano defensor e incansável entusiasta da castanha e do castanheiro tem sido ao longo dos mais de 16 anos um exemplo do que deve ser feito no âmbito da recolha etnográfica e etnolinguística daquela cultura. Em 2001, lançou "A Castanha – Saberes e Sabores" que foi editado três vezes e encontra-se esgotado, seguido de "Castanea – Uma dádiva dos deuses" de 2005 com duas edições, "Memórias da Maria Castanha" de 2013 e em Outubro de 2016, a sua última obra que encerra um ciclo sobre a memória imaterial castanhícola portuguesa, "Maria Castanha – Outras Memórias".

Maria_Castanha_Outras_Memorias_DR.jpg

Direitos Reservados

"Maria Castanha – Outras Memórias" é a continuação do estudo iniciado em "Memórias da Maria Castanha". Nas 315 páginas divididas por 15 capítulos, o autor analisa minuciosamente algumas memórias da castanha, variedades, conservação, a castanha na alimentação, transformação, comercialização, a castanha na literatura, jogos e brinquedos com o fruto, saberes, castanheiros monumentais, toponímia, heráldica e brasões autárquicos, provérbios e ditos populares, expressões e vocabulário da castanha e do castanheiro, percorrendo de lés a lés o Continente, Açores e Madeira. Para aguçar o apetite por este livro, aqui ficam algumas notas. A subsistência de muitos povos da Europa era obtida pelo consumo de castanha, cozidas ou assadas ou ainda pelo pão de castanha. Calcula-se que existam 234 variedades de castanha em Portugal, sendo que às 193 que foram inventariadas na publicação de 2013, adicionaram-se 41 novas cultivares. Na conservação que difere consoante a zona geográfica, na Madeira, as castanhas eram secadas ao ar livre, em caniços de canavieira ou em pequenas casas, colocadas a dois metros de altura, fazendo-se grandes braseiros e com lume mais moderado, respectivamente. Conhecida antigamente como o alimento dos pobres, a castanha seca era utilizada para a confecção de sopas, pratos e doces, ficando de molho de um dia para outro para facilitar a cozedura. Na transformação, menciona-se o Centro de Processamento da Castanha e a Curralpão da freguesia do Curral das Freiras, onde no primeiro se procede à calibragem e à esterilização e no segundo tem lugar a produção de pão, broa e bolo de castanha. Quanto à comercialização, 90 por cento da castanha portuguesa é exportada numa produção estimada na ordem das 45.000 toneladas, tendo as Feiras e Festas da Castanha que se realizam pelo país (a Festa da Castanha do Curral das Freiras é a mais antiga), contribuído para a valorização do fruto. No capítulo da literatura, entre lendas, contos e adivinhas, no que concerne ao cancioneiro popular, lá está a quadra de uma canção ("A Velha Gaiteira") do Rancho Folclórico da Casa do Povo do Curral das Freiras: “Freguesia do Curral/Rodeada de montanhas/Ela é muito bonita/É a terra das castanhas”. Dos jogos com o fruto indicam-se dez novos aos 20 referidos nas duas publicações precedentes. Nos saberes, um subcapítulo é dedicado ao Arquipélago da Madeira, onde é citado o insigne Agrónomo Joaquim Vieira Natividade e o seu "Plano de Cultura, Valorização, Defesa e Reconstituição dos Soutos Portugueses" de 1944, em que se previa o repovoamento de 50.000 hectares de castanheiros em todo o país e o recurso à enxertia, que até então era praticamente inexistente na Região. O Castanheiro do Campanário que se localizava no sítio da Achada daquela freguesia do concelho da Ribeira Brava, é um dos castanheiros monumentais mortos e referenciados, e que existiu até à primeira metade do século passado. Na toponímia, actualizou-se para mais de um milhar de topónimos em Portugal derivados das palavras "castanea" e "souto", comprovando-se assim o valor desta cultura. Complementa-se a informação heráldica e dos brasões de freguesias cujas designações são relativas à castanha e ao castanheiro. "A castanha em Agosto ferve e em Setembro bebe" que se encontra nos provérbios e ditos populares, demonstra que a sabedoria popular reconhece que em Agosto a castanha precisa de calor e em Setembro de chuva. Nas expressões e a título de curiosidade, o significado de "chuva das castanhas" que se atribui à chuva miudinha que cai no tempo das castanhas, terminando este "Maria Castanha – Outras Memórias" com o vocabulário associado ao fruto. Em suma, e como diz o escritor Barroso da Fonte no posfácio “… essas obras [aludindo aos quatro livros do Dr. Jorge Lage] servem de roteiro do continente e ilhas onde o castanheiro predomina”. Por isso, se é apreciador ou produtor de castanhas, recomendo vivamente a aquisição desta publicação devendo contactar para o efeito a Livraria Minho de Braga (telefone 253271152 ou pelo email lminho@livrariaminho.pt) ou a Livraria Académica (telefone 222005988) no Porto.

E porque hoje é Natal, caro leitor, endereço-lhe os votos de Boas Festas e um feliz 2017 sempre na companhia dos nossos produtos da terra!

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 16:23


Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

  Pesquisar no Blog

Calendário

Dezembro 2016

D S T Q Q S S
123
45678910
11121314151617
18192021222324
25262728293031


Posts mais comentados


Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2008
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2007
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D

Número de visitas | Desde 14 de Outubro de 2007

80.000 visitas alcançadas a 9.4.2015!