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Desfrutar um pouco mais do Porto Santo

por Agricultando, em 30.07.17

Este texto foi publicado no dia 30 de Julho de 2017, no Diário de Notícias.

Ao longo do tempo tenho defendido o consumo dos produtos agrícolas locais como forma de preservar a paisagem agrícola ou a paisagem cultural, pois os terrenos cultivados só existem, se houver quem adquira e valorize aquilo que a terra dá. Se para a Madeira isso é relevante, para o Porto Santo ainda o é mais, dada a sua exiguidade territorial. Apesar disso, é consensual que os hortofrutícolas produzidos na Ilha Dourada têm outro sabor devido às condições climatéricas e de solo, e ao saber-fazer do Agricultor. Por outro lado, as produções são diminutas e dispersas, o que dificulta a sua comercialização. Ora, uma forma de ultrapassar essa limitação é ter por exemplo um estabelecimento comercial, que ofereça algo autêntico, da Ilha, quer em fresco, quer através de derivados. O Bar 3 V’s de Fátima e José Diogo localizado no centro da Vila Baleira e próximo da Igreja matriz é um espaço que abrange a produção agrícola, a transformação artesanal e a consequente venda. Reza a história que em Agosto de 1950, quando José Góis Mendonça mudou-se para aquele lugar, deixando um outro à entrada do cais, onde agora está o Padrão dos Descobrimentos (também conhecido como "Pau de Sabão"), era muito procurado na hora da missa pelos homens que ali iam beber vinhos de excelência. O padre ao aperceber-se desta situação e numa das suas fastidiosas homilias lá disse que “aqueles desgraçados, em vez de ficarem aqui, vão para aquele Inferno”. E assim a taberna ficou conhecida como "Inferno". Na década de 80 do século passado, José Diogo, Professor de Educação Tecnológica do 3.º Ciclo actualmente aposentado quis dar continuidade ao negócio da família, procedendo à ampliação e à introdução de bebidas como a original sangria com Vinho do Porto Santo. No Verão de 2011, com a ajuda da sua esposa que também é Docente de Educação Tecnológica, remodela o bar e atribui o nome de 3 V’s, que significa Vinho, Vinha e Volta, porque ao tomar um copo de vinho do Porto Santo acompanhado de petiscos com familiares ou amigos num ambiente acolhedor, vai querer certamente regressar!

O casal Diogo, ele natural da freguesia do Faial a residir no Porto Santo há quase 40 anos e ela nascida em Angola, têm a Ilha Dourada nos seus corações, por ser parte importante das suas vidas, e o Bar 3 V’s tornou-se uma forte razão para manter essa ligação ainda mais próxima. Na época devida pode apreciar as uvas branca e moscatel. Nos vinhos, pode escolher entre os de mesa, branco, tinto e moscatel, e os generosos como os moscatéis de 10 anos, seco, meio seco e doce ou o meio doce tradicional de 30 anos. Nos transformados, as compotas de uva, de uva e vinho do Porto Santo, de abóbora e laranja, de figo, de maracujá e tabaibo. Nas geleias, a de figo, a de tabaibo, com destaque para a de vinho do Porto Santo com aroma e sabor distintos, e ainda os figos em calda. Como ingrediente diferente faz-se a farinha de grainha da uva, que é utilizada na confecção de um delicioso pão que acompanha os petiscos e em broas, bem como em sabonetes com essências naturais e vinho do Porto Santo, dadas as suas propriedades cosméticas. E para os apreciadores de temperos picantes, têm à sua disposição o "gindungo" composto por pimentas, que é intenso e aromático e está pronto a usar. Nos petiscos, o atum salpresado, o gaiado em mar de azeite, o polvo de escabeche, as moelas em molho de tomate e especiarias, a carne de vinho e alhos, os queijos, os enchidos, as ameijoas, o mexilhão, o camarão são cozinhados pelos proprietários à moda da casa. E uma vez que nesta casa os produtos agrícolas são de produção própria, é possível visitar as vinhas numa área de um hectare, onde se cultiva uvas de mesa para consumo em fresco e para a elaboração de doces e geleias, e uvas para a produção de vinho com as castas ‘Caracol’ e ‘Moscatel’, bem como a adega, desde que se agende previamente.

Ao Bar 3 V’s vêm os locais, os regionais, os nacionais e os estrangeiros, na época de Verão, de Junho a finais de Setembro, das 10 horas da manhã até às 2 horas da madrugada. Porque a genuinidade é querida por aqueles que independentemente da sua origem, apreciam o que é diverso, o que é bom! Se é o seu caso, e está ou vai ao Porto Santo, não hesite, visite o 3 V’s!

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publicado às 16:28

Este texto foi publicado no dia 25 de Junho de 2017, no Diário de Notícias.

A "Série Retrospectiva das Estatísticas da Agricultura e Pesca da Região Autónoma da Madeira (1976-2016)" da Direcção Regional de Estatística da Madeira foi disponibilizada na passada segunda-feira na página de internet daquele organismo público. Lá estão dados sobre as áreas e produções das principais culturas e a sua evolução nos últimos 41 anos. Neste "Agricultando" e sem querer ser exaustivo, deixando propositadamente de fora números e percentagens, constata-se que entre 2015 e 2016, nos cultivos temporários, houve aumento de produção de alface, cana-de-açúcar e feijão-verde. Na semilha [regionalismo para batata], batata doce, cebola, cenoura, milho para maçaroca e tomate registaram-se diminuições das quantidades produzidas, mantendo-se os quantitativos do inhame e do nabo. No que se refere às culturas permanentes e para o mesmo período dos dois anos mais recentes, apenas a banana teve evolução positiva, sendo que as produções de abacate, anona, castanha, cereja, limão, pêro para sidra e uva baixaram, com a maçã a atingir igual valor. As causas para o melhor ou pior desempenho anual das culturas agrícolas locais devem-se a vários factores. As condições climatéricas, a incidência de pragas e doenças, o preço pago ao produtor, a importação massiva de produtos homólogos (alguns até de qualidade inferior) a preços de venda inferiores aos de origem regional, entre outros, condicionam as áreas e produções agrícolas.

Num território pequeno como é o nosso e tendo em conta que o turismo origina o aumento de uma população "flutuante" anual na ordem das centenas de milhares, com a obtenção sucessiva de recordes de turistas e de receitas nos últimos tempos, seria oportuno saber até que ponto é que os visitantes podem ajudar para que haja aumentos das áreas e produções agrícolas, consequente consumo e o respectivo escoamento comercial. Já aqui o disse noutras ocasiões que a paisagem agrícola madeirense única e bela só existe se houver procura pelos nossos produtos. E o sector da hotelaria e restauração que tanto beneficia dessa paisagem cultural, deveria retribuir, adquirindo os hortofrutícolas de proveniência local e orgulhando-se junto do seu hóspede ou cliente, que a refeição que está a desfrutar resulta maioritariamente de produtos da Região. Os hotéis e restaurantes que têm a preocupação diária de comprar os produtos da terra regionais deveriam ser distinguidos e devidamente identificados, um pouco à semelhança daquilo que se faz na área ambiental e que é promovido pelo Governo Regional. Porque a agricultura contribui para o bom ambiente que o forasteiro procura, quer com os olhos, quer com a barriga.

Para que tal desiderato se concretizasse, a criação de um distintivo turístico de qualidade agrícola que poderia ter a designação de "Estabelecimento Amigo da Agricultura madeirense" assente numa portaria conjunta entre a Secretaria Regional da Economia, Turismo e Cultura e a Secretaria Regional de Agricultura e Pescas, que avaliasse as vertentes agrícola e social, a gestão dos produtos agrícolas e derivados ao longo do ano, os serviços e a formação, seria desejável. Não tenho dúvidas que a médio e longo prazos, criar-se-ia mais riqueza na agricultura e a quem nela trabalha, fixando populações no meio rural, elevando a oferta gastronómica da hotelaria e restauração, para satisfação do turista!

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publicado às 15:34

Este texto foi publicado no dia 28 de Maio de 2017, no Diário de Notícias.

No passado dia 29 de Abril realizou-se no âmbito da XVI Exposição Regional do Limão na freguesia da Ilha, concelho de Santana, uma conferência cujo tema foi a "Agricultura de precisão: uma nova fase do sector" proferida pelo Professor Doutor Ricardo Braga do Departamento de Ciências e Engenharia de Biossistemas do Instituto Superior de Agronomia da Universidade de Lisboa, que se tem dedicado nos últimos 17 anos a esta forma de fazer agricultura. Mas, o que é a agricultura de precisão? É o tipo de agricultura que procura optimizar os recursos e os factores de produção no espaço e tempo com recurso a Tecnologias de Informação, Comunicação e Electrónica (também conhecidas pela abreviatura TICE) com o objectivo de maximizar o retorno económico de uma maneira sustentável.

Agricultor_Frances_sec_XXI_jean_marc_cote_1900_DR.

No início da apresentação, este docente e investigador mostrou uma imagem do artista visionário francês Jean-Marc Côté que em 1900 desenhou uma série de interessantes gravuras do que seriam as diversas actividades económicas no ano 2000. A figura intitulada "um agricultor muito ocupado" que complementa este "Agricultando" é da autoria daquele ilustrador, onde se vê um agricultor confortavelmente sentado a manobrar uma alavanca e uma série de botões para operar as diversas alfaias agrícolas no campo. É claro que em 2017, a agricultura por mais que se tenha tornado mecanizada e automatizada, o Homem precisa de estar no terreno e de mangas arregaçadas. Porém, não deixa de ser curiosa aquela ilustração que representa uma interpretação artística do que poderia ser a agricultura cem anos depois do seu tempo. Se na segunda metade do século passado, a preocupação era uma produção agrícola em quantidade para satisfazer as necessidades da humanidade, no presente, essa produção deve ter qualidade sem comprometer o ambiente e com redução de custos.

A agricultura de precisão é sinérgica em relação à agricultura biológica e à agricultura de conservação, isto é, em conjunto, os resultados são superiores se estas existissem em separado. A medição da variabilidade, a análise de dados e posterior decisão, e a carta de prescrição são os principais passos da agricultura de precisão. Nesta conferência, foram dados vários exemplos. O uso de sensores no solo para medir a quantidade de água e saber se esta está disponível de igual modo no solo. Uma tomada universal utilizada em tractores denominada "Isobus" que serve para transmitir dados entre o computador, a máquina e a alfaia agrícola. A fertilização localizada quase planta a planta em função de cartas de produtividade obtidas através de drones e de imagens de satélite, porque ao contrário do modelo convencional que é generalista, num terreno, a sua fertilidade não é igual. A condução de tractores por GPS sem condutor, permitindo ao operador observar se a alfaia agrícola está a funcionar devidamente ou mesmo um tractor autónomo sem cabine. Uma aplicação informática que "dá" instruções para que se aplique herbicida só nas infestantes, poupando assim o pesticida de uso agrícola e reduzindo o seu impacto ambiental. É claro que tudo isto só é possível com o registo de dados relativos à exploração agrícola, quer manualmente, quer electronicamente. Por outras palavras, os programas e aplicações informáticas ligadas aos equipamentos só funcionam, se o Homem introduzir esses dados. Sobre a obtenção de informação, o Professor Doutor Ricardo Braga divulgou os serviços prestados pelo satélite europeu Sentinel da Agência Espacial Europeia que disponibiliza gratuitamente informações gerais, por meio da plataforma "Sentinel playground", sendo que para dados mais específicos de uma determinada superfície, é necessário recorrer a empresas prestadoras de serviços que recolhem as informações pretendidas com recurso a drones. O orador da conferência desmistificou que a agricultura de precisão é cara, que só compensa para quem tem grandes áreas, que só pode ser usada para culturas agrícolas com grande retorno económico, que é apenas tecnologia, GPS e drones, e alfaias topo de gama. Adiantou que há uma sonda de água que custa 1.500 euros e que dá uma informação precisa da quantidade de água numa determinada parcela, mas existe um bolbo "watermark" que custa cerca de 20 euros e que fornece informação suficiente para um agricultor de pequena dimensão. Como obstáculos ao avanço da agricultura de precisão, o conferencista enunciou a falta de formação e de conhecimento entre os técnicos e estudantes do ensino superior, bem como a falta de apoio ao investimento nesta vertente para os empresários agrícolas.

Por último, quando confrontado no debate, como é que a agricultura de precisão poderia ser aplicada na Madeira, o Professor Doutor Ricardo Braga respondeu que através da detecção remota por drones, do mapeamento e de programas informáticos de processamento de imagem com resolução espacial de um centímetro, numa visão de cima para baixo, completada com o uso de sensores de água e de condutividade eléctrica do solo para a indispensável visão de baixo para cima, estaria ao alcance do agricultor que quisesse recorrer ao serviço prestado por uma empresa da especialidade com ganhos a médio e longo prazo.

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publicado às 16:35

Cuidar do que é nosso, criando riqueza

por Agricultando, em 30.04.17

Este texto foi publicado no dia 30 de Abril de 2017, no Diário de Notícias.

A 70.ª Assembleia Geral das Nações Unidas escolheu 2017 como o Ano Internacional do Turismo Sustentável para o Desenvolvimento (AITSD). Com esta iniciativa, pretende-se despertar os decisores públicos, privados e os cidadãos do importante contributo que o turismo sustentável tem para o desenvolvimento de uma região ou de um país. Por outro lado, há que mobilizar as partes interessadas ("stakeholders") para trabalharem em conjunto, fazendo com que o turismo seja um catalisador positivo de mudança. O AITSD promoverá o papel do turismo de acordo com as seguintes cinco áreas-chave: o crescimento económico inclusivo e sustentável; a inclusão social, o emprego e a redução da pobreza; a eficiência no uso dos recursos, a protecção ambiental e as alterações climáticas; os valores culturais, a diversidade e o património; a compreensão mútua, a paz e a segurança. A Organização Mundial do Turismo, a agência especializada das Nações Unidas para o Turismo foi incumbida de organizar e implementar o AITSD em colaboração com os governos, organismos relevantes da estrutura das Nações Unidas, organizações internacionais e regionais, e outras partes interessadas importantes. Atendendo ao peso económico que o turismo tem para a Madeira, deveremos reflectir sobre que tipo de turismo no futuro é que irá ao encontro da sua sustentabilidade e do desenvolvimento da Região.

Pelo sector que me é o mais próximo em termos profissionais, apesar da sua especificidade no que respeita à pequena dimensão e à dispersão geográfica das parcelas, a Agricultura madeirense desempenha uma função pluridisciplinar no turismo. Se analisarmos a relação da agricultura com o turismo na perspectiva das cinco áreas-chave atrás mencionadas, constatamos que a Agricultura ajuda no crescimento económico inclusivo e sustentável, na inclusão social, cria emprego e reduz a pobreza. Além disso, comparticipa eficazmente no uso dos recursos e na defesa do ambiente, apresentando ao residente e ao forasteiro uma identidade única através da paisagem, quer no aspecto da biodiversidade agrícola, quer no património edificado expresso nos poios [regionalismo para socalcos], nas levadas e nos palheiros. Mesmo na perspectiva da segurança podemos afirmar que os terrenos agricultados têm um risco reduzido de incidência de incêndios ou de deslizamento de terras, e de proliferação de pragas como os ratos, quando comparado com as áreas incultas. É consensual considerar-se que o Turismo é o "motor" da economia madeirense, mas não podemos esquecer que a Agricultura é uma das "rodas" que fazem a "máquina" andar (leia-se prosperar), pois o visitante ao olhar com admiração para a paisagem encontra os poios cultivados, e ao apreciar uma refeição confeccionada com os produtos da terra locais num restaurante ou no hotel, certamente está a tornar a Madeira e o Porto Santo, lugares mais sustentáveis e desenvolvidos.

Numa frase, é preciso consumir o que é regional em detrimento do que vem de fora, pois ao fazê-lo, estamos a cuidar do que é nosso, criando riqueza na agricultura e igualmente na actividade turística. Porque se nós não o fizermos, ninguém o fará por nós!

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publicado às 16:44

Este texto foi publicado no dia 26 de Março de 2017, no Diário de Notícias.

No dia 20 de Março celebrou-se o Dia Mundial da Agricultura, tendo a Escola da APEL e a Secretaria Regional de Agricultura e Pescas organizado nessa data e naquela escola (onde regressei 30 anos depois de ter sido ali aluno), um ciclo de conferências designado "A Agricultura Madeirense: Motor da economia, arquitecta de paisagens e guardiã da natureza", que foi presidido pelo Secretário Regional de Agricultura e Pescas. O Professor Doutor Alberto Vieira, Investigador Coordenador do Centro de Estudos de História do Atlântico na comunicação "O poio madeirense na construção da agricultura" realçou a ligação íntima do poio à História da Agricultura madeirense e divulgou aspectos curiosos como a influência do poio no agricultor, mormente nos seus comportamentos. Aquela imagem do nosso folclore em que se dança curvado é entendida por aquele investigador como uma veneração à terra e não como um gesto de submissão. O açúcar madeirense tornou a Região como a única do Atlântico a produzir o "ouro branco", antes de este ter-se expandido para as Canárias, Cabo Verde e o Brasil, levando por isso à sua decadência na Madeira. A nota que o Vinho Madeira é uma criação da Ilha e dos madeirenses e não dos ingleses, que só a partir do século XVII o descobriram, dando então um contributo para que a comercialização além-mar fosse maior. A comparação que o agricultor madeirense é como um xamã, isto é, alguém que tem uma ligação espiritual com a terra e tudo o que a rodeia, tendo o Professor Doutor Alberto Vieira afirmado que “o ilhéu de segunda a sexta-feira é um xamã e no sábado e domingo, é católico”. Em vez de transformar a paisagem, o agricultor criou um novo espaço, uma nova realidade por oposição à de outras paragens, na qual houve transformação. A Madeira é a primeira no espaço atlântico onde os europeus fazem agricultura por volta de 1420, salientando no final que falta escrever a História da Agricultura madeirense, apesar de haver artigos, notas e apontamentos sobre a história dos produtos agrícolas na Região, em especial na segunda metade do século passado. O Doutor Engenheiro João Baptista Silva, Investigador do Centro GeoBiotec, FCT, Universidade de Aveiro e Representante da Progeo Portugal - Associação Europeia para a Conservação do Património Geológico trouxe o tema "A Natureza não perdoa: Como cuidar, proteger e valorizar a nossa casa comum", debruçando-se sobre os fenómenos de intempérie, incêndios, e algumas pragas e doenças que têm assolado a Madeira nos últimos dez anos. Considerou que ciência sem espiritualidade não é ciência e lembrou o livro do Papa Francisco "Proteger a Criação – Reflexões sobre o Estado do Mundo" que chama a atenção para a preservação da casa comum, a Terra. Recordou os sete incêndios ocorridos entre 2010 e 2016, no qual arderam e voltaram a arder 24.750 hectares, ou seja, o equivalente a quase 25.000 campos de futebol! A aluvião de 20 de Fevereiro de 2010, as enxurradas de 2012 no Seixal e no Porto Moniz e de 2013 em Santa Cruz, Machico, Porto da Cruz e Santana. A impermeabilização do solo e subsolo no Funchal levou a que as áreas inundadas aumentassem entre 1993 e 2010. A praga da vespa das galhas do castanheiro, as doenças mixomatose e hemorrágica viral dos coelhos do Porto Santo, a varroose, uma praga que em 2016 foi a responsável pela diminuição de 70 por cento do mel de abelha regional. Os poios agricultados e os não agricultados, e o maior risco de erosão destes últimos. Asseverou que nestes dez anos destruiu-se mais que nos 590 anos anteriores. Há que cuidar da nossa Região, responsáveis governamentais e autárquicos, bem como a sociedade civil, pois se a conservarmos, estamos a cooperar para o bem comum e por isso há que conhecer, proteger e valorizar os recursos naturais locais.

Na segunda parte deste evento, o produtor de maracujá Luís Manuel Sardinha do concelho da Calheta fez uma intervenção interactiva designada "A matemática de ser Agricultor", contando com a colaboração de três estudantes que assistiam à palestra. Foi colocado num quadro alguns cálculos básicos para três cultivos agrícolas: Bananeira, vinha e maracujazeiro. Disse que para ser rentável há que contar com pelo menos um hectare de superfície e para cada cultura, calculou a produção estimada e o preço de venda, obtendo-se valores de 22.000 euros para a banana e a vinha, e de 38.000 euros para o maracujá. A estes rendimentos brutos, acrescentou um montante médio de 3.000 euros referente a ajudas à agricultura e 30.000 euros como prémio de instalação para o jovem agricultor, demonstrando assim que a agricultura pode ser frutuosa, desde que tenhamos dimensão, conhecimentos técnicos e de gestão agrícola. O Prof. Luís Paixão, Escultor, com a "Dimensão Telúrica na Arte" fez uma viagem de 30.000 anos desde a arte rupestre, passando pelas artes egípcia, grega, romana, bizantina, românica (medieval), gótica, pré-renascentista, renascentista, barroca, romântica, realista, impressionista, expressionista, cubista, abstraccionista e arte nova. Em todas as épocas, a natureza em geral e a agricultura ou actividade agrícola em particular é temática constante nas diversas expressões artísticas. Mostrou projectos de escultura com figuras regionais do meio rural que retratam profissões de outrora e sugeriu que se instalasse um "Parque do Agricultor" ou um "Parque das Tradições" na Madeira, como forma de perpetuar essas “memórias de tempos idos” no presente e no futuro. A Prof.ª Graça Garcês da Escola da APEL na apresentação "Evidências de telurismo no hino da Região Autónoma da Madeira" analisou em pormenor o hino com letra de Ornelas Teixeira e composição de João Víctor Costa, em que destaco aqui a importância da natureza no verso inicial “Do vale à montanha e do mar à serra” secundada pelo valor do seu povo em “Teu povo humilde, estóico e valente/Entre a rocha dura te lavrou a terra/Para lançar, do pão, a semente”, que num meio agreste o tornou aprazível e fértil. Por fim, em jeito de desfecho, o Director Regional de Agricultura, Eng.º Paulo Santos indicou alguns números relativos ao sector e relevou a agricultura regional como um dos suportes da principal actividade económica que é o turismo, elogiando ainda as intervenções dos oradores que o precederam.

Foi sem dúvida uma manhã enriquecedora que assinalou da melhor forma o Dia Mundial da Agricultura. Um bem-haja à organização!

 

* — regionalismo para socalco

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