Domingo, 15 de Novembro de 2009
A Agricultura e a Gastronomia regionais

Este texto foi publicado no dia 15 de Novembro de 2009, na revista "Mais" do Diário de Notícias. Habitualmente, o "Agricultando" aborda produtos ou zonas agrícolas peculiares da Madeira e do Porto Santo, mas o de hoje, debruça-se sobre a nossa Agricultura e Gastronomia. É reconhecido por todos que uma verdura ou fruta frescas, contribuem em grande parte para o sucesso da confecção de um prato. Essa frescura só é plenamente conseguida com as hortofrutícolas de cultivo local. Além disso, graças aos mil e um climas que a Região possui, permite-nos ter ao longo do ano produtos agrícolas de clima tropical, subtropical e temperado. Muitas vezes, nós consumidores, escolhemos o que vem de fora (leia-se importados), devido ao seu preço e aparência. Porém, também é frequente acontecer que muitas dessas hortícolas e frutícolas vão para o lixo, porque encontramos no seu interior podridões e danos causados pelo choque térmico, provocados por sucessivas entradas e saídas das câmaras frigoríficas desde o local de produção longínquo até à nossa mesa. Por isso, é importante sublinhar que, ao preferirmos os produtos agrícolas madeirenses, temos a garantia da sua frescura e qualidade insuperáveis a preços justos. Comprá-los, é preservar o património agrícola regional genético (as nossas variedades) e edificado (os poios, os palheiros, as levadas), bem como fixar as populações rurais com qualidade de vida. Nos últimos tempos, surgiu o conceito de soberania alimentar, que tem sido tema de conferências e debates. O Observatório dos Mercados Agrícolas e das Importações Agro-Alimentares (OMAIAA) realizou em 10 de Julho deste ano, no auditório da Ordem dos Engenheiros, em Lisboa, um seminário subordinado à "Qualidade, Segurança e Soberania Alimentar versus Défice da Balança de Pagamentos no Sector Agro-Alimentar". Na publicação que resume esse evento (disponível em http://www.observatorioagricola.pt/rubricas/ATT00317.pdf), define-se soberania alimentar como “o direito de cada país ou região de definir e aplicar as suas políticas agrícolas e alimentares, de decidir o que cultivar, o que comer e como comercializar, de produzir localmente, respeitando o território, e poder controlar os recursos naturais, como a água, as sementes e a terra”. Hoje, sabe-se que Portugal importa cerca de 75 por cento dos alimentos que come. A Região, também está dependente do exterior, pelo que, caro leitor, é crucial dar primazia aos produtos agrícolas locais de que necessita, pois assim estará a contribuir para a nossa autonomia alimentar. É indiscutível que os nossos produtos agrícolas que compõem o mosaico de cores em conjunto com os poios, constituem a inimitável paisagem rural madeirense, que é fotografada e filmada diariamente por milhares de turistas. O Turismo (restauração e hotelaria) deve apostar cada vez mais na sinergia Agricultura/Gastronomia regionais, visto que ambos os sectores são complementares e fazem a diferença junto do visitante. A nossa gastronomia diversa e genuína, só pode ser assegurada com os produtos da terra, pois apenas estes conferem o aroma e o sabor inigualáveis dos pratos típicos da Região. Em suma, é urgente comprar o que é nosso!    


NOTA MUSICAL: Mafalda Arnauth - "Diário" (2005)

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Domingo, 1 de Novembro de 2009
A noz

Este texto foi publicado no dia 1 de Novembro de 2009, na revista "Mais" do Diário de Notícias. Este fruto seco típico desta época do ano, não é nada mais nada menos do que uma semente. O "verdadeiro" fruto da nogueira é verde e não comestível. Quando está maduro no Outono, abre-se, deixando cair a semente chamada noz. Depois é submetida a uma secagem, com recurso a um tipo de "fumeiro", hábito antigo e enraizado entre nós, para que se obtenha as melhores características de paladar e textura, bem como uma boa conservação. A noz pode ser consumida em fresco ou transformada em bolo ou num reconfortante pudim. O nosso bolo de mel de cana tem na sua composição, este fruto inteiro no seu topo e triturado em bocadinhos no interior do mesmo. Hoje, dia de Todos-os-Santos, reza ainda a tradição do "Pão-por-Deus", em que as crianças com sacos de pano, andam de porta em porta pelas casas dos familiares e vizinhos, a pedir guloseimas e frutos secos (nozes incluídas). Noutras paragens, para além de ser uma árvore produtora de frutos, é igualmente aproveitada para a indústria madeireira, com aplicação no fabrico de móveis duradouros e de elevada qualidade. Na Madeira, esta espécie de crescimento lento tem as melhores condições de cultivo entre os 400 e os 1000 metros de altitude, encontrando-se distribuída um pouco por toda a parte. Os pés dispersos são predominantes em relação aos poucos pomares aqui existentes. Segundo o "Recenseamento Geral de Agricultura" de 1999, os concelhos mais representativos desta cultura são a Ribeira Brava (freguesia da Serra d’ Água), Funchal, Câmara de Lobos (Curral das Freiras), Ponta do Sol e São Vicente. Na Região, as variedades de noz mais apreciadas são as regionais do Curral e as introduzidas americanas "Hartley" e "Pedro", por terem bastante miolo, casca fina e serem muito saborosas. O bichado é a principal praga e a bacteriose e antracnose são as doenças mais comuns. A época de apanha acontece geralmente nos meses de Outubro e Novembro. A origem da nogueira está situada nas Montanhas dos Cárpatos, um conjunto montanhoso europeu imponente de 1500 km que atravessa a República Checa, a Eslováquia, a Polónia, a Hungria, a Ucrânia, a Roménia e a Sérvia. Outrora, esta espécie também foi encontrada espontaneamente nos Himalaias e na China. No presente, é cultivada em todas as zonas de clima temperado do mundo. De acordo com dados estatísticos de 2007 da FAO, o organismo das Nações Unidas para a agricultura e alimentação, a China lidera o grupo de países produtores deste fruto seco, seguida pelos Estados Unidos da América, Turquia, Irão, Ucrânia, México, França, Índia, Egipto, Roménia, Sérvia, entre outros.


NOTA MUSICAL: Amália - "Coração Independente" (2009)

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Domingo, 18 de Outubro de 2009
A pitanga

Este texto foi publicado no dia 18 de Outubro de 2009, na revista "Mais" do Diário de Notícias. Segundo a obra "Fruticultura Tropical – Espécies com frutos comestíveis" do Professor Engenheiro José Mendes Ferrão, esta planta é oriunda da América tropical, mais propriamente do Brasil. Aí menciona-se que, actualmente está dispersa pelas regiões tropicais e subtropicais de todo o mundo, bem como em zonas temperadas onde as geadas são pouco comuns. Como curiosidade, é referido que foram os portugueses que difundiram a pitangueira no Oriente. Apesar desta espécie ser conhecida desde longa data pelos madeirenses, desconhece-se quando é que foi introduzida na Região. O "Elucidário Madeirense" de 1940 do Pe. Fernando Augusto da Silva e Carlos Azevedo de Meneses, dá conta que esta pequena árvore era muito cultivada no Funchal. Ainda hoje, é frequente verem-se pitangueiras nos quintais das casas, em pés dispersos ou como sebe viva, pois estas além de produzirem frutos, têm uma vertente ornamental muito apreciada, especialmente na rebentação e floração. Na Madeira, encontra as melhores condições de frutificação até aos 280 metros de altitude na costa sul e 100 metros na encosta norte. Tradicionalmente, a pitangueira é propagada por semente, o que origina uma grande diversidade genética, não havendo por isso, uma garantia de ter-se um bom exemplar. Em finais da década de 90 do século passado, a Divisão de Fruticultura da Direcção Regional de Agricultura e Desenvolvimento Rural, seleccionou as melhores variedades deste fruto no que respeita à qualidade e produtividade, sendo possível adquirir lá, plantas enxertadas de inegável valor. Como consequência deste trabalho e do interesse por parte da indústria agro-alimentar, surgiram alguns pomares desta espécie. Em termos de fitossanidade, a praga mais importante é a mosca da fruta ou "bicho" da fruta, não havendo registo de nenhuma doença que a afecte. A colheita decorre ao longo do ano, apresentando dois picos de produção na Primavera e no Outono. Existem duas variedades de pitanga, a "vermelha" e a "negra", em função da cor dos frutos maduros. Ao paladar, a primeira é ligeiramente mais ácida que a segunda, pelo que esta última é mais adequada para o consumo em fresco. A "vermelha" tem um grande potencial de transformação, obtendo-se derivados deliciosos como o "doce" (compota), gelado, pudim, entre outros. É possível produzir pasta de pitanga com recurso ao descaroçamento, congelando a polpa para utilização posterior, sem perda das suas características excepcionais de aroma, sabor e textura. Embora alguns hotéis e restaurantes já incluam este fruto ou o transformado nas suas ementas, é fundamental que muitos mais o façam, pois trata-se de um produto regional de excelência, que é desconhecido da maioria dos nossos turistas. Este e outros momentos gastronómicos, proporcionam ao visitante experiências e memórias, que não esquecerá e certamente desejará repeti-las.


NOTA MUSICAL: Brigada Victor Jara - "Ceia Louca" (2006)

publicado por Agricultando às 17:37
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Terça-feira, 13 de Outubro de 2009
8000 visitantes!

Na véspera do segundo ano de existência deste blogue, eis que se chega aos 8000 visitantes!

É evidente que há cada vez mais internautas a visitar este cantinho dedicado à Agricultura.

A todos, quero agradecer e desejar que este blogue continue a ser do vosso agrado.

Muito obrigado!

 



publicado por Agricultando às 20:58
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Domingo, 4 de Outubro de 2009
O mango

Este texto foi publicado no dia 4 de Outubro de 2009, na revista "Mais" do Diário de Notícias. No livro "A Aventura das Plantas e os Descobrimentos Portugueses" do Professor Engenheiro José Mendes Ferrão, indica-se o Oriente como a região nativa do mangueiro, numa área abrangida pela Índia, Birmânia e Malásia. Na Época dos Descobrimentos e segundo esta publicação, os portugueses levaram esta fruteira da Índia para as costas oriental e ocidental de África e para o Brasil. Cita-se também que a antiga colónia portuguesa de Goa, era considerada uma referência, quanto à diversidade e qualidade de variedades de mango. Ainda hoje em dia, a Índia é o principal produtor, sendo que esta cultura tropical, está distribuída em todo o mundo, em países díspares como o México, Brasil, Venezuela, Espanha, Israel, África do Sul, Paquistão, Filipinas, Austrália, entre outros. Em Portugal, é cultivado no Algarve e na Madeira. Na Região, o mangueiro tem as melhores condições de produção na costa sul, desde o litoral até aos 180 metros de altitude e na vertente norte, nas fajãs mais soalheiras até aos 50 metros de altitude. Existem variedades locais de mango provenientes de semente, normalmente muito saborosas, de tamanho pequeno e com fiapos (regionalismo sinónimo de fibras). Por outro lado, variedades introduzidas, como a "Tommy Atkins", "Osteen", "Rubro Brasil", "Rosa" e "Keitt", não têm fibras ou são escassas, apresentam aroma e sabor muito agradáveis, são sumarentas, têm calibres médio a grande e estão bem adaptadas às nossas condições climatéricas e de solo. Qualquer interessado, que as queira ter no seu pomar ou no seu quintal, pode recorrer à Divisão de Fruticultura da Direcção Regional de Agricultura e Desenvolvimento Rural, que presta o serviço de enxertia para esta espécie, no Verão. As pragas mais habituais são a mosca da fruta ou "bicho" da fruta e as cochonilhas e, as doenças mais comuns são o oídio ou "mangra", a antracnose e a bacteriose. Na Madeira, a apanha de mango ocorre de Setembro a Janeiro, consoante a localização geográfica, a altitude, as condições climáticas locais e a variedade. Ao descascar um bom fruto do pedúnculo para o ápice e cortando-o em fatias, é como se comesse um pudim natural, pois a polpa desfaz-se na boca. Pode apreciá-lo igualmente transformado num sumo ou batido fresco, num gelado refrescante, numa tentadora mousse ou a servir de cobertura num irresistível cheesecake. Noutras partes do globo, consome-se o mango verde com sal, pimenta e molho picante ou conservando-o por mais tempo como pickle. É certo e sabido que chegam à nossa terra, mangos importados por barco ou por avião. Porém, quem come um fruto regional de qualidade, apercebe-se de imediato que este é manifestamente melhor. Parte do segredo está na sua maturação, ou seja, é colhido quase maduro. Por isso, amigo leitor, aproveite esta época, compre mangos madeirenses e comprove.

 


NOTA MUSICAL: Madredeus - "O Espírito da Paz" (1994)

publicado por Agricultando às 17:04
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