Este texto foi publicado no dia 7 de Fevereiro de 2010, na revista "Mais" do Diário de Notícias. O título deste "Agricultando" está entre comas, porque pertence a um livro de 1952 da autoria do Engenheiro Agrónomo António Teixeira de Sousa, editado pelo Grémio dos Exportadores de Frutas e Produtos Hortícolas da Ilha da Madeira. Este distinto madeirense nascido em 20 de Novembro de 1905, ocupou diversos cargos de relevo regional e nacional ao longo da sua vida. Foi Director Regional da Junta Nacional das Frutas na Madeira, Director dos Serviços Agronómicos nos Açores, Vice-Presidente das Juntas Nacionais das Frutas e do Vinho, Presidente da Comissão Administrativa dos Aproveitamentos Hidráulicos da Madeira, Presidente da Junta Geral do Distrito Autónomo do Funchal, entre outras destacadas incumbências. A obra aqui lembrada, foi o corolário de vários artigos então publicados num jornal mensal sobre agricultura regional denominado "Frutas da Madeira". O livro "Adubações" está dividido em quatro capítulos. O primeiro, "A população e a área agrícola da Ilha da Madeira" aborda a evolução da população desta Região desde o povoamento até à década de 50 do século passado e relaciona-a com a área agrícola nas suas diferentes zonas de vegetação, em função da localização a norte ou sul e da altitude. Como curiosidade, refira-se que naquela época, exportava-se “em larga escala”, a cebola e a semilha e, em menor quantidade, o tomate, a "vaginha" (feijão verde), a boganga (chila), o nabo e a cenoura. O segundo capítulo, "O solo agrícola" é dedicado à caracterização geológica, física e química do solo madeirense. O terceiro, "A fertilização da terra e os adubos" trata dos tipos de adubos orgânicos e químicos ou minerais que se complementam na sua acção de satisfazer as “exigências das culturas e a necessidade das terras”. O quarto capítulo, "As culturas e as adubações" dá indicações sobre aquela prática cultural, associando-a aos cultivos mais representativos da Madeira naquele tempo, como a bananeira, a anoneira, o abacateiro, a cerejeira, a pereira, a macieira, a semilha, a batata doce, a cebola, a couve, o nabo, a cenoura, o feijão, a ervilha, o tomate, o milho, o trigo, a cana-de-açúcar e a vinha. Ao longo da publicação "Adubações", é possível viajar no tempo, pois as fotografias ali incluídas, mostram paisagens agrícolas da nossa terra de há quase 60 anos, sendo um deleite para os olhos. Em jeito de conclusão, o Engenheiro Agrónomo António Teixeira de Sousa, afirma que “Para se obterem boas e abundantes colheitas, é indispensável adubar generosamente. As adubações orgânicas, ou estrumações, devem ser completadas com a calagem e as adubações químicas equilibradas”. Uma frase que apesar de ter sido escrita em 1952, continua bem actual. A finalizar, dedico este "Agricultando" à memória do meu Tio, Engenheiro Técnico Agrário José de Leça, falecido em 8 de Agosto de 2002 e que me deixou um exemplar deste precioso documento da Agricultura madeirense.
Este texto foi publicado no dia 24 de Janeiro de 2010, na revista "Mais" do Diário de Notícias. No domingo passado realizou-se na freguesia do Seixal, concelho do Porto Moniz, a Festa de Santo Antão, padroeiro daquela localidade. É tradição também, que hoje aconteça lá no sítio do Chão da Ribeira, o "panelo". Segundo um texto publicado no número 9 de Fevereiro de 2008 da "Revista Municipal Porto Moniz", disponível na página da internet daquela Autarquia, conta-se que tudo começou nos anos 40 do século XX, quando um grupo de rapazes, subia a pé àquele vale (não havia estrada), com a finalidade de cuidar dos animais e amanhar os terrenos. Resolveram então juntar umas semilhas, couves e carne de porco acompanhada de vinho e, cozeram os produtos da terra e a carne numa lata, a servir de panela. Surgia assim o "panelo" que tinha lugar durante vários dias de labuta rural. Como facilmente se depreende pelo parágrafo anterior, o "panelo" esteve outrora associado à necessidade das pessoas que trabalhavam no Chão da Ribeira, puderem confeccionar aí o almoço, para que o dia fosse bem aproveitado. Actualmente, perdeu-se esse propósito inicial, mas ganhou-se um arraial "rijo", que ocupa um fim-de-semana inteiro num ambiente predominantemente agrícola. Cabe nesta ocasião mencionar, que o saudoso Senhor Geremias de Sousa, como dirigente autárquico, na década de 90 do século transacto, popularizou e adaptou o "panelo", como é conhecido no presente. É curioso ver neste exemplo, como a agricultura e a gastronomia locais estão interligadas. Aqui, constata-se mais uma vez, que a autenticidade de um prato, ou melhor dizendo, deste evento, apenas é atingida na sua plenitude, quando se usam os produtos da terra e a receita original. É bom que os mesmos se preservem ao longo dos próximos tempos. Uma parte do Chão da Ribeira é Laurissilva, a floresta indígena classificada pela UNESCO, como Património Mundial e a outra é caracterizada por uma vertente agrícola muito vincada. Os terrenos são na sua maioria, cultivados com semilha, couve, batata doce, entre outras hortícolas e algumas fruteiras de clima temperado, havendo algumas áreas reservadas ao pastoreio de gado bovino. É caso para dizer, que a agricultura e a pecuária devidamente ordenadas "convivem" harmoniosamente com a floresta, complementando-se. Importa realçar igualmente, o património edificado, como são os palheiros e os poios armados com as paredes de pedra aparelhada. É importante, que na sua recuperação se mantenha a traça inicial, respeitando dessa maneira, o legado dos nossos antepassados, que utilizavam os materiais que ali existiam. Só desse modo, contribuir-se-á para a manutenção de uma das paisagens campestres mais genuínas da costa norte da Madeira.
Este texto foi publicado no dia 10 de Janeiro de 2010, na revista "Mais" do Diário de Notícias. O sítio da Caldeira, pertencente à freguesia e concelho de Câmara de Lobos foi e é uma zona agrícola de excelência. O "Elucidário Madeirense" do Pe. Fernando Augusto da Silva e Carlos Azevedo de Meneses, menciona mesmo que, “Câmara de Lobos foi um dos primeiros lugares da Madeira sujeitos a uma imediata exploração agrícola após a descoberta. (...) Várias pessoas de origem nobre tiveram muitas terras de sesmaria e ali instituíram seus vínculos e morgadios. Entre elas podemos citar João Afonso, companheiro de Zarco, e João Caldeira o Velho, que deu o nome ao sítio que ainda hoje se chama do Caldeira”. Naquela localidade, quem passa na via rápida e que não vá a conduzir, pode apreciar o rendilhado de parcelas agrícolas, que no decorrer das estações do ano, apresentam diferentes tonalidades, resultantes dos diferentes cultivos. As hortícolas como o feijão verde e maduro, o brócolo, a couve-flor, a couve repolho, a alface, o pepino, o tomate, a abóbora (tenra e madura) e a cana-de-açúcar são as culturas predominantes. A localização privilegiada e abrigada, bem como a excelente exposição solar do sítio da Caldeira, tornam esta área agrícola numa enorme estufa natural. Ali, o sol surge madrugador e despede-se tardiamente, o que vem favorecer a facilidade em agricultá-lo. Tira-se assim, partido económico da precocidade ou retardamento das hortenses, quando a oferta regional é escassa e a procura é imensa. Estima-se que a Caldeira tenha uma superfície total aproximada de 250.000 m2, ou seja, o equivalente a 25 campos de futebol. A maior fracção dos produtos atrás referidos, são escoados para o Funchal, quer para os Mercados dos Lavradores e da Penteada, quer para a hotelaria e restauração. Trata-se portanto, de uma zona agrícola, que é fornecedora de muitas hortícolas frescas que uma parte significativa da população madeirense consome. Ao longo dos tempos, tem-se verificado uma redução da porção agrícola em prol da construção de novas habitações. Este aspecto é legítimo, pois os seus proprietários e respectivas famílias têm todo o direito em edificar as suas moradias. Porém, é fundamental que essa construção seja moderada, sob pena de vir-se a perder no futuro, uma das paisagens rurais mais características da nossa Região.
Recebi este vídeo de vários amigos.
Vejam bem e digam lá, se a AGRICULTURA não é TUDO?
Este texto foi publicado no dia 27 de Dezembro de 2009, na revista "Mais" do Diário de Notícias. Este fruto também designado entre nós de tomate inglês, de formas oval a esférica, cor da casca vermelha ou amarela e polpa sumarenta amarelada a vermelha com muitas sementes, é característico do Natal madeirense. O seu aspecto e o colorido emprestam mesmo a esta época, quase que uma decoração natalícia natural. O tomateiro arbóreo, propaga-se com muita facilidade por semente ou estacaria e é frequente encontrá-lo isolado ou em plantações de pequena dimensão nos concelhos de Santana (freguesias do Arco de São Jorge, São Jorge e Santana) e Santa Cruz (Camacha). Todavia, esta espécie arbustiva adapta-se com facilidade em toda a Região, até aos 600 e 300 metros de altitude nas costas sul e norte, respectivamente, entrando em produção no segundo ano de vida. É uma planta rústica no que diz respeito às pragas e doenças, sendo que os afídeos ou "piolhos", o oídio ou "mangra" e a antracnose, são as enfermidades mais comuns. A colheita realiza-se entre os meses de Novembro e Março. No livro "Fruticultura Tropical – Espécies com frutos comestíveis" do Professor Engenheiro José Mendes Ferrão, aponta-se as zonas de altitude dos Andes que se prolongam desde o Peru até à Argentina, como a proveniência do tomateiro arbóreo ou "tamarillo" (tamarilho), como é denominado nos países de língua castelhana. Hoje em dia, está disseminado um pouco por todo o mundo, em especial nas regiões tropicais e subtropicais. A obra atrás mencionada, acrescenta que esta cultura é viável em locais de clima temperado, desde que não ocorram ali geadas, como é o caso do sul da Europa. Em Portugal além da Madeira, existem tomateiros arbóreos que vegetam em óptimas condições ao ar livre, no Jardim Tropical em Lisboa. O tomate arbóreo é consumido fresco ou transformado. Ao natural, corta-se o fruto em duas metades e com uma colher de sobremesa, come-se a polpa e as sementes. Se for talhado às rodelas, tem um efeito decorativo muito sugestivo, que pode ser usado no embelezamento de entradas, pratos principais ou sobremesas. Como derivado, pode ser bebido num refrescante sumo ou licor e degustado num "doce" (compota), pudim ou gelado. Noutras paragens e de acordo com a publicação do Professor Mendes Ferrão aqui citada, assam-se os frutos para retirar a casca, tal como se faz com os pimentos e nalguns lugares temperam-se com piripiri para serem servidos como acepipe ou tempero. A finalizar, caro leitor do "Agricultando", aproveito esta oportunidade, para desejar-lhe a continuação de Boas Festas e votos de um 2010 pleno de esperança!
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