Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Este texto foi publicado no dia 26 de Março de 2017, no Diário de Notícias.

No dia 20 de Março celebrou-se o Dia Mundial da Agricultura, tendo a Escola da APEL e a Secretaria Regional de Agricultura e Pescas organizado nessa data e naquela escola (onde regressei 30 anos depois de ter sido ali aluno), um ciclo de conferências designado "A Agricultura Madeirense: Motor da economia, arquitecta de paisagens e guardiã da natureza", que foi presidido pelo Secretário Regional de Agricultura e Pescas. O Professor Doutor Alberto Vieira, Investigador Coordenador do Centro de Estudos de História do Atlântico na comunicação "O poio madeirense na construção da agricultura" realçou a ligação íntima do poio à História da Agricultura madeirense e divulgou aspectos curiosos como a influência do poio no agricultor, mormente nos seus comportamentos. Aquela imagem do nosso folclore em que se dança curvado é entendida por aquele investigador como uma veneração à terra e não como um gesto de submissão. O açúcar madeirense tornou a Região como a única do Atlântico a produzir o "ouro branco", antes de este ter-se expandido para as Canárias, Cabo Verde e o Brasil, levando por isso à sua decadência na Madeira. A nota que o Vinho Madeira é uma criação da Ilha e dos madeirenses e não dos ingleses, que só a partir do século XVII o descobriram, dando então um contributo para que a comercialização além-mar fosse maior. A comparação que o agricultor madeirense é como um xamã, isto é, alguém que tem uma ligação espiritual com a terra e tudo o que a rodeia, tendo o Professor Doutor Alberto Vieira afirmado que “o ilhéu de segunda a sexta-feira é um xamã e no sábado e domingo, é católico”. Em vez de transformar a paisagem, o agricultor criou um novo espaço, uma nova realidade por oposição à de outras paragens, na qual houve transformação. A Madeira é a primeira no espaço atlântico onde os europeus fazem agricultura por volta de 1420, salientando no final que falta escrever a História da Agricultura madeirense, apesar de haver artigos, notas e apontamentos sobre a história dos produtos agrícolas na Região, em especial na segunda metade do século passado. O Doutor Engenheiro João Baptista Silva, Investigador do Centro GeoBiotec, FCT, Universidade de Aveiro e Representante da Progeo Portugal - Associação Europeia para a Conservação do Património Geológico trouxe o tema "A Natureza não perdoa: Como cuidar, proteger e valorizar a nossa casa comum", debruçando-se sobre os fenómenos de intempérie, incêndios, e algumas pragas e doenças que têm assolado a Madeira nos últimos dez anos. Considerou que ciência sem espiritualidade não é ciência e lembrou o livro do Papa Francisco "Proteger a Criação – Reflexões sobre o Estado do Mundo" que chama a atenção para a preservação da casa comum, a Terra. Recordou os sete incêndios ocorridos entre 2010 e 2016, no qual arderam e voltaram a arder 24.750 hectares, ou seja, o equivalente a quase 25.000 campos de futebol! A aluvião de 20 de Fevereiro de 2010, as enxurradas de 2012 no Seixal e no Porto Moniz e de 2013 em Santa Cruz, Machico, Porto da Cruz e Santana. A impermeabilização do solo e subsolo no Funchal levou a que as áreas inundadas aumentassem entre 1993 e 2010. A praga da vespa das galhas do castanheiro, as doenças mixomatose e hemorrágica viral dos coelhos do Porto Santo, a varroose, uma praga que em 2016 foi a responsável pela diminuição de 70 por cento do mel de abelha regional. Os poios agricultados e os não agricultados, e o maior risco de erosão destes últimos. Asseverou que nestes dez anos destruiu-se mais que nos 590 anos anteriores. Há que cuidar da nossa Região, responsáveis governamentais e autárquicos, bem como a sociedade civil, pois se a conservarmos, estamos a cooperar para o bem comum e por isso há que conhecer, proteger e valorizar os recursos naturais locais.

Na segunda parte deste evento, o produtor de maracujá Luís Manuel Sardinha do concelho da Calheta fez uma intervenção interactiva designada "A matemática de ser Agricultor", contando com a colaboração de três estudantes que assistiam à palestra. Foi colocado num quadro alguns cálculos básicos para três cultivos agrícolas: Bananeira, vinha e maracujazeiro. Disse que para ser rentável há que contar com pelo menos um hectare de superfície e para cada cultura, calculou a produção estimada e o preço de venda, obtendo-se valores de 22.000 euros para a banana e a vinha, e de 38.000 euros para o maracujá. A estes rendimentos brutos, acrescentou um montante médio de 3.000 euros referente a ajudas à agricultura e 30.000 euros como prémio de instalação para o jovem agricultor, demonstrando assim que a agricultura pode ser frutuosa, desde que tenhamos dimensão, conhecimentos técnicos e de gestão agrícola. O Prof. Luís Paixão, Escultor, com a "Dimensão Telúrica na Arte" fez uma viagem de 30.000 anos desde a arte rupestre, passando pelas artes egípcia, grega, romana, bizantina, românica (medieval), gótica, pré-renascentista, renascentista, barroca, romântica, realista, impressionista, expressionista, cubista, abstraccionista e arte nova. Em todas as épocas, a natureza em geral e a agricultura ou actividade agrícola em particular é temática constante nas diversas expressões artísticas. Mostrou projectos de escultura com figuras regionais do meio rural que retratam profissões de outrora e sugeriu que se instalasse um "Parque do Agricultor" ou um "Parque das Tradições" na Madeira, como forma de perpetuar essas “memórias de tempos idos” no presente e no futuro. A Prof.ª Graça Garcês da Escola da APEL na apresentação "Evidências de telurismo no hino da Região Autónoma da Madeira" analisou em pormenor o hino com letra de Ornelas Teixeira e composição de João Víctor Costa, em que destaco aqui a importância da natureza no verso inicial “Do vale à montanha e do mar à serra” secundada pelo valor do seu povo em “Teu povo humilde, estóico e valente/Entre a rocha dura te lavrou a terra/Para lançar, do pão, a semente”, que num meio agreste o tornou aprazível e fértil. Por fim, em jeito de desfecho, o Director Regional de Agricultura, Eng.º Paulo Santos indicou alguns números relativos ao sector e relevou a agricultura regional como um dos suportes da principal actividade económica que é o turismo, elogiando ainda as intervenções dos oradores que o precederam.

Foi sem dúvida uma manhã enriquecedora que assinalou da melhor forma o Dia Mundial da Agricultura. Um bem-haja à organização!

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 16:55

Este texto foi publicado no dia 26 de Fevereiro de 2017, no Diário de Notícias.

Como foi dito no "Agricultando" anterior, inicia-se hoje a terceira série de textos deste espaço de opinião sobre a Agricultura madeirense. No presente ano, a Associação Comercial e Industrial do Funchal (ACIF) está a organizar um ciclo de seminários genericamente intitulado de "Negócios – Conceitos – Marcas", tendo o primeiro ocorrido no passado dia 31 de Janeiro no auditório do Museu da Electricidade – Casa da Luz com o tema "Estrelas Michelin com impacto na economia". Participaram nesta sessão, os Chefes de Cozinha Benoît Sinthon do restaurante Il Gallo D’ Oro no Hotel Cliff Bay, Luís Pestana do restaurante William no Hotel Belmond Reid’s Palace e Pedro Lemos do restaurante Pedro Lemos no Porto, assim como o Dr. Pedro Milheiro da Costa, Director Geral da Quinta do Furão, que foi o moderador. Na abertura desta iniciativa, o Secretário Regional da Economia, Turismo e Cultura, Dr. Eduardo Jesus, afirmou que “estes Chefes [galardoados com as estrelas Michelin] têm aprofundado a utilização dos produtos que são tipicamente regionais (…)”, potenciando e garantindo “(…) o escoamento da produção regional” com proveitos para a economia em termos turísticos, gastronómicos e de rendimentos. O Chefe de Cozinha Benoît Sinthon observou que a conquista de mais duas estrelas Michelin para a Região, põe em plano superior a cozinha madeirense ao nível do que melhor se faz no mundo, complementando desse modo a hotelaria de luxo pela qual se distingue o nosso Arquipélago. É pois notório que além dos nossos mil e um climas e paisagens aprazíveis, o visitante procura na gastronomia regional e nos produtos locais que dela fazem parte, algo que prolongue o prazer de estar num lugar diferente, dir-se-ia até, paradisíaco.

Na minha opinião, este raciocínio que as estrelas Michelin de restaurantes madeirenses valorizam a produção regional, será certamente mais abrangente se tivermos em conta a boa restauração da Madeira e do Porto Santo, que mesmo não tendo aquele distintivo reconhecido internacionalmente, dá sempre preferência aos nossos produtos da terra e do mar ao longo do ano, por serem frescos e de inquestionável qualidade. Alguns até têm cultivo próprio e outros fazem questão de adquiri-los localmente, pois têm consciência da importância socioeconómica desse acto e da satisfação do comensal. Há que intensificar a presença dos produtos agrícolas, pecuários e da pesca madeirenses nos restaurantes da Região no decorrer das estações, pois a genuinidade da nossa gastronomia só será assegurada se continuarmos a utilizar o que é nosso, conjugada com o saber-fazer dos cozinheiros e a arte de bem servir.

Até porque um dos filões que deve ser aproveitado sem qualquer hesitação, é o do uso do que é de cá nas cozinhas dos restaurantes e porque não dizê-lo de todas as casas, com ganhos económicos evidentes e uma paisagem cultural pujante (leia-se, de poios com gente)!

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 15:27

Registar para memória futura

por Agricultando, em 29.01.17

Este texto foi publicado no dia 29 de Janeiro de 2017, no Diário de Notícias.

Seis anos depois do primeiro texto da segunda série do "Agricultando" dedicada à agricultura e à gastronomia na vertente da hotelaria e restauração, é chegado o momento de fechar este ciclo. Ao fim de 72 artigos iniciados em Janeiro de 2011, quero continuar a escrever mensalmente neste espaço sobre agricultura, mas sem a obrigatoriedade de indicar sempre um restaurante da Região. Não quer dizer que tenha abrangido todas as casas que merecessem um destaque nesta página, pois ser-me-ia impossível fazê-lo. Contudo, entendo que é altura de encetar a terceira série de textos do "Agricultando", recordando que a primeira série tornou-se livro em Março de 2011, onde estão compilados 71 textos sobre Agricultura madeirense que foram publicados na então revista do Diário de Notícias da Madeira entre 9 de Setembro de 2007 e 30 de Maio de 2010. A defesa persistente pelos produtos da terra desde que tenham frescura e qualidade, a importância da nossa paisagem agrícola, a indústria agro-alimentar local, um estabelecimento comercial que dê primazia ao que é de cá, um livro técnico ou generalista sobre o "engenho e arte" do cultivo do solo estará sempre presente. Porque apesar da pequena dimensão da Madeira e do Porto Santo e das conhecidas limitações específicas da nossa agricultura, ainda há muito por registar para memória futura.

Assim, o escrito de hoje é de balanço dos 72 meses anteriores.

Ao longo do tempo caracterizei os concelhos de Câmara de Lobos, Machico, Ponta do Sol, Porto Moniz, Porto Santo, Santana, Santa Cruz e São Vicente. Sublinhei o interesse de comprarmos os produtos agrícolas locais para reduzir a "pegada ecológica" e contribuir para a economia rural. Os certames agrícolas e o seu valor na promoção dos hortofrutícolas e suas utilizações na gastronomia. O trabalho conjunto da Associação de Agricultores da Madeira e a Universidade da Madeira no âmbito do Germobanco Agrícola da Madeira, onde se tem recuperado, conservado e caracterizado espécies agrícolas como o trigo, a batata doce, o milho, o feijão, a fava, a ervilha, a cebola e as variedades regionais de pêros e maçãs, a cereja, o figo, entre outras. A frescura e a inegável qualidade dos produtos agrícolas de cá que tornam os pratos servidos na restauração mais genuínos e apetecíveis, quer para o residente, quer para o visitante. A necessidade que alguns restaurantes têm, de possuir produções próprias e de adquirir localmente aquilo que faz falta na cozinha. A escolha inteligente de utilizar os produtos da época, diversificando assim no decorrer dos meses a oferta de iguarias. A ruralidade que o Funchal ainda apresenta nos jardins das casas e nos terrenos cultivados com hortícolas, bananeiras ou pomares, nas hortas urbanas e o seu contributo para a subsistência de muitas famílias e o papel terapêutico que proporcionam aos seus utilizadores. O alerta que a manutenção da paisagem agrícola madeirense passa pelo consumo dos produtos agrícolas locais que se sucedem ciclicamente no curso das estações. A preferência pelo que é regional fixa as populações rurais e dinamiza a economia, criando riqueza entre nós, na agricultura e noutros sectores, como é o caso de alguns exemplos da hotelaria e restauração regionais. As referências para os Anos Internacionais da Agricultura Familiar em 2014, dos Solos em 2015 e das Leguminosas em 2016, promovidos pela FAO, a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação. A candidatura das "Levadas da Madeira" a Património Mundial e a pertinência de incluir os poios passando para algo mais abrangente e que fosse denominada de "Levadas e Poios da Madeira", pois as levadas não existiriam sem os poios e os poios não sobreviveriam sem a água das levadas. O Observatório da Paisagem da Madeira que deverá ser mais pluridisciplinar que as instituições fundadoras, devendo incluir outros parceiros como a Região da Madeira da Ordem dos Engenheiros, Associações representativas dos agricultores e jovens agricultores, Secretaria Regional de Agricultura e Pescas através da Direcção Regional de Agricultura. Os livros "O Natal na Madeira" do Pe. Manuel Juvenal Pita Ferreira, "Gastronomia Tradicional da Madeira e do Porto Santo" publicado pela então Direcção Regional dos Assuntos Culturais, "Memórias da Maria Castanha" e "Maria Castanha – Outras Memórias" de Jorge Lage, "Sabores – Receitas Tradicionais Madeirenses" e "Maravilhas da Gastronomia Madeirense" da Academia Madeirense das Carnes/Confraria Gastronómica da Madeira, "Provérbios Agrícolas Portugueses" de Paulo Patrício Brum Amaral e "Apontamentos de Etnografia Madeirense (São Jorge e Norte da Ilha)" de António Marques da Silva, que estão ligados à agricultura e à gastronomia e que merecem uma leitura cuidada.

Entre Janeiro de 2011 e Dezembro de 2016 trouxe a esta rubrica seis dezenas de restaurantes, sendo que um terço está situado no concelho do Funchal e que 15 encontram-se localizados na costa norte, sem esquecer os quatro estabelecimentos da Ilha Dourada. Alguns fecharam como consequência dos anos economicamente difíceis, quer por via do aumento dos impostos, quer pela diminuição do poder de compra dos clientes que deixaram de comer fora ou que o fizeram menos vezes. Em todas as casas, constatei a relevância que davam aos produtos frescos, por essa ser uma das características essenciais para a confecção de um bom prato e parte do segredo do sucesso comercial. Como curiosidade, refira-se que só abordava o proprietário ou o gerente no final do repasto para pedir a indispensável autorização de publicação e recolha de informações sobre o restaurante, evitando dessa forma que estes pudessem ficar condicionados se me apresentasse antes da refeição. Durante este tempo, apenas tive duas recusas de não publicação, o que confesso, me deixou estupefacto já que se tratava de uma excelente oportunidade de divulgação desses restaurantes.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 16:40

Relembrar os saberes da castanha

por Agricultando, em 25.12.16

Este texto foi publicado no dia 25 de Dezembro de 2016, no Diário de Notícias.

O registo do saber, seja qual for a área, é fundamental para a compreensão do passado no presente e no porvir. Na agricultura, os conhecimentos empíricos eram transmitidos oralmente de pai para filho, até porque muitos eram analfabetos e desse modo perpetuavam no tempo o saber-fazer. Esses ensinamentos da arte de cultivar resultavam de várias gerações que tão bem conheciam as condições geográficas e climáticas locais, a exposição solar, as fases da lua e a sua influência nas plantas, as variedades mais produtivas e de maior qualidade, entre outros. Contudo, as memórias agrícolas de há 60, 70 ou mais anos que não estão anotadas em livro, perdem-se irremediavelmente pelo decurso do ciclo da vida. São os seniores que andam pela casa dos 70, 80, 90 anos ou de maior idade, que são autênticas bibliotecas ambulantes merecedoras de serem ouvidas por quem tenha curiosidade, gosto e interesse pelas coisas da terra. O Dr. Jorge Lage, distinto transmontano defensor e incansável entusiasta da castanha e do castanheiro tem sido ao longo dos mais de 16 anos um exemplo do que deve ser feito no âmbito da recolha etnográfica e etnolinguística daquela cultura. Em 2001, lançou "A Castanha – Saberes e Sabores" que foi editado três vezes e encontra-se esgotado, seguido de "Castanea – Uma dádiva dos deuses" de 2005 com duas edições, "Memórias da Maria Castanha" de 2013 e em Outubro de 2016, a sua última obra que encerra um ciclo sobre a memória imaterial castanhícola portuguesa, "Maria Castanha – Outras Memórias".

Maria_Castanha_Outras_Memorias_DR.jpg

Direitos Reservados

"Maria Castanha – Outras Memórias" é a continuação do estudo iniciado em "Memórias da Maria Castanha". Nas 315 páginas divididas por 15 capítulos, o autor analisa minuciosamente algumas memórias da castanha, variedades, conservação, a castanha na alimentação, transformação, comercialização, a castanha na literatura, jogos e brinquedos com o fruto, saberes, castanheiros monumentais, toponímia, heráldica e brasões autárquicos, provérbios e ditos populares, expressões e vocabulário da castanha e do castanheiro, percorrendo de lés a lés o Continente, Açores e Madeira. Para aguçar o apetite por este livro, aqui ficam algumas notas. A subsistência de muitos povos da Europa era obtida pelo consumo de castanha, cozidas ou assadas ou ainda pelo pão de castanha. Calcula-se que existam 234 variedades de castanha em Portugal, sendo que às 193 que foram inventariadas na publicação de 2013, adicionaram-se 41 novas cultivares. Na conservação que difere consoante a zona geográfica, na Madeira, as castanhas eram secadas ao ar livre, em caniços de canavieira ou em pequenas casas, colocadas a dois metros de altura, fazendo-se grandes braseiros e com lume mais moderado, respectivamente. Conhecida antigamente como o alimento dos pobres, a castanha seca era utilizada para a confecção de sopas, pratos e doces, ficando de molho de um dia para outro para facilitar a cozedura. Na transformação, menciona-se o Centro de Processamento da Castanha e a Curralpão da freguesia do Curral das Freiras, onde no primeiro se procede à calibragem e à esterilização e no segundo tem lugar a produção de pão, broa e bolo de castanha. Quanto à comercialização, 90 por cento da castanha portuguesa é exportada numa produção estimada na ordem das 45.000 toneladas, tendo as Feiras e Festas da Castanha que se realizam pelo país (a Festa da Castanha do Curral das Freiras é a mais antiga), contribuído para a valorização do fruto. No capítulo da literatura, entre lendas, contos e adivinhas, no que concerne ao cancioneiro popular, lá está a quadra de uma canção ("A Velha Gaiteira") do Rancho Folclórico da Casa do Povo do Curral das Freiras: “Freguesia do Curral/Rodeada de montanhas/Ela é muito bonita/É a terra das castanhas”. Dos jogos com o fruto indicam-se dez novos aos 20 referidos nas duas publicações precedentes. Nos saberes, um subcapítulo é dedicado ao Arquipélago da Madeira, onde é citado o insigne Agrónomo Joaquim Vieira Natividade e o seu "Plano de Cultura, Valorização, Defesa e Reconstituição dos Soutos Portugueses" de 1944, em que se previa o repovoamento de 50.000 hectares de castanheiros em todo o país e o recurso à enxertia, que até então era praticamente inexistente na Região. O Castanheiro do Campanário que se localizava no sítio da Achada daquela freguesia do concelho da Ribeira Brava, é um dos castanheiros monumentais mortos e referenciados, e que existiu até à primeira metade do século passado. Na toponímia, actualizou-se para mais de um milhar de topónimos em Portugal derivados das palavras "castanea" e "souto", comprovando-se assim o valor desta cultura. Complementa-se a informação heráldica e dos brasões de freguesias cujas designações são relativas à castanha e ao castanheiro. "A castanha em Agosto ferve e em Setembro bebe" que se encontra nos provérbios e ditos populares, demonstra que a sabedoria popular reconhece que em Agosto a castanha precisa de calor e em Setembro de chuva. Nas expressões e a título de curiosidade, o significado de "chuva das castanhas" que se atribui à chuva miudinha que cai no tempo das castanhas, terminando este "Maria Castanha – Outras Memórias" com o vocabulário associado ao fruto. Em suma, e como diz o escritor Barroso da Fonte no posfácio “… essas obras [aludindo aos quatro livros do Dr. Jorge Lage] servem de roteiro do continente e ilhas onde o castanheiro predomina”. Por isso, se é apreciador ou produtor de castanhas, recomendo vivamente a aquisição desta publicação devendo contactar para o efeito a Livraria Minho de Braga (telefone 253271152 ou pelo email lminho@livrariaminho.pt) ou a Livraria Académica (telefone 222005988) no Porto.

E porque hoje é Natal, caro leitor, endereço-lhe os votos de Boas Festas e um feliz 2017 sempre na companhia dos nossos produtos da terra!

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 16:23

Um olhar atento sobre a paisagem madeirense

por Agricultando, em 27.11.16

Este texto foi publicado no dia 27 de Novembro de 2016, no Diário de Notícias.

No início de Outubro foi divulgado pelas páginas do Diário de Notícias da Madeira, que a Madeira terá um Observatório da Paisagem, numa louvável iniciativa da Delegação da Madeira da Ordem dos Arquitectos, Universidade da Madeira (UMa) e a Associação Insular de Geografia (AIG). Avançou-se também que o Observatório de carácter consultivo perante o poder executivo seria lançado ainda este ano, com o intuito de analisar a paisagem cultural e a sua conservação. Por outro lado, este organismo procurará informar os responsáveis políticos para melhor decidirem acerca da paisagem insular que é relevante para a principal actividade económica da Região, o Turismo. É notório que nas últimas três décadas, resultante principalmente das obras públicas realizadas, em especial dos acessos rodoviários, a nossa paisagem modificou-se substancialmente. Por conseguinte, há que reflectir e agir sobre o que se quer para o tempo que há-de vir. A comissão instaladora do referido Observatório é composta por representantes da Delegação da Madeira da Ordem dos Arquitectos, UMa, AIG e da Secretaria Regional do Ambiente e dos Recursos Naturais, entidade governamental que tem dado apoio para a sua criação.

Ora, é sabido que a paisagem cultural madeirense caracteriza-se sobretudo pelos poios [regionalismo para socalcos] agricultados, quer na costa sul, quer na costa norte da Madeira, e bem assim pelos muros de pedra sobrepostos do Porto Santo. Como exemplos, temos a Madalena do Mar e os seus bananais que escalam a encosta, as vinhas do Estreito de Câmara de Lobos, as hortas que predominam em Santana, o Seixal e os seus vinhedos, as vinhas "Caracol" e "Listrão" da Ilha Dourada. É evidente que a nossa terra tem mais lugares que são igualmente dignos da nossa contemplação, mas procurei relembrar aqui algumas das paisagens consideradas singulares em Portugal e no mundo. Por isso, seria de todo em todo oportuno que outras instituições como a Região da Madeira da Ordem dos Engenheiros (nomeadamente os Colégios Regionais Agronómica e Civil), as Associações representativas locais dos agricultores e jovens agricultores e a Secretaria Regional de Agricultura e Pescas através da Direcção Regional de Agricultura fossem parceiros do Observatório da Paisagem da Madeira. A concretizar-se este alargamento, o órgão consultivo seria certamente mais multidisciplinar, com o contributo de quem conhece o campo, isto é, o meio rural, na sua vertente genética (o vasto património de culturas hortofrutícolas e flores de climas tropical, subtropical e temperado), edificada (os poios, as levadas e os palheiros), social, entre outras.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 16:14


Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

  Pesquisar no Blog

Calendário

Março 2017

D S T Q Q S S
1234
567891011
12131415161718
19202122232425
262728293031


Posts mais comentados


Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2008
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2007
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D

Número de visitas | Desde 14 de Outubro de 2007

80.000 visitas alcançadas a 9.4.2015!