Domingo, 25 de Dezembro de 2011
"O Natal na Madeira"

Este texto foi publicado no dia 25 de Dezembro de 2011, na revista "Mais" do Diário de Notícias. Neste dia de Natal, é bom recordar as tradições associadas à Festa. O título entre aspas deste "Agricultando" é o de um livro da autoria do Pe. Manuel Juvenal Pita Ferreira, "O Natal na Madeira: estudo folclórico", cuja primeira edição da Junta Geral do Distrito Autónomo do Funchal foi lançada em 1956. Em 2010, a Secretaria Regional da Educação e Cultura através da Direcção Regional dos Assuntos Culturais, publicou a reimpressão da segunda edição, com uma tiragem de 1.000 exemplares. Esta curiosa obra retrata a intensidade com que o Natal era vivido na Madeira em meados do século passado, os usos e costumes das populações, profanos e religiosos. Nas suas 370 páginas, descrevem-se capítulos relacionados com a agricultura e gastronomia regionais, como "A Fornada do Natal", "O Jantar do Natal" e "Culinária e Doçaria do Natal", ficando aqui um resumo. A fornada de pão começava muito tempo antes, com o lançamento do trigo na terra em finais de Janeiro, “... depois do lavrador se descarapuçar, se benzer e reverentemente beijar a primeira "grafada" [garfada; mão cheia de trigo], que vai semear, foi ceifado, malhado, erguido e, depois de tirado o quinhão dos Santos e das Hóstias, guardado numa grande caixa, para ser amassado todos os sábados, se o lavrador é rico; nas principais festas, se é remediado.” O trigo da amassadura do pão da Festa era moído no início de Dezembro e com o resto da massa, coziam-se os "brindeiros" (pequenos pães) que se destinavam às crianças. A matança do porco, habitual nesta altura, era efectuada por todos, ajudando-se uns aos outros, bem como a cava da semilha nova. A lapinha de escadinha com frutas da época como a laranja, a maçã, a anona, a castanha, a noz, entre outras. As iguarias que enriqueciam a mesa na quadra natalícia, eram a canja de galinha, o cozido à madeirense com couve, semilha, batata doce, nabo, cenoura e bastante toucinho, a carne assada no forno com semilhas novas muito loiras e arroz e, a tão conhecida carne-de-vinho-e-alhos, carne de febra de porco que é curtida durante três dias com vinho, vinagre, alho, folhas de louro e sal. Tudo isto acompanhado com vinho da última colheita e como sobremesa, anonas e banana. Comia-se também a linguiça no norte da Ilha, o sangue de porco aproveitado e confeccionado de diversas maneiras como sarapatel, com molho de vilão e guisado e, o cuscuz com toucinho aos pedaços e passas. Quanto à doçaria, o bolo de mel de cana-de-açúcar e o bolo de família com cidra cristalizada, nozes, passas, entre demais ingredientes, assim como o bolo doce ou de noiva, são os bolos tradicionais desta época. Em suma, caro leitor, tem neste manjar, o melhor que a nossa terra dá e o saber-fazer de gerações dos nossos antepassados que criaram pratos únicos e muito deliciosos. Feliz Natal e um 2012 com muita saúde! 


ACOMPANHAMENTO MUSICAL: Xarabanda - "Cantigas ao Menino Jesus" (2008)

publicado por Agricultando às 17:52
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Domingo, 27 de Novembro de 2011
Abrigo de sabores

Este texto foi publicado no dia 27 de Novembro de 2011, na revista "Mais" do Diário de Notícias. A pouco menos de um mês para a Festa (regionalismo que é sinónimo de Natal) com a temperatura a ficar mais fresca e a ocorrer chuva, mas ainda com dias de algum sol, tem lugar a renovação dos terrenos agrícolas. Começa a aparecer mais diversidade de hortícolas e também de frutas, de clima temperado e subtropical. É uma época rica, quer para o agricultor que tem mais produções e maior rendimento, quer para o consumidor que dispõe de mais oferta, frescura e qualidade. O concelho de Santa Cruz é um dos concelhos que ilustra bem esta variedade agrícola, pois as cinco freguesias que o constituem, Camacha, Caniço, Gaula, Santa Cruz e Santo António da Serra, abrangem a beira-mar até à montanha, proporcionando condições excepcionais para o cultivo agrícola. O Restaurante Abrigo do Pastor (telefone: 291922060; http://www.abrigodopastor.com) localizado na Estrada das Carreiras (que dá acesso ao Poiso), freguesia da Camacha, Concelho de Santa Cruz, é um refúgio de cheiros e sabores marcadamente madeirense. A sua história remonta a um casebre ali existente que servia de abrigo a pastores e caçadores, tendo posteriormente sido transformado num bar e restaurante. Os actuais proprietários Brito Figueira e Alexandre Costa com o Chefe de Cozinha Manuel Carvalho surpreendem os sentidos dos comensais com especialidades tradicionais, como a caldeirada de cabrito com batata salteada, arroz de segurelha e legumes da estação e, o cozido que é servido apenas aos domingos, entre outras. Para sobremesa, uma sugestão irrecusável, requeijão com doce de abóbora caseiro. Os produtos agrícolas e a carne regionais, bem como o requeijão com origem no concelho de Santa Cruz, são parte do segredo do êxito das iguarias servidas no Abrigo do Pastor. Aqui está mais um exemplo que utilizar os nossos produtos para a confecção dos pratos, além dos reflexos positivos na economia rural e agro-alimentar da Região, é uma mais-valia para o restaurante que os serve e para aqueles (residentes e visitantes) que os saboreiam.


ACOMPANHAMENTO MUSICAL: Atlantihda - sem título (2011)

publicado por Agricultando às 16:41
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Domingo, 30 de Outubro de 2011
Sabor a norte

Este texto foi publicado no dia 30 de Outubro de 2011, na revista "Mais" do Diário de Notícias. Como já foi aqui referido noutros artigos, a costa norte da Madeira apresenta uma riqueza agrícola que se baseia sobretudo no cultivo de hortícolas e da vinha. O concelho de São Vicente é conhecido pelos seus vinhedos para produção de Vinho Madeira e para Vinho de Mesa Madeirense. Tradicionalmente, a vinha é conduzida em latada ou como se diz popularmente, em "corredor". A partir de meados do Outono e durante o Inverno, quando a vinha "descansa", isto é, quando está em "pau" (em repouso vegetativo), aproveita-se essa área para o cultivo de semilha e fava. É uma forma de aproveitar ao máximo as parcelas que se caracterizam por pequenas áreas e dispersas. Além disso, vai beneficiar de chuvas abundantes próprias da época que associadas ao saber-fazer do Agricultor, proporcionam mais diversidade agrícola e maiores rendimentos. Na freguesia de Ponta Delgada, concelho de São Vicente, há um sítio chamado Lameiros. Sobranceira a esta localidade donde se tem uma belíssima vista, há uma zona que tem umas pedras brancas que serviram de inspiração ao nome do Restaurante As Pedras (telefone: 291863882, com página no facebook) ali localizado. Aberto em 1999 pelo actual proprietário Ricardo Jorge Fernandes, tem um simpático serviço familiar que se constata nos pratos servidos e na sala destinada aos comensais. Para entrada, sugere-se a dobrada ou o polvo de escabeche. Uma das especialidades com sabor a norte é a carne d’ Avó, entrecosto de porco cozido com ervas aromáticas e vinho, que é complementado com semilhas no topo, que tomam uma cor e um sabor irresistíveis. Acompanha com couve salteada e bacon e arroz com cenoura. É uma receita antiga usada pela família e que noutros tempos, comia-se a semilha fria com café, como pequeno almoço ou lanche. Existem outras deliciosas opções como a feijoada e o cozido nortenho. Nas sobremesas caseiras, merece destaque o refrescante pudim de maracujá. Tratando-se de um restaurante situado numa zona rural, os produtos agrícolas são de origem local e quando isto não é possível, são de proveniência regional. O sucesso desta casa deve-se essencialmente às suas receitas passadas de geração em geração e à frescura e qualidade das nossas ervas aromáticas e hortofrutícolas. Se não conhece, dê um passeio a Ponta Delgada, não sem antes telefonar pelo menos de véspera, a reservar o seu prato eleito e a sua mesa.


ACOMPANHAMENTO MUSICAL: Vânia Fernandes - "Coração do Alto Mar" (2010)

publicado por Agricultando às 16:25
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Sexta-feira, 14 de Outubro de 2011
Quatro anos!

Este blogue festeja hoje o seu quarto aniversário.

É motivante verificar que este espaço continua a ser visitado cada vez mais.

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publicado por Agricultando às 22:23
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Domingo, 25 de Setembro de 2011
As Vides

Este texto foi publicado no dia 25 de Setembro de 2011, na revista "Mais" do Diário de Notícias. Setembro é o mês tradicional das vindimas, onde se colhem os cachos de uvas que foram crescendo nos últimos meses. O concelho de Câmara de Lobos com condições climatéricas excepcionais para a cultura da vinha, é uma das zonas produtoras de excelência de Vinho Madeira e mais recentemente, mas em menor escala, também de Vinho de Mesa Madeirense. É majestoso ver as encostas de vinhedos de Câmara de Lobos e do Estreito de Câmara de Lobos que ao longo do ciclo cultural adquirem diferentes tonalidades. No Inverno, a vinha "em pau", onde tudo (re)começa, depois na Primavera, a explosão de rebentos reflectidos num verde "tenro", passando pelo Verão caracterizado pelo verde escuro das folhas e o roxo dos cachos até ao Outono, em que as folhas tomam uma coloração castanho-amarelada. Além do enriquecimento paisagístico que este cultivo proporciona ao forasteiro e ao residente, importa sublinhar que dele dependem centenas de Viticultores que no decorrer do ano, trabalharam para que nesta época, possam receber os proveitos do seu nobre ofício. A poda é uma das práticas culturais essenciais à vinha. Da mesma, retiram-se as vides inúteis que depois podem ser utilizadas para fazer um óptimo braseiro. O Restaurante As Vides (telefone: 291945322), localizado no sítio da Igreja, freguesia do Estreito de Câmara de Lobos, iniciou a sua actividade em 1950. Francisco da Silva Freitas, pai dos actuais proprietários, Gregório e Alberto Freitas, foi o primeiro a trazer a espetada dos arraiais para a restauração. No princípio, de uma forma mais improvisada, era habitual durante as festividades e a horas tardias, as pessoas baterem à porta do Senhor Francisquinho da Silva para que fizesse uma espetada. E foi assim que surgiu “a mais antiga e tradicional casa de espetada da Madeira”. Além da saborosa espetada, são servidos o bolo do caco ali confeccionado, o milho frito, as originais batatas fritas com alho e orégãos e uma colorida salada. Em alternativa à carne de vaca, pode escolher-se o frango no espeto. A terminar a refeição, não há quem resista ao delicioso pudim de maracujá. Desde sempre que este restaurante utiliza preferencialmente produtos agrícolas de origem local e quando tal não é possível, compra hortofrutícolas regionais, porque as iguarias ganham outro sabor e qualidade. Aqui está mais um bom exemplo que a restauração beneficia sempre, quando consome os produtos da Região, pois só assim estará a garantir a genuinidade da gastronomia madeirense.


ACOMPANHAMENTO MUSICAL: Banda Sonora - "Conta-me como foi" (2011)

publicado por Agricultando às 16:28
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