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Um olhar atento sobre a paisagem madeirense

por Agricultando, em 27.11.16

Este texto foi publicado no dia 27 de Novembro de 2016, no Diário de Notícias.

No início de Outubro foi divulgado pelas páginas do Diário de Notícias da Madeira, que a Madeira terá um Observatório da Paisagem, numa louvável iniciativa da Delegação da Madeira da Ordem dos Arquitectos, Universidade da Madeira (UMa) e a Associação Insular de Geografia (AIG). Avançou-se também que o Observatório de carácter consultivo perante o poder executivo seria lançado ainda este ano, com o intuito de analisar a paisagem cultural e a sua conservação. Por outro lado, este organismo procurará informar os responsáveis políticos para melhor decidirem acerca da paisagem insular que é relevante para a principal actividade económica da Região, o Turismo. É notório que nas últimas três décadas, resultante principalmente das obras públicas realizadas, em especial dos acessos rodoviários, a nossa paisagem modificou-se substancialmente. Por conseguinte, há que reflectir e agir sobre o que se quer para o tempo que há-de vir. A comissão instaladora do referido Observatório é composta por representantes da Delegação da Madeira da Ordem dos Arquitectos, UMa, AIG e da Secretaria Regional do Ambiente e dos Recursos Naturais, entidade governamental que tem dado apoio para a sua criação.

Ora, é sabido que a paisagem cultural madeirense caracteriza-se sobretudo pelos poios [regionalismo para socalcos] agricultados, quer na costa sul, quer na costa norte da Madeira, e bem assim pelos muros de pedra sobrepostos do Porto Santo. Como exemplos, temos a Madalena do Mar e os seus bananais que escalam a encosta, as vinhas do Estreito de Câmara de Lobos, as hortas que predominam em Santana, o Seixal e os seus vinhedos, as vinhas "Caracol" e "Listrão" da Ilha Dourada. É evidente que a nossa terra tem mais lugares que são igualmente dignos da nossa contemplação, mas procurei relembrar aqui algumas das paisagens consideradas singulares em Portugal e no mundo. Por isso, seria de todo em todo oportuno que outras instituições como a Região da Madeira da Ordem dos Engenheiros (nomeadamente os Colégios Regionais Agronómica e Civil), as Associações representativas locais dos agricultores e jovens agricultores e a Secretaria Regional de Agricultura e Pescas através da Direcção Regional de Agricultura fossem parceiros do Observatório da Paisagem da Madeira. A concretizar-se este alargamento, o órgão consultivo seria certamente mais multidisciplinar, com o contributo de quem conhece o campo, isto é, o meio rural, na sua vertente genética (o vasto património de culturas hortofrutícolas e flores de climas tropical, subtropical e temperado), edificada (os poios, as levadas e os palheiros), social, entre outras.

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publicado às 16:14

Notas sobre o viver madeirense de outrora

por Agricultando, em 30.10.16

Este texto foi publicado no dia 30 de Outubro de 2016, no Diário de Notícias. Ao contrário do que sucedia antes, o Agricultando surge agora incluído na edição de domingo do DN, já que desde 16 de Outubro a revista Mais deixou de existir.

Lançado no dia 22 de Setembro no auditório da Casa-Museu Frederico de Freitas, no Funchal, "Apontamentos de Etnografia Madeirense (São Jorge e Norte da Ilha)" de António Marques da Silva resulta de uma compilação de textos que foram publicados primeiramente no Mensário das Casas do Povo e do Jornal da Madeira entre 1950 e 1963, e que agora foram reeditados pelo Serviço de Publicações da Direcção Regional da Cultura da Secretaria Regional de Economia, Turismo e Cultura. O autor apesar de ter nascido em Benquerença (Beira Baixa), em 1900, cresceu em Vila de Sarzedas pertencente ao concelho de Castelo Branco, tendo frequentado o Liceu albicastrense onde concluiu o Curso da Escola Normal com 17 valores. Iniciou a sua carreira na Escola Central de Castelo Branco e depois para ficar como efectivo, concorreu para a Madeira, tendo sido colocado em São Jorge, onde leccionou o ensino primário entre 1921 e 1933. As 174 páginas desta obra incluída na colecção "Cadernos Madeirenses" percorrem as vivências e expressões populares, os usos e costumes, a arquitectura das casas rurais, as indústrias caseiras como o bordado e a obra de verga (vime), a agricultura e os seus principais produtos utilizados para o sustento e até os comportamentos principalmente da população da freguesia de São Jorge nas décadas de 20 e 30 do século passado. Estes apontamentos com ilustrações e fotografias dos filhos Jorge Marques da Silva e António Ribeiro Marques da Silva, respectivamente, bem como do acervo da Photographia Museu "Vicentes" revelam o que era a vida no campo há quase cem anos, neles podendo entender-se o quão difícil eram aqueles dias de "luta heróica" como António Marques da Silva chega a intitular num dos seus escritos.

Ao folhearmos o livro, verificamos que o autor descreve a paisagem madeirense de uma forma realista ao dizer que “(...) nem sempre [se] vê o que fica por trás da nota de frescura e beleza que [se] saboreia: o trabalho do agricultor, penoso e aturado, como o dos escravos, nos tempos longínquos da colonização”. Sobre os poios [regionalismo para socalcos] acrescenta que “(...) Só quem conhece a topografia da ilha pode fazer uma ideia exacta do perigo a que está exposto este incansável lutador, apropriando para a cultura escarpas vertiginosas onde finca os referidos poios, sobranceiros, muitas vezes, a alcantis que metem pavor”, fazendo lembrar as também sábias palavras de Joaquim Vieira Natividade na obra "Madeira – A Epopeia Rural" de 1953. No VI capítulo, "Mesa de Pobres", mencionam-se os produtos agrícolas que todos consumiam. São o caso do milho, a semilha [regionalismo para batata] e a batata (doce), o pão (amassado na "Festa" [regionalismo para Natal] e noutras festas religiosas ou familiares), o inhame e a norça. Se bem que a alimentação das gentes rurais de outrora fosse limitada, havia momentos em que se tinha mais variedade. A apanha de lapas e caramujos, a matança do porco pelo Natal, a "sopa de panela" com couve cozida com gordura ou nacos de toucinho, derramando-se de seguida em cima de uma pratada com pão, as sopas de tomate e cebola, de abóbora, de "boganga" [regionalismo para chila], de castanha, a açorda madeirense, a espetada acompanhada de vinho seco. E porque as "gulodices" têm sempre lugar em dias de festejo, alude-se aos bolos de família ou preto, de "Sabóia" amarelo e fofo como o pão-de-ló, as broas e as rosquilhas, o bolo de mel que combinam bem com um copo de vinho, de licor ou de Madeira. Numa frase, não obstante a escassez de alimentos ao longo do ano, existiam épocas festivas que por mais que a mesa fosse humilde, transformava-se em algo mais substancial e mais apetecível.

Os "Apontamentos de Etnografia Madeirense (São Jorge e Norte da Ilha)" terminam com um artigo "Prelúdios do Natal" por ser a festividade “(...) que mais sensibiliza a alma religiosa do madeirense (...)”, e que por estar a aproximar-se, quem deste "Agricultando" se recordar, poderá ser uma excelente sugestão para um presente!

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publicado às 15:59

Valorizar o que nos é próximo!

por Agricultando, em 25.09.16

Este texto foi publicado no dia 25 de Setembro de 2016, na revista "Mais" do Diário de Notícias.

Num estudo levado a cabo pela Missão Continente e pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa apresentado no início do presente mês, constatou-se que cerca de 70 por cento dos portugueses alteraram os seus hábitos de consumo nos últimos anos marcados pela crise financeira e económica. No ano que se assinala o Ano Nacional do Combate ao Desperdício Alimentar declarado pela Assembleia da República, 77 por cento dos inquiridos exprimiram a sua preocupação em relação à comida que é deitada para o lixo e que se estima que em Portugal atinja um milhão de toneladas de alimentos por ano. Deste inquérito, importa reter que por ocasião das compras de produtos alimentares, os portugueses consideraram como critérios essenciais de escolha, a frescura e o preço justo com 86 por cento das respostas, o prazo de validade com 79 por cento e os produtos nacionais com 63 por cento. É caso para dizer que no momento onde se verifica um poder de compra mais comedido, dê-se importância a factores distintivos como o frescor e a procedência dos produtos, ou seja, as pessoas valorizam o que é local. Os resultados deste estudo indicam ainda que os consumidores portugueses escolhem mais os hipermercados (68 por cento), os supermercados próximos de casa (62 por cento), lojas especializadas (53 por cento) e grandes áreas comerciais (48 por cento), pela variedade da oferta. Todavia, as feiras e mercados, as compras directas ao produtor (como por exemplo os Mercados dos Agricultores dos Canhas e Prazeres), os mercados biológicos e as cooperativas começam a ter algum peso, bem como as compras pela internet com 10 por cento dos entrevistados a responder que o fazem com frequência. Seria oportuno que se realizasse uma nova inquirição daqui a cinco anos, pois os hábitos de consumo serão outros, com os pontos de venda directa ou quase directa a ganharem terreno certamente aos hipermercados e às grandes superfícies comerciais. Justamente porque o valor que se dá à frescura e à origem regional/nacional dos produtos alimentares, em especial os hortofrutícolas, deverá ser cada vez maior. Por outras palavras, a proximidade entre produtor e consumidor fará a diferença!

O Restaurante Casa de Pasto Justiniano (telefone: 291854559; com página no facebook) situado no Sítio do Chão da Ribeira, freguesia do Seixal, concelho do Porto Moniz iniciou a actividade a 4 de Fevereiro de 1987. O nome desta casa é também o nome do seu proprietário, António Justiniano Conceição Silva. Este espaço surgiu na altura que se extraía areão no Chão da Ribeira e se parava ali para petiscar e tomar um copo. A ementa é simples, porém genuína e caseira. A começar pelo quentinho bolo do caco com manteiga e alho, passando pelos pratos principais como a truta recheada, a espetada em pau de louro ou a galinha bêbeda cuja encomenda prévia é obrigatória e acabando com um pudim de maracujá ou uma fatia de cheesecake com cobertura de amora silvestre. Numa zona agrícola e florestal de excelência como é o Chão da Ribeira, os produtos agrícolas locais como a semilha* (de cultivo próprio), a couve, a batata doce, a cenoura, a cebola, o tomate, o pepino, entre outros são desde sempre usados neste restaurante. A sua qualidade torna-se indispensável para o resultado final das iguarias preparadas por quem sabe e tão apreciadas por quem as conhece ou quer conhecer.

 

* — regionalismo para batata

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publicado às 17:12

Agricultando há 9 anos!

por Agricultando, em 09.09.16

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Há 9 anos (9 de Setembro de 2007) o "Agricultando" nascia na revista do Diário de Notícias da Madeira.

"Pêro da Ponta do Pargo em festa" foi o título do primeiro artigo de um conjunto de 139 textos publicados até à presente data (71 textos da 1.ª série mais 68 textos da 2.ª série que se encontra em curso).

Depois, seguiu-se a publicação dos 71 textos da 1.ª série em livro a 21 de Março de 2011 e a versão inglesa a 16 de Dezembro de 2013.

Muito feliz por continuar a fazer aquilo que gosto: escrever sobre o que de bom a Madeira e o Porto Santo têm a nível agrícola e gastronómico.

E é para continuar, contando sempre com o vosso apoio e interesse!

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publicado às 15:47

Das cinzas ao reverdecer

por Agricultando, em 28.08.16

Este texto foi publicado no dia 28 de Agosto de 2016, na revista "Mais" do Diário de Notícias.

Neste "Agricultando", é impossível não escrever sobre os trágicos incêndios que ocorreram essencialmente entre os dias 8 e 10 nos concelhos do Funchal, Calheta e Ponta do Sol. No início, a queimar áreas florestais e depois casas no centro do Funchal. É certo que as condições climatéricas foram propícias ao propagar do fogo, mas o desleixo de muitos anos seguidos aumentou o infortúnio de muitas famílias, já que terrenos contíguos às casas apresentavam muito mato, alimentando assim a força do lume. Numa primeira estimativa de áreas queimadas calcula-se que oito por cento da Madeira ardeu, sendo que no Funchal 22 por cento da sua superfície foi devastada pelas chamas. Naquilo que me é mais próximo em termos profissionais, a agricultura, também não foi poupada, com casos de perdas totais. Porém, é notório que muitos terrenos outrora agricultados, ao serem abandonados por motivos de envelhecimento dos proprietários, emigração, partilha de bens, entre outros, são autênticos barris de pólvora, pois neles instalam-se espécies como a acácia, a canavieira, o silvado e demais arbustos e ervas infestantes que por falta de limpeza atingem alturas proibitivas, sendo "alvos" fáceis para a disseminação de incêndios. Já um terreno cultivado e cuidado, onde são realizadas mondas periódicas das ervas daninhas e eliminação de outras espécies invasoras, o risco de incêndio é consideravelmente menor. Por outras palavras, é de ordenamento agrícola que aqui se fala.

Ao longo destes dias, tem sido realçado por diversas entidades e personalidades de diversas áreas do conhecimento, que a prevenção é a melhor arma para nos precavermos no futuro de eventuais episódios conforme os deste mês, e que têm acontecido com maior frequência nos últimos tempos, à semelhança dos anos de 2010, 2012 e 2013. E que prevenção tem de ser feita de imediato? Desde o repovoamento florestal com espécies mais resistentes ao fogo como o de algumas endémicas (til, vinhático, loureiro, barbusano), o castanheiro, a nogueira que levam muitos anos a crescer, mas que há que (re)começar o quanto antes, pois quanto mais tarde, pior para os de agora e para os que hão de vir. O incentivo de terrenos não cultivados ao arrendamento agrícola, com benefícios fiscais para os proprietários que os disponibilizassem e comparticipação total do pagamento da renda por parte do Governo Regional nos primeiros dois a cinco anos, no caso de serem instaladas hortícolas ou frutícolas e vinha a título de período de carência, respectivamente. Com a garantia de que as terras seriam sempre dos legítimos donos, pois entre nós reina a desconfiança que alugar explorações agrícolas é "meio caminho andado" para perder-se a titularidade. Por último, outra maneira ao alcance de todos e que pode ser feita já, enquanto consumidores, é que ao comprarmos hortofrutícolas locais estamos a aumentar a área agrícola e a diminuir substancialmente os baldios, e consequentemente o risco de incêndio no Verão e de derrocada no Inverno, pois os poios [regionalismo para socalcos] cultivados serão em todo o tempo devidamente ordenados e cuidados, com vantagens para os que cá vivem e para os que nos visitam!

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publicado às 16:37


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